“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
holehorror.at.gmail.com

6.9.07

A Espuma dos Dias que foram 4

Foz do Minho
Clicar para ver melhor

Luciano Pavarotti

Era uma força da natureza, bigger than life, com uma voz que enchia e comovia. Não deixou ninguém indiferente. A morte leva-o cedo demais. Nunca o vi (ouvi) ao vivo. Pena.

Aqui canta em português com Caetano Veloso, numa das suas muitas extravagâncias.

5.9.07

A Espuma dos Dias que foram 3

Foz do Minho (a Ínsua ao fundo)
Clicar para ver melhor

I Fell out of Bed

De vez em quando dou por mim a ouvir com atenção as letras das músicas e a perguntar-me se fazem algum sentido, se têm alguma qualidade, alguma sonoridade mais interessante ou se veiculam alguma ideia. Creio que tudo começou, há muito tempo, com um pedaço de refrão de uma música dos Bee Gees I Strated a Joke, da qual, durante muito tempo, eu só conhecia este pedaço de frase and I fell out if bed que me intrigava demais, e perguntava-me, com uma pontinha de indignação, como é que “cair da cama” podia estar numa letra de música tão pungente assim e que parecia ter um cunho algo dramático que nos desafiava enquanto ouvintes. Demorei muito tempo até mais ou menos conhecer o resto da letra, e mais ou menos perceber como é que o fell out of bed encaixava no sentido daquela canção. E encaixa, pelo menos tanto quanto todas aquelas frases fazem sentido. Eu gosto da canção. (Pode-se ouvir aqui)

Um Pouco mais de Alma

Há letras de músicas que me surpreendem porque me parecem nada ter a ver com a música, ou com a melodia, outras porque inesperadas, outras porque não dizem nada, outras que simplesmente me agradam, ou porque são bem feitas ou simplesmente porque sim, que é sempre um bom motivo. Divirto-me a adivinhar as rimas, tarefa algo fácil com a maioria das músicas portuguesas em que qualquer coisa terminada em “or” rima com amor (será que exagero?), ou que tudo o que termina em “ão” acaba sempre a rimar com coração ou paixão. Nestes últimos tempos ando às voltas com um pedaço de letra de uma canção que ouço repetidas vezes na rádio cantada por João Pedro Pais e Mafalda Veiga. Não sou especial apreciadora de nenhum destes cantores, nem gosto particularmente deste dueto em que as vozes parecem dissonantes, por isso nem sequer me esforcei por perceber a letra, mas o refrão que reza assim Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma / Mesmo quando o corpo pede um pouco mais de alma, deixa-me siderada. Que tudo peça mais calma ainda vá que não vá, que nos dias que correm a tranquilidade é sempre bem vinda, agora que é isso de o corpo pedir um pouco mais de alma? Isso existe? Eu bem quero não pensar na frase, mas ela causa profundas dúvidas ontológicas a qualquer pessoa que perca mais de dois segundos a ouvi-la. Provavelmente não terá sido essa a intenção dos autores, se calhar tudo o que queriam era uma rima que não fosse muito má e que parecesse um bocadinho pensada, menos light, mas que se pode fazer quando se apregoa que o corpo pede um pouco mais de alma?

Combate ao Sedentarismo 35

Para os ver dançar, clicar aqui

Smoke gets in your eyes

They asked me how I knew
My true love was true
Oh, I of course replied
Something here inside cannot be denied

They said someday you'll find
All who love are blind
Oh, when your heart's on fire
You must realize
Smoke gets in your eyes

So I chaffed them and I gaily laughed
To think they could doubt my love
Yet today my love has flown away
I am without my love

Now laughing friends deride
Tears I can not hide
Oh, so I smile and say
When a lovely flame dies
Smoke gets in your eyes
Smoke gets in your eyes

The Platters

4.9.07

Dean, Félix. Furacões, Monções, Tufões, Ciclones e demais tempestades

Por muito esforço que se invista em programar trabalhos, actividades ou férias, temos sempre que lidar com as circunstâncias tais como elas se apresentam e não tal como se desejam e sonham. Ninguém diria em Abril que este verão, do ponto de vista da meteorologia, seria o que foi: ventos fortes e persistentes, chuvas abundantes, nuvens, temperaturas muito abaixo do normal e uma temperatura da água do mar pouco amiga de banhos prolongados. A vida tem sempre uma a componente de imprevisibilidade que não cessa de surpreender, mesmo aqueles que mais apregoam gostar do imprevisto e se declaram pouco amigos de grandes planos e agendas. Há, no entanto, factores que são previsíveis e pouco esforço é necessário para que todos os conheçam. Em Agosto há por esse mundo fora, furações, monções, tufões, chuvas fortes, e calores abrasadores. Viajar para lá do Mediterrâneo, neste período do ano, representa sempre um risco elevado de encontrar condições meteorológicas adversas. Ignorá-lo é sinal de que não se sabe, ou de que não se está preparado para viajar. Viajar implica sair do mundo tal como se conhece, sair de si, dos hábitos, confortos e das pequenas seguranças; é incómodo, cansa, deixa-nos vulneráveis, faz-nos crescer.

Hoje pouco se viaja de facto. Fazem-se férias aqui e ali, mas viaja-se pouco. Uma travessia dos oceanos ou continentes apela a todos os que crêem gostar de viajar, de aventuras e de imprevistos e que não deixa de encher o peito a quem atravessa a zona de embarque de qualquer aeroporto. Mas o que fazem é ir de férias, uma estadia de uma semana bem entrincheirados num resort com segurança prevista, conforto razoável e programas para todos os gostos, e sempre lado a lado com outros tantos que, surpresa das surpresas, fazem férias. Provam-se umas comidas locais, bebem-se umas bebidas exóticas adocicadas com o alcool suficiente para “relaxar”, compram-se uns recuerdos, fazem-se umas excursões para visitar a cidade/vila mais próxima, e com um bronzeado de impor respeito, regressa-se a casa com a sensação de ter descoberto novos horizontes. Mutatis mutandis estamos perante uma versão um nadinha mais exótica e ousada de uma ida à terrinha (sem nenhum tipo de desprimor para a terrinha tão querida de todos nós) onde se tem a segurança e conforto de que gostamos, as comidas e bebidas que adoçam o coração, a visita à cidade/vila mais próxima, e os outros que tal como nós, querem mais do mesmo. Ora isto não é viajar.

