“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
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7.3.10

Cambridge Spies


Cambridge Spies é uma produção da BBC de 2003 sobre a vida dos famosos quatro amigos ingleses que foram espiões ao serviço da União Soviética: Anthony Blunt, Kim Philby, Guy Burgess, e Donald McLean que, especialmente durante a Guerra Fria, traem o seu país fornecendo informação ao KGB, e cuja extensão da verdade das suas vidas (até aí só se sabiam pedaços) deixou o Reino Unido em estado de choque no início da década de 80. Tão difícil que era acreditar que um dos “nossos” (quanto mais quatro) fosse capaz de trair o país. Parece enredo de filme, mas como alguns de nós sabemos, a realidade ultrapassa quase sempre a ficção. Este é um dos casos.

Pensei que ia ver mais espionagem, isto é, mais luz sobre o mundo escuro e cheio de perigo, manipulação, suspeitas, tráfico, duplicidade, traição e jogos que acreditamos ser o mundo da espionagem. Mais idas e vindas, mais fugas, esconderijos, mais segredo e sobretudo mais conflito, com eles próprios, com os seus contactos e com o mundo. Nesse sentido fiquei um pouco desiludida com o tom “light” da série, que pouco mais faz do que dar umas pinceladas em tons luminosos, e se esquecer algum luxo e glamour, às vidas tortuosas destes homens. Tudo parece demasiado fácil: tornar-se espião, tornar-se credível perante os seus compatriotas, merecer confianças de um lado - instituições do RU - e de outro - KGB e Moscovo, que nunca terão confiado totalmente neles - penetrar no MI5 e MI6, passar informação, enganar e viver uma vida aparentemente normal e sem grandes cuidados. Não se percebe bem, por exemplo, o que fizeram os quatro, como cidadãos britânicos e espiões ao serviço de Moscovo, durante a Segunda Guerra Mundial, pois a série é bastante omissa sobre esse período, deixando implícita, mas não convincente, como explicação o facto de Reino Unido e União Soviética terem sido aliados contra Hitler.

A série termina cedo: não mostra o choque cultural e pessoal que terá sido a chegada a Moscovo de três deles (McLean, Burgess e Philby) e a sua adaptação, ou não, a um estilo de vida tão diferente daquela que eles conheciam, amavam e da qual eram “elite” e privilegiados. Não há também referência à vida de Blunt que permaneceu em Inglaterra onde fez uma vida ligada à História da Arte, e a quem foi dada uma condecoração (knighthood) que mais tarde, e ao conhecer-se toda a história de espionagem que chocou a Grã-Bretanha e que o(s) expôs, lhe foi retirada pela Rainha por influência de Margaret Thatcher.

Sobra por isso aquilo que a BBC sabe fazer melhor: o retrato de um período, ou melhor, de vários períodos da vida do século XX na Inglaterra e das suas instituições, nomeadamente a Casa Real e o Foreign Office. Sobra o tratamento das recorrentes questões de classe “us” (Eton, Trinity Colledge Cambridge...) and “them” (por exemplo, os americanos por quem sentem um leve desdém), não no sentido exclusivo de classe social, mas antes num sentido de uma elite social e cultural que está “in charge” do país, ou melhor, das instituições que sustentam o país, que ao contrário dos políticos que vão e vêm, se mantém. Esta questão às vezes parece demasiado explicada, mas talvez os mais jovens necessitem dessa componente explicativa, não faço ideia. Sobra a história de uma amizade que une os quatro homens mas cujo desfecho (da amizade) ficamos sem saber, apesar da amargura que se adivinha; sobram pequenos e deliciosos retratos da vida despreocupada e privilegiada na sociedade inglesa; sobra alguma intriga diplomática; sobra o peso, que se carrega, às vezes já sem saber porquê (coisa que eles regularmente tentam lembrar), de uma decisão tomada na juventude e que vincula inexoravelmente para a vida. Sobram inúmeros momentos do melhor humor: a greve dos empregados de mesa em Trinity Colledge, a entrevista de Burgess para trabalhar na BBC, entre outros. Sobra uma representação sólida e boas actuações, destacando-se sobretudo dois excelentes actores: Tom Hollander e Toby Stephens respectivamente nos papeis de Guy Burgess e de Kim Philby.

Finalmente, e como não poderia deixar de ser a abrir e a concluir a série, sobra o hino à “englishness”, ou não fossem eles uma parte inquestionável do “us”. Ontem e hoje, sempre Jerusalém de William Blake
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5.10.09

Cheri


Ao ver Chéri, mais um bom filme de Stephen Frears (baseado num romance de Collette) que nos mostra uma das melhores interpretações de Michelle Pfeiffer no papel ambíguo de uma mulher que envelhece e se “reforma” da sua profissão de cortesã saboreando finalmente a riqueza e as noites dormidas sozinha na cama, mas que - ao tomar conta de um jovem filho de uma “companheira” de profissão - se apaixona por uma vez, e por quem não devia (se é que alguma vez se deve seja o que for, sobretudo no domínio da paixão), lutando para que essa paixão não se mostre nem aos outros nem a ela e não a “derrube”, lembrei as semelhanças entre a personagem masculina do filme e uma outra personagem masculina de uma série que vi recentemente: The Line of Beauty, também ela baseada numa obra literária, neste caso num romance de Alan Hollinghurst. O mesmo tédio e abandono de si próprios e dos seus percursos e opções, o primeiro nas mãos de Léa, o segundo, Nick, nas mãos, rotinas e hábitos da família Fedden. Ao contrário de Nick que se deslumbra com a abundância dos Fedden e do meio em que se movem (com algumas pouco subtis reminiscências de Brideshead Revisited onde se inclui a homossexualidade plenamente assumida no caso de The Line of Beauty), Chéri nasce na abundância, mas numa família disfuncional, se é que se pode sequer falar em família. Ambos no seu estado de permanente langor (propício ao consumo de drogas) cultivam o esteticismo e a beleza como um fim em si, como uma forma de estarem na vida e em sociedade, como expressão daquilo que são e do que querem. De formas distintas, ambos são “abandonados” no fim: um pela família que o acolhe, outro pelas suas inevitáveis opções como se se tratasse de um destino já escrito.


The Line of Beauty é uma série irregular, bem feita - tem a chancela BBC e todo o rigor no retratar de uma época e com todas as subtilezas necessárias que marcam a persistente estratificação da sociedade inglesa, mas que nunca cativa plenamente tal a superficialidade e automatismo das personagens e da banalidade narrativa.

Chéri, ao contrário, e apesar do rigor do retrato da “Belle Époque” e do deslumbre (nosso) perante o guarda-roupa, interiores e exteriores (o jardim de Inverno de Mme Peloux é de antologia), é todo feito de modulações psicológicas das várias facetas do abandono ao amor, da idade e do tempo quer passa, da inevitável e esperada separação, e das tentativas de superar e não mostrar a dor provocada pelo afastamento do ser amoroso. Como pano de fundo o afundar da forma de vida de Léa e das suas companheiras e a decadência da própria sociedade com o mundo a mudar em vésperas de guerra.
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