Tanto não é viajar que, à primeira contrariedade, neste caso o furacão Dean, enchem-se os noticiários que dão conta dos portugueses que livremente escolheram fazer férias nessas paragens e que no entanto se lamentam do azar. Acho bem que a comunicação social se preocupe com a sorte dos portugueses que estão de férias, mas não ao ponto de abrir noticiários e encher páginas de jornais durante dias a fio. Sobretudo sabendo que qualquer turista num resort está mais preparado para enfrentar os ditos furacões do que a maioria da população local. O furacão Félix, que hoje com a força máxima, ameaça países como a Nicarágua e as Honduras não merece nem de longe nem de perto o tratamento mediático do Dean, só porque não há tantos portugueses a fazer férias nas Honduras e na Nicarágua. Parece um pouco desajustado, não?

Dando Excessivamente sobre o Mar 10

Paul Gauguin
Vaches au Bord de la Mer, 1886
(clicar para ver melhor)

3.9.07

A Espuma dos Dias que foram 2

Lembro-me de durante as férias ter ouvido falar de:

Luta interna no BCP. Confesso que prestei pouca atenção a estes episódios finais, mas não sei porquê fiquei a admirar mais Belmiro de Azevedo e reforcei a minha convicção de que ele é o que mais próximo existe em Portugal de um verdadeiro empresário, independente do regime, do centrão e muitas vezes até apesar de e contra o Estado. Não gostei desta novela BCP, talvez por ser um espelho demasiado fiel da nossa realidade/mentalidade portuguesa.

Entrega de computadores pela mão do Primeiro-ministro algures aqui no nosso país. A notícia provoca náusea pela falta de imaginação deste enredo e consequente previsibilidade; pelo simbolismo bacoco, paternalista e provinciano do gesto (no Estado Novo fazia-se melhor?) que a repetição expõe sem dó. Revolta por nos tomarem por parvos.

Deboche. Apurei o ouvido, interessei-me, fiz uma nota mental para posteriormente tentar perceber do que se tratava. Assim fiz e a desilusão foi total. Nem com “deboche” Portugal aquece.

Eduardo Prado Coelho. Lia às vezes as suas crónicas que ora me irritavam (a grande parte das vezes), com o seu exibicionismo intelectual as inúmeras citações, as frases incompreensíveis, o preconceito e o azedume, ora me divertiam com o seu olhar particular sobre o mundo, o humor, a ironia, a bonomia e a sua, tantas vezes, boa escrita. Era culto e gostava de exibir a sua cultura. Era uma figura presente e agora é ausente. A doença, nossa e dos outros, ameniza-nos porque sabemos que perante ela todos estamos desprotegidos e sós. E sós deixamos este mundo.

Red Bull Air Race. Tenho pena de não ter visto. Teria tido a sua dose de emoção, estou certa.

Furação Dean e portugueses de férias nas Caraíbas. Voltarei em breve a este assunto.

2.9.07

A Espuma dos Dias que foram

Castro Laboreiro
Serra da Peneda
(Clicar para ver melhor as ruínas do Castelo no canto superior direito)

É esta paisagem agreste, serra feita de muita pedra, urze e tojo, céu azul que depressa nuvens grossas escurecem para pouco depois se desfazerem, sol brilhante que tanto se esconde e nos arrefece como no momento seguinte nos queima, e vento, sempre vento, que me move. É esta beleza rude e esta sensação de inacessibilidade e de incompreensão que me seduz.


17.8.07

Ir de Férias...

... até Setembro.

Combate ao Sedentarismo 34

16.8.07

Postal Ilustrado 11

Azares

Nas últimas semanas fui duas vezes ao cinema. De nenhuma das vezes escolhi o filme que fui ver, uma situação que por si só já considero como um mau prenúncio. Tal como temia não gostei de nenhum dos filmes, tendo o primeiro sido muito pior do que o último. O primeiro foi Nem Contigo...Nem Sem Ti uma comédia romântica, so they say, que dá vontade de chorar de tão má que é. Tudo naquele filme é mau, a produção é pirosa, a realização paupérrima, a história é um patético cliché que custa a acreditar – e a ficção tem que ser credível - as personagens são confrangedoras e nunca convincentes, a interpretação pobre, os cenários muito maus tal como a roupa e a maquilhagem e até Michelle Pfeiffer estava uma sombra do que é. O que ela fazia ali naquele filme permanece um mistério. Nunca devia ter visto aquele filme; tanto mau gosto e falta de qualidade juntos fazem mal.

O segundo filme, visto recentemente é Ratatui, o último filme de animação da Disney Pixar. O filme nunca nos transporta como a saga The Incredibles, nem nos embala como À Procura de Nemo só para falar em produções da Disney. Para além de dois ou três gags poderosos o filme nunca consegue passar de uma inócua banalidade que nem aquece nem arrefece. O mundo da gastronomia restaurantes, competição, estrelas, críticos, por exemplo, nunca é objecto de um olhar verdadeiramente mordaz e a história acaba bem demais num embalo de igualdade e moralidade que condiz com os olhinhos tristes do rato que os violinos sabem sempre acompanhar. Depois, claro, há o problema de ver ratos e ratos e ratos durante todo o filme, e se o protagonista é girinho e limpinho, o mundo dos ratos está longe de fascinar (Por Água Abaixo, comentado aqui, foi excepção e foi um dos filmes de animação que mais gostei de ver).

15.8.07

Dando Excessivamente sobre o Mar 9

Scène de plage (La Tour-de-Peilz), 1874
Gustave Courbet

14.8.07

Igualdade

Nada como uma ida ao Ikea para levar com um banho de igualdade. Lá somos todos iguais perante os Kroken (um suporte magnético para facas), os Snar (uns individuais, mas falta a bolinha no “a”) ou uns Ikea Stockholm (umas mantas). Todos fazemos o mesmo percurso, todos nos demoramos a ver as mesmas coisas, todos compramos o mesmo (enfim, quase), todos fazemos uma estimativa de quantos sacos de papel vamos precisar para os pagarmos. Ali não interessa idade, sexo, raça, apelido, o Ikea é de todos e para todos e lá o dinheiro não tem cheiro e é igual e vale o mesmo nas mãos de seja de quem for. O Ikea é talvez um dos locais onde eu me sinto mais igual, e não estou segura de gostar muito dessa sensação. A ironia é que o que as ideologias, os regimes, as utopias, os políticos têm demorado séculos a tentar, sem grande ou mesmo nenhum sucesso, pois tudo a que chegam tem sido à força e não passa de uma vaga aproximação, o consumismo consegue fazer: no Ikea somos todos iguais.

13.8.07

Luz















Invariavelmente antes do feriado do dia 15 de Agosto, aparecem no céu os primeiros sinais de um Outono que estará para chegar. É a luz que, ao amanhecer e anoitecer, fica mais suave, menos branca e mais amarelada. Na praia a luz é menos crua e olha-se melhor para o mar, no campo os verdes começam a encontrar outras cores. É um dos períodos do ano de que mais gosto, o fim do Verão.

Formar e Criar Novos Públicos

Os nossos governantes da área da Cultura têm justificado muitas das suas polémicas decisões (por exemplo a crise no S. Carlos) pela imperativa necessidade de formar e criar novos públicos e de fazer de Portugal um país de turismo cultural. Já aqui disse o que pensava sobre o assunto, mas confesso que perante a realização de um evento culturalmente tão significativo como o 1º Festival de Música Popular Portuguesa que teve lugar este fim de semana passado em Ponte de Lima, fico com medo que a criação de novos públicos e o querer fazer de Portugal um país de turismo cultural não sejam, tal como eu pensava, meros chavões políticos ou tretas sem nexo. Afinal eles sabiam do que falavam.

12.8.07

Plataforma contra a Obesidade 17

Pieter Claesz
Still Life with Drinking Vessels, 1649

Dos Barulhos e Ruídos

Cada vez gosto menos de barulho e de ruídos e cada vez convivo melhor com o silêncio. Sou incapaz de ligar uma televisão para sentir o barulho ou a companhia e não ponho CDs a tocar para ter música de fundo. A moda dos leitores de MP3 ou ipods passa-me ao lado porque não consigo pensar em que ocasiões posso querer música e não a ter, e não gosto de ter coisas (phones) nos ouvidos, porque caiem, porque se desajustam, porque ao se desajustarem fazem ruído. Creio que só no carro a conduzir é que me distrai a dita música de fundo. Dito isto, gosto muito de música e muitas vezes a ouço, mas não para ter um ruído ou um barulho de fundo, ouço para realmente a usufruir e muitas vezes ouvi-la impede-me uma concentração ideal noutras tarefas. Gosto do barulho do vento nas folhas das árvores, do barulho do mar, do barulho dos trovões, já o chilrear dos passarinhos de manhã nem sempre é bem vindo! Irritam-me os CDs de música relaxante que acabam invariavelmente por me cansar e me dão vontade de silêncio, ou então de uma sinfonia que tome conta de mim, de uma ária que me lembre que canto mal, ou de uma música que faça dançar. O barulho do trânsito é uma maldição dos tempos modernos, e músicas de fundo (ou bem à frente) são poluição.

Há uns anos fui arrastada por uns amigos, estávamos na Áustria, para ir ver um Grande Prémio de Fórmula 1. Ver um grande prémio não estava na lista de coisas que gostaria de fazer, mas acabei por ceder e fui. Cansada de tanto andar sob um calor de verão, cansada da multidão, cansada da confusão, cansada do barulho, cansada de pensar que ainda ia ter que esperar muito até me ir embora, nada me restava senão encher-me de paciência. Começou a corrida e finalmente começam os carros a passar à nossa frente. O que era um ruído insuportável tornou-se, à medida que os carros se aproximavam, num ruído de motor fortíssimo, certamente inesperado e único, e muito excitante, tal a potência que lembra e a vibração que se sente mesmo em nós. Naquele dia fiquei fascinada com o barulho dos motores dos carros de Fórmula 1, que ainda hoje lembro como um dos mais belos ruídos.

Há outro ruído quase ensurdecedor que também me encanta, este encantamento certamente com raízes mais profundas, talvez inscrito no código genético e afirmador de pertença. Falo dos Zés-Pereiras dos seus bombos e tambores em ritmo crescente. Presença obrigatória nas festas e romarias do Minho, eles animam muitas vezes Largos e Praças chamando a atenção de todos e mostrando a sua destreza e força, e despoletam memórias de uma infância muito vivida no Alto Minho, nomeadamente, mas não só, em Viana do Castelo, uma cidade que vivia sempre em festa. Quem passar pelo pelo Alto Minho no verão dificilmente escapa a uma romaria ou festa, e provavelmente cruzar-se-á com os Zés-Pereiras, seu som e ritmo.

Coisas que se podem fazer ao Domingo 9

Corneille VAN CLÈVE, 1645 - 1732
Polyphème assis sur son rocher - 1681



Espreitar o mar que bate nas rochas

10.8.07

Combate ao Sedentarismo 33

Licença de Uso & Porte de Crianças

(título roubado aqui)

A ideia é interessante e apelativa, pois qualquer pessoa minimamente atenta elabora, com base na experiência de um mero “andar por aí”, uma longa lista de negligencia parental: crianças tarde nas noites de verão bocejando em locais onde os Pais “tomam um copo”, recém nascidos invariavelmente pouco agasalhados em hipermercados por baixo de excesso de luz de neons e de ar condicionado, pais e crianças aos gritos uns com os outros em pé de igualdade, crianças sujas, crianças no mar a tiritar de frio, são alguns dos exemplos mais notórios. O problema é complexo e não se esgota na questão da negligência. Passa pelos sensíveis conceitos quer de autoridade quer de disciplina que foram tão maltratados, questionados e por fim negligenciados ao longo das últimas décadas, o que acabou por se reflectir também na forma como se é hoje Pai e Mãe. As referências tradicionais desmoronaram-se, a ideia de um Pater Familias desapareceu, mas multiplicaram-se as escolas psicológicas especializadas na vida intra-uterina, na primeira infância, na puberdade, na juventude, abundam os gurus da pediatria, da psicologia da aprendizagem, da pedo-psiquiatria, da terapia psicológica, da pedagogia, da psiquiatria da juventude, da psicologia terapêutica da família, enfim um mundo infinito de abordagens alternativas para “ajudar” a educar. Limitei-me a referir disciplinas aceites do ponto de vista das ciências médicas e humanas, mas há alternativas para todos os gostos, carteiras e para quem queira procurar. Com tanta abordagem diferente à missão de educar os filhos, missão essa que até há pouco (em termos absolutos da história do mundo) parecia simples, não admira que os pais hoje se sintam absolutamente perdidos, e tenham dificuldade em reclamar para si a autoridade o poder de decisão, a liberdade. Muitos deles nem sabem que o podem fazer, ou melhor, que o devem fazer, por isso adoptam uma postura que propicia a negligência.

Claro que a Licença de Uso & Porte de Crianças parece ser uma ideia feliz, resta saber quem é que a atribui. Uma entidade Estatal? Entidades privadas a competir entre si? Comité de Sábios? Sábios de quê? Funcionários Públicos? Psicólogos? Psiquiatras? Pediatras? Pais experientes? Avós? Professores? Padres? Um pouco de tudo? Ah, o mundo que nos espera se formos por aí...

8.8.07

Dando Excessivamente sobre o Mar 8

Claude Monet,
"Cliff Walk at Pourville", 1882
(clicar para ver melhor)

Não sou apreciadora do estilo de Joe Berardo, já aqui o disse, mas é sempre refrescante ouvir alguém dizer em voz alta e de uma forma clara e isenta de metáforas e outras ajudas retóricas, aquilo que disse ontem à noite na SIC em entrevista a Mário Crespo. Juntando às palavras de Berardo o espectáculo da novela BCP, o maior banco privado português, nos últimos tempos ficamos com a sensação, de que também o Banco é um espelho do país. Perde muito tempo em manobras e a acautelar interesses de grupos e pouco a criar riqueza.

6.8.07

What Goes Around

(...)
What goes around, goes around, goes around
Comes all the way back around
What goes around, goes around, goes around
Comes all the way back around
What goes around, goes around, goes around
Comes all the way back around
What goes around, goes around, goes around
Comes all the way back around
(...)

Justin Timberlake

Plataforma contra a Obesidade 16

Paul Cezanne
Nature Morte avec Pommes
(clicar para ver melhor)

5.8.07

Ida e Volta

Ontem fiz mais de 900km numa viagem de ida e vinda que me levou ao topo noroeste do país. Comecei às 6h30m da manhã e na auto-estrada do norte, pouco depois de deixar Lisboa para trás fiquei deslumbrada com o sol a nascer por cima do Tejo. Uma enorme bola pouco nítida, pois o ar estava enevoado e de um leve cinza que contrastava com a cor salmão do sol e do rio que espelhava luz. O meu olhar demorava-se nesse amanhecer.

Ouvia na rádio as notícias de um acidente em Coimbra que tinha ocorrido durante a noite e que condicionava ainda a circulação de norte para sul. Pensei naqueles que faziam a viagem em direcção ao Sul, nomeadamente ao Algarve e que pensavam que sair cedo os ajudaria a fazer melhor a viagem. Antes das 8h, quando passei pelo local do acidente, a estrada ainda não estava “limpa” segundo as informações que ouvia, pude ver a bicha de carros que já existia. Eu creio que é impensável e inadmissível manter a circulação de uma auto-estrada condicionada por tanto tempo - ouvi à noite num telejornal falar em 18 horas – e que roça os limites do absurdo e é totalmente inaceitável. Limpar a via não demora tanto, nem que o material derramada fosse altamente tóxico. Ao longo das horas que passavam ouvi referências a 10km de bicha. Será que não há ninguém responsável por isto?

A chegada ao norte, agora mais facilitada por não se passar por Viana do Castelo, trouxe consigo o ar fresco e limpo e o cheiro de maresia depressa invadiu o carro, enquanto o olhar se demorava na costa, nas gentes nas praias, na Foz do Minho e nos múltiplos tons de verde brilhante que enchem a paisagem.

Mais tarde, e já de regresso, uma rápida passagem e um breve passeio pelo Porto confirmou aquilo que tenho visto ultimamente e que estava pouco habituada, uma cidade cheia de turistas, a pé, em autocarros de dois andares abertos em cima, nas esplanadas, na Foz, na marginal, na Ribeira. Verão ou inverno o que é um facto é que o Porto se enche de turistas.

Coisas que se podem fazer ao Domingo 8

"Aphrodite au Pilier"
Séc. I - II AD (?)
(Clicar para ver melhor)


Perder a cabeça.


3.8.07

Uma Diva


Vi poucos filmes de Michelangelo Antonioni porque os achava muito chatos. Preferi sempre o neo-realismo, e mesmo Fellini nas suas diferentes incarnações bem como as comédias, Tótó, e mesmo a dupla Marcello Mastroianni e Sophia Loren. Mas lembro-me que os seus filmes tinham belas imagens, mulheres (e homens também) bonitas e bem vestidas, apesar de deprimidas e pouco felizes.

O seu maior legado sempre me pareceu ter sido Monica Vitti.



2.8.07

Dando Excessivamente sobre o Mar 7

Gustave Courbet
Le bord de mer à Palavas
(Clicar para ver melhor)

Véu Islâmico 7

A propósito desta notícia que tanta polémica tem gerado.

Que se perceba a suprema ironia que é o "Véu Islâmico" ter chegado a Portugal (nesta forma tão mediática, aliás a mais mediática até hoje), não na cabeça de uma mulher Islâmica mas sim na cabeça de uma Portuguesa não islâmica, tanto quanto sei.

Que se perceba a leviandade e ligeireza de quem parece não perceber que os gestos são importantes e que os símbolos têm tantas vezes vida própria.

Que se perceba que não há pior zelo que o zelo do convertido.

1.8.07

31.7.07

Encosta-te a Mim

Encosta-te a mim,
nós já vivemos cem mil anos.
Encosta-te a mim,
talvez eu esteja a exagerar.
Encosta-te a mim,
dá cabo dos teus desenganos
não queiras ver quem eu não sou,
deixa-me chegar.
Chegado da guerra,
fiz tudo p´ra sobreviverem nome da terra,
no fundo p´ra te merecer
recebe-me bem,
não desencantes os meus passos
faz de mim o teu herói,
não quero adormecer.
Tudo o que eu vi,
estou a partilhar contigo
o que não vivi, hei-de inventar contigo
sei que não sei às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim.
Encosta-te a mim,
desatinamos tantas vezes.
Vizinha de mim, deixa ser meu o teu quintal,
recebe esta pomba que não está armadilhada
foi comprada, foi roubada, seja como for.
Eu venho do nada porque arrasei o que não quis
em nome da estrada, onde só quero ser feliz.
Enrosca-te a mim, vai desarmar a flor queimada,
vai beijar o homem-bomba, quero adormecer.
Tudo o que eu vi,
estou a partilhar contigo, o que não vivi,
um dia hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar,
mas quero-te bem.
Encosta-te a mim.
Quero-te bem.
Encosta-te a mim.

Jorge Palma

Encosta-te a Mim

Liquefação

Salvador Dali revela-se sempre uma grande, e previsível, ajuda para ilustrar a liquidez e a plasticidade do tempo. Na sua série de quadros sobre o tempo com relógios líquidos, entramos no domínio da metáfora do tempo que passa, na relatividade do tempo que se vive, mais do que no domínio da ciência exacta, há quem lhe chame arte, da medição do tempo. Mas medir o tempo é um dos mais antigos fascínios da humanidade.

Do Tempo

Fico perplexa de cada vez que sei que alguém de vinte e poucos anos lança uma biografia. Desta vez é Pedro Mantorras a lançar a sua. Se biografia é escrever a vida, eu desejo uma longa vida a todos, Mantorras incluido, o que tira sentido ao que se pode escrever aos vinte anos por muito interessante que seja, e eu até parto do princípio que Mantorras terá histórias interessantes a contar. Poderão ser memórias de infância, ou o caminho até ao sucesso e fama - valores tão na moda e tão vendedores de livros, poderão ser milhares de pretextos, mas biografia? Parece dum pretenciosismo algo pesado para uma pessoa tão nova com uma vida pela frente.

Perguntaram-me há dias há quanto tempo tinha tirado a carta de condução. Não faço ideia, tenho que pensar, respondi. Depois percebi que para quem tirou a carta há três ou quatro anos, já passou uma eternidade. Para quem tem que pensar, parece que foi ontem, e que tem uma vida a viver.

30.7.07

Hoje há luar 3

Ingmar Bergman



Nunca me interessei muito pelo existencialismo, aquele existencialismo típico das décadas de 50, 60 e 70, vivido entre dois cigarros, uns papeis e livros, e um café num bistrot emblemático de Paris. Não falo nos movimentos filosóficos que estiveram na origem dessas correntes e que, infelizmente, conheço mal. Li com enfado alguns dos autores que tive que ler; Sartre, por exemplo era-me insuportável. Digo era, no passado, porque já morreu, porque nunca gostei do homem que era nem do que ele representava, e sobretudo porque nunca mais o li. No entanto guardo boas memórias de algumas obras literárias como L’Etranger de Albert Camus ou La Condition Humaine de André Malraux que foram obras que li avidamente, sobretudo esta última. Ingmar Bergaman, um homem que deixou uma vastíssima e rica filmografia, foi sempre tido como um produto do existencialismo nórdico, mais cinzento, que não do fumo do cigarro note-se, e menos folclórico do que o francês, e alguns dos seus filmes, por exemplo Persona ou a série Cenas da Vida Conjugal demonstram-no bem: a existência, a mortalidade, a liberdade, a sociedade enquanto condicionadora dessa liberdade, a solidão, a expressão da sexualidade. Nem sempre gostei de ver os seus filmes: alguns acabavam por se revelar lentos, um pouco parados e até deprimentes, mas sempre reconheci quer o seu talento, quer a profundidade das suas reflexões e temas que trazia para a sua obra. Eu, é que nem sempre estava (nem estarei, presumo) disponível para o apreciar devidamente.

Mas há duas obras dele que me marcaram bastante. A série Fanny e Alexandre pela beleza, pela nostalgia de um passado e de uma família que se pensa e sonha e O Ovo da Serpente, talvez o mais “americano” dos seus filmes e por isso talvez também o menos bergmaniano. Este último é passado em Berlim entre as duas guerras mundiais, e eu sempre gostei de filmes passados em Berlim nessa época - Cabaret de Bob Fosse, Berlim Alexanderplatz de Fassbinder, uns dos mais conhecidos. Foi um filme que transmitiu muito bem a insegurança que se vivia então, com dois actores notáveis (Liv Ullman e David Carradine), e que me me assustou e perturbou do início ao fim quando o vi pela primeira vez tal o ambiente de medo, de desconfiança e de terror que ele descreve com os primeiros passos das bizarras e terríveis experiências médicas nazis feitas, neste caso e nesta altura, ainda à população em geral e não exclusivamente orientadas para determinados grupos, por exemplo os judeus, são o tema do filme.

A morte hoje de Ingmar Bergman acaba por ser um pretexto para lembrar a sua obra, o que dela conheço e desconheço bem como o que mais gostei e mais me tocou.

29.7.07

Coisas que se podem fazer ao Domingo 7

Le Discophore
Séc. I - II A.D. (?)
(Clicar para ver melhor)


Esperar

28.7.07

Quem estivesse com receio de deixar de ver o Primeiro-ministro em Portugal por causa da Presidência da União Europeia fica depois desta semana mais tranquilo. Primeiro a distribuição de computadores aos portugueses, depois a distribuição de quadros interactivos e de computadores pelas escolas, depois a apresentação do projecto Casa Pronta, seguida de uma entrevista à televisão, canal SIC. Hoje, sem descanso, José Sócrates está no Algarve para apresentar um programa de novos investimentos no sector do turismo e no sector da saúde, enfim tornar o Algarve mais “All”.

José Sócrates pode não governar, mas a máquina da propaganda, entre apresentação, entrevistas e declarações, para quem ainda tivesse dúvidas, mostra-se profissional, eficiente e bem oleada.

25.7.07

Plataforma contra a Obesidade 15

Jan van de Velde (1620-1662)
Still Life: A Goblet of Wine, Oysters and Lemons

24.7.07

Combate ao Sedentarismo 31

Do Vazio

Depois de ter escrito o post anterior vi na televisão o nosso Primeiro-ministro a entregar simbolicamente numa sala encenada e com figurantes a fazerem de alunos, quadros interactivos e computadores. Fico satisfeita que as escolas tenham bons computadores e que as crianças os incorporem no seu dia a dia e no seu processo de aprendizagem, mas acreditar e fazer-nos crer que estes equipamentos são fundamentais para o sucesso escolar e aprendizagem é mais um preocupante sintoma do vazio que enche tantas cabeças daqueles que nos governam e, neste caso, que decidem a política educacional.

O quadro interactivo e o seu funcionamento e potencialidades serão o centro de atenção da sala de aula. A interactividade vai passar por explorar o quadro e, mesmo que involuntariamente, vê-lo como um fim em si mesmo e não como um veículo nulo como até hoje tem sido o quadro preto. A interactividade desejada, eu diria mesmo a indispensável para uma boa aprendizagem, é sempre a que passa entre o professor e o aluno. Claro que é mais difícil do que depender de um quadro interactivo e computador: requer, para o professor, preparação, dedicação, trabalho e capacidade para acolher o aluno, com todas as suas capacidades e sobretudo potencialidades, mas também requer disciplina, atenção, esforço e trabalho por parte dos alunos. Sem estes ingredientes, por muitos quadros interactivos que haja, não há aprendizagem que sedimente e dê fruto. Mas de facto, o que é que interessa o conhecimento e o saber perante o manuseamento de um quadro interactivo?

Dando Excessivamente sobre o Mar 6

Auguste Renoir
La Vague 1879
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23.7.07

O vazio

Paris Hilton, a jovem loira que tão bem ilustra o valor da celebridade hoje sendo célebre por ser célebre, esse ícone cor-de-rosa do nada, é uma das figuras mais mediáticas e a mais escrutinada e seguida do planeta. Revistas, jornais, televisões, internet e livros: nenhum meio escapa ao poder desta loira que todos querem conhecer. Longe vão os tempos em que se queriam conhecer as pessoas pelos seus feitos, pelas suas obras, pelas suas ideias ou até pela sua personalidade. Agora os parâmetros são outros, o que talvez ajude a explicar o fenómeno de ascensão à celebridade de pessoas tão improváveis. O mesmo se passa no meio político e Portugal não é excepção.

Os líderes políticos que se impõem e se reconhecem facilmente quer pela força da sua visão e projecto, quer pelas suas convicções e ideias, ou mesmo pelas suas personalidades complexas e tantas vezes polémicas, trazem com eles uma grandeza de quem viu, sabe, conhece e quer. Escapam às estratégias de marketing que coreografam posturas e gestos, que impõem slogans, tons de voz e tiques, e os preparam para serem um produto. Eles próprios são o seu marketing, a estratégia e a táctica e detêm uma autoridade própria. Parece que estamos em período de carência deste tipo de líderes, ou porque eles já não existem ou não querem, ou porque a própria sociedade evoluiu e já não os quer e prefere pessoas, que, tal como Paris Hilton, se fabricam e moldam para responder às expectativas mais simples, básicas e demagógicas. Hoje olhamos para Portugal, e mesmo para o mundo e vemos líderes políticos tépidos, que parecem ter saído de uma prateleira de supermercado depois do banho de marketing que os torna apetecíveis e facilmente consumíveis, apesar do sentimento de vazio e o som do oco. Têm um bom rótulo, mas a essência parece pobre, o conhecimento fraco e o talento discutível. Estudam Inglês Técnico em vez de Shakespeare ou Dickens e nem mesmo Bill Clinton, um homem com inegáveis talentos e capacidades, escapou à confrangedora banalidade ao consentir falar da sua vida íntima perante as câmaras de televisão; primeiro mentindo e depois pedindo desculpas ao país. Estamos no mundo do parece. Parece que é determinado(a), parece que sabe o que faz, parece ambicioso, parece que conhece os dossiers, parece informado.

22.7.07

Coisas que se podem fazer ao Domingo 6

Jean-Jacques PRADIER, Satyre et Bacchante 1834
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outras duas perspectivas


Apanhar e seduzir bacantes. Coisas de adultos.

21.7.07

A Geração Harry Potter 2

Falei num post anterior do facto de uma franja da sociedade crescer com a saga de Harry Potter como principal referência literária, ou mesmo, em muitos casos, a única que terão. Confesso que prezo pouco, e venero nada, a tão valorizada literatura juvenil que enche hoje os manuais escolares de língua portuguesa e as prateleiras das secções “juvenis” das livrarias. Eu aprendi a língua portuguesa com os autores consagrados da língua e não percebo porque é que hoje os textos dos livros são todos “juvenis” na melhor das hipóteses, e imbecilo-infantis, com um tom moral politicamente correcto (o tom moral dos manuais antigos era de uma ingenuidade desarmante) como norma. Que é que se pode esperar de toda uma geração que engole a série “Aventura”, que parece não ter fim nunca (os editores lá sabem), dos 9 aos 14 anos? Ou das variantes infinitas de “Diários de...” que nada dizem que não seja mais do mesmo, forçando os “jovens” a fecharem-se ainda mais nos seus já de si grandes umbigos, mundos de bué, sms desenfreadas, respostas tortas e insolentes a tudo e todos e exigências múltiplas. Não quero dizer que os livros digam ou ensinem coisas “más”, eles até têm sempre uma óbvia componente paternalista e pedagógica, o que digo é que não ensinam nada de novo, não abrem horizontes - viver aventuras em cada canto de Portugal e em mais meia dúzia de países não é abrir horizontes - não ensinam nada que obrigue a pensar, não aguçam curiosidade nem engenho, não desenvolvem o espírito crítico, não ajudam a formar carácter.

Neste cenário a saga Harry Potter é ouro sobre azul pois está a anos luz da banalidade, previsibilidade e do mundo pequenino das gémeas da série “Aventura”, ou das Sofias e afins que escrevem o seu “Diário”, mas no entanto também não basta. Para crescer e amadurecer outras obras e outras referências são importantes, sobretudo é importante deixar o mundo da literatura “juvenil” e abrir os olhos para a literatura tout court. A nossa sociedade, ilustrada pela oferta de que dispomos, aposta muito em produtos jovens, que vão desde a literatura ao crédito – o crédito jovem hoje já vai até depois dos trinta anos. Parece que vivemos num mundo em que se adia o mais que se pode o crescimento, o amadurecimento, um mundo que se recusa a ser adulto.

20.7.07

Velas


Portugal vive momentos de esquizofrenia provocados pelo ímpeto legislativo do governo no que respeita a natalidade. Cinco dias depois da entrada em vigor da nova lei que regulamenta a liberalização do aborto, o governo anuncia programa de apoio à natalidade, também ele centrado em subsídios (abonos). Era bom que o governo tivesse uma ideia clara de como quer gastar o nosso dinheiro nesta área: se a promover e subsidiar o aborto ou se a incentivar a natalidade, assumindo que abonos e subsídios preconizados são a melhor forma de incentivar a natalidade – algo que gera um sem número de dúvidas. Enquanto contribuinte sinto-me perplexa e incomodada. Mais uma vez reforço a ideia de que, já que o aborto é liberalizado, quem quer abortar deve assumir a responsabilidade pelo acto que pratica e deve pagá-lo em vez de obrigar a sociedade a fazê-lo. Notícias como esta, em que num hospital se contratam dois obstetras especialmente para o efeito, (fazer abortos, entenda-se) num contexto de SNS em que tantos médicos e profissionais de saúde faltam para tantos outros efeitos que me dispensarei de inumerar, não deixam de revoltar.

Combate ao Sedentarismo 30

18.7.07

A Geração Harry Potter



Com algum preconceito e desconfiança abri o primeiro romance de J.K. Rowling da saga Harry Potter e fui surpreendida pela razoável qualidade do romance para além de rendida à teia mágica do enredo. Li assim num ápice os quatro primeiros romances pois o quinto ainda não tinha saído. Não faço ideia se ainda lerei o quinto, o sexto e o sétimo algum dia; logo se verá pois o ritmo foi perdido e não sei se o interesse é suficiente para compensar a falta dele. Os livros têm características que poderão fazer com que perdurem no tempo e, quem sabe, venham ao lado dos de Verne e de Tolkien um dia a ser considerados “clássicos” da literatura juvenil. Há uma história habilmente contada da vida de um jovem que aos dez anos descobre que é bruxo em que várias dimensões convergem: o seu passado, a origem e pertença, as relações com os outros, os colegas, os professores, a noção de bem e de mal, a força desse bem e desse mal, as hierarquias, o crescer, a adolescência e a passagem de criança para o mundo adulto, etc. Todas estas dimensões são devidamente exploradas e trabalhadas nos livros o que os torna ricos e suficientemente interessantes.

Já os filmes baseados nos romances, e sempre um filme por cada romance publicado, fazem apelo a outros factores. Tenho-os visto também e vi recentemente este último “Harry Potter e a Ordem da Fénix”, no meu caso, o primeiro filme que vejo sem ter lido o romance previamente. A produção é boa e os efeitos especiais também me pareceram muito surpreendentes, mas eu interesso-me pouco por “efeitos especiais” por isso acredito na provavel fragilidade do meu julgamento. Os actores estão cada vez melhores e é interessante vê-los crescer no ecrã, aliás reparei que a plateia na altura em que vi o filme era sobretudo composta por gente da idade dos actores, gente que tem crescido com Harry Potter e tem crescido tendo Harry Potter como a principal referência de leitura (há piores referências, mas não é sobre isso que escrevo) o que me leva a falar na Geração Harry Potter. No entanto ao ver o filme senti várias lacunas e graves falhas na narrativa para que se pudesse perceber o porquê bem como a interligação entre os diferentes momentos e episódios deste romance, ou mesmo desta história. Senti a falta da leitura do romance para apreender as ligações entre episódios tão marcantes como o afastamento de Dumbledore, a promiscuidade entre o o ensino de Hogwarts e o Ministério, as relações de poder dentro do próprio Ministério, a origem, a identidade e missão da Ordem de Fénix (o que dá o título ao livro e é quase irrelevante no filme), os pesadelos de Potter, o tão falado primeiro beijo de Harry Potter que parece surgir do nada, as relações entre os amigos, a memória e o peso do passado. O ambiente e rotina colegial de Potter e seus amigos desfaz-se um pouco também neste filme. Uma grande produção, com bons actores, mas francamente pobre em conteúdo para que possa satisfazer aqueles que encontram nos romances a essência e a compreensão do fenómeno Harry Potter.

16.7.07

Plataforma contra a Obesidade 14

Jan Davidsz. de Heem (1606 - 1683)
Still Life
(Clicar para ver melhor)

15.7.07

Dando Excessivamente sobre o Mar 5

Gustave Courbet
Les bords de la mer à Palavas
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Na Praia de Chesil 4

É assim, não fazendo nada, que todo o curso de uma vida pode ser alterado.

Ian McEwan, Na Praia de Chesil

Na Praia de Chesil 3

Nada era nunca discutido e eles também nunca sentiam a falta de uma conversa íntima. (...) A linguagem e a prática da terapia, a aceitação de sentimentos diligentemente partilhados, mutuamente analisados, ainda não tinham entrado em circulação generalizada. (...) ainda não era habitual uma pessoa considerar-se em termos de quotidiano como um enigma, como um exercício de narrativa histórica, ou um problema à espera de ser resolvido.

Ian McEwan, Na Praia de Chesil


Coisas que se podem fazer ao Domingo 5

Antoine-Denis CHAUDET (1763 - 1810)
L'Amour


Apanhar borboletas.

14.7.07

Dando Excessivamente sobre o Mar 3

Gustave Courbet
Vue de la Méditerranée à Maguelone - 1858
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13.7.07

Um privilégio

As últimas eleições legislativas não me entusiasmaram, não consegui querer a vitória de um dos candidatos e votar foi um desinspirado cumprimento de “dever cívico”. Nestas intercalares municipais em Lisboa, a vontade de cumprir o “dever cívico” é nula. Tudo à volta destas eleições me gera náusea: os candidatos, a campanha, os debates, as soluções, o discurso, as “ideias” sobre Lisboa. A falta de inspiração política, as ideias e soluções coladas à pressa ao discurso de campanha sem a solidez de uma visão amadurecida, as personagens saídas de um romance absurdo, umas ainda atordoadas e as outras teimosamente coladas ao seu fado, os chamados “interesses” cada vez mais despudoradamente visíveis, a voracidade com que se agarra o poder sem obrigar a reflexão ou jejum prévio, tudo junto me dá vontade de, pela primeira vez, não ir votar.

Claro que resistirei a este impulso, pois basta-me pensar em quão privilegiada sou por poder fazê-lo. Nalgumas sociedades, islâmicas por exemplo, não poderia votar, ou porque sou mulher ou porque, muito simplesmente, não há eleições livres. Por isso estarei atenta às sondagens de hoje para votar sem eficácia, presumo, contra aquele que sei que não quero que ganhe: António Costa.

Combate ao Sedentarismo 29

11.7.07

Na Praia de Chesil 2

A cólera dele atiçou a dela e, repentinamente, Florence pensou que percebia qual era o problema de ambos: eram demasiado bem educados, demasiado constrangidos, demasiado temerosos, andavam um à roda do outro em bicos de pés, a murmurar, a segredar, a diferir, a concordar. Mal se conheciam um ao outro, e nunca podiam fazê-lo por causa da manta de quase silêncio amigável que abafava as suas diferenças, e os cegava tanto quanto os aprisionava. Tinham sempre tido medo de discordar, e agora a cólera dele estava a libertá-la. Queria magoá-lo, puni-lo, a fim de se distinguir dele. Tratava-se de um sentimento tão pouco familiar nela, no sentido da emoção da destruição, que quase não conseguia resistir-lhe. O seu coração batia com força e queria dizer-lhe que o odiava, e estava prestes a pronunciar essas palavras duras e maravilhosas que nunca proferira na vida, quando ele falou primeiro.

Ian McEwan, Na Praia de Chesil

10.7.07

Plataforma contra a Obesidade 13

Camille Pissarro
Nature Morte (1872)

Na Praia de Chesil

Aquela ainda era a época – que viria a terminar mais tarde naquela famosa década – em que ser jovem era um estorvo social, uma marca de irrelevância, uma situação ligeiramente embaraçosa para a qual o casamento era o início de uma cura. Quase dois desconhecidos, ali estavam eles, estranhamente juntos, num novo pináculo de vida, rejubilantes por o seu novo estatuto prometer promovê-los permitindo-lhes sair da sua interminável juventude – Edward e Florence, enfim livres!

Ian McEwan, Na Praia de Chesil


Antes de ter lido o livro li um comentário na imprensa anglo-saxónica em que se falava deste pequeno romance como de uma resposta europeia a Everyman de Philip Roth. Eu também tive essa sensação. Roth, nomeadamente em Everyman ou Dying Animal, tem uma escrita potente cheia de “meaning”, enquanto que Ian McEwan tem uma forma de escrever mais elegante, um pouco mais contida, sem no entanto deixar de fluir de uma forma magnífica, que serve personagens belíssimas, mas também elas mais contidas e algo tensas no seu submundo de não ditos e de expectativas que as habita. McEwan é seguramente mais “europeu” e Ropth mais “americano”, tanto quanto estas etiquetas se podem aplicar, e ambos criam um pequeno mas intenso romance sobre ser e viver.

Na Praia de Chesil é um romance povoado de tensões e emoções, o espanto, o desejo, a espera, as expectativas, o desnorte, a inocência, o medo, a paixão, a perda, o amor, e claro, os “não ditos” que são, eles próprios, uma personagem central de pleno direito, e determinantes na construção da narrativa. Lê-se com muito prazer.

8.7.07

Coisas que se podem fazer ao Domingo 4

Jacques PROU
Amphitrite, 1705 - 1706
(Clicar para ver melhor)

Descansar na praia reclinada sobre um peixe.

6.7.07

Uma ideia da Europa 17

A máquina fotográfica, a fotografia, os postais ilustrados, as imagens, o cinema.

5.7.07

Dando excessivamente sobre o mar 2

Pierre-Auguste Renoir
Sunset at sea (1879)

3.7.07

Combate ao Sedentarismo 28

O Comendador

A omnipresença de Berardo na vida nacional e comunicação social é um paradigma do nosso (português) deslumbramento. Primeiro porque o Comendador está deslumbrado consigo próprio, e provavelmente terá razões de sobra para o estar, pois serão poucos a gabarem-se de conseguir o que ele conseguiu e tem conseguido, quer em termos financeiros, quer em termos de influência uma vez que ele veio de um meio menos favorável ao sucesso do que outros. E segundo porque o país, pelo menos uma parte influente do poder, está deslumbrado com ele, por razões que se me afiguram difíceis de perceber. Ser rico, só por si não justifica tanto deslumbre e atenção.

Esperava-se de um homem que conseguiu ir fazendo - e pelos vistos, apreciando, uma colecção de arte contemporânea como a que ele fez, alguma sensibilidade, e já agora algum bom senso também, bem como polidez, cortesia e mesmo contenção mas talvez estas expectativas estejam desfocadas do que hoje é valorizado quer pelo “povo” quer pelos media. Aparentemente neste campo o Comendador é omisso e aproveita cada migalha de luz de holofotes para mostrar falta de cortesia e modos rudes, é incapaz de resistir a um microfone sem se coibir em agredir e mesmo insultar este ou aquele com o ar seguro de quem sabe que pode pagar a conta, mesmo que tudo faça para não a pagar. Não questiono a pertinência dos seus motivos ou intenções ou mesmo opiniões, até quero querer que ele tenha muitas vezes razão, seja racional, lúcido e bem intencionado, mas condeno veementemente a forma como ele os veicula e faz valer o seu ponto de vista em todas as matérias que andaram, nestes dias passados, nas primeiras páginas dos jornais. Lamento também que a comunicação social o procure tanto, o filme tanto e lhe coloque um microfone perto da boca de cada vez que ele teima em “aparecer”.

1.7.07

Plataforma contra a Obesidade 12

Auguste Renoir,
Still Life (1908)


Depois de aqui ter louvado outro tipo de naturezas mortas, outra época, outra escola, outros parâmetros estéticos, deixo alguns comentários às outras naturezas mortas que tenho seleccionado, nomeadamente de Paul Cézanne e de Auguste Renoir. Nestas últimas os olhos não se deslumbram com o detalhe, mas perdem-se nas texturas, deixam-se enfeitiçar pela forma como a luz é capturada e projectada, espantam-se com as diversidade das cores, com a forma como ela é tratada e pintada. Parecemos ser mais donos da nossa percepção e por isso, em vez do deslumbramento, vemo-nos simplesmente enfeitiçados.

Coisas que se podem fazer ao Domingo 3

Jean-Pierre CORTOT
Le soldat de Marathon annonçant la victoire (1834)
(Clicar para ver mehor)

Correr para anunciar a vitória da maratona.

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