“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
holehorror.at.gmail.com

20.11.07

Tardes de Inverno

Bellini (1433-1516)
Young Woman at Her Toilette

18.11.07

Slow Man 4

When did you last go for a walk under the starry sky? You have lost a leg, I know, and ambulating is no fun; but after a certain age we have all lost a leg, more or less. Your missing leg is just a sign or symbol or symptom, I can never remember which is which, of growing old, old and uninteresting. So what is the point of complaining? Hark!

J. M. Coetzee, Slow Man

Muito do que é este romance está condensado neste breve excerto. Tal como Disgrace, este é um romance de perda. Mas ao contrário de Disgrace a perda aqui tem uma dimensão bem física: a perda de uma perna num acidente que serve de ponto de partida para outras abordagens da perda relacionadas com a degradação física e com o envelhecimento. Nunca se entra num universo escuro, denso ou dramático, pois o romance inesperadamente leva-nos para uma narrativa suave e alegórica, com personagens inusitadas mas humanas e simpáticas e é sempre pautado por um olhar atento, um humor subtil misturado com alguma condescendência e mesmo ternura em relação às fragilidades humanas ou à própria condição de ser quem se é, como se é, onde se é. Ao longo do romance o conceito de “care” e de “love” (“to care” e “to love”) são objecto de reflexão tentando perceber onde um acaba e começa o outro, e se se sobrepõem ou não e em que circunstâncias, e nesse aspecto olha-se, nos capítulos iniciais, para o cuidado hospitalar: médicos, enfermeiros, assistentes sociais, com alguma reserva e distância, uma vez que quem trata é jovem (em contraste com o paciente, que já não o é) e não ama: trata. Também o ser jovem versus o envelhecer é objecto de múltiplas reflexões ao longo do romance, como demonstrei nos excertos seleccionados anteriormente. Sem a intensidade existencial e política, e que é também revelada numa escrita agreste e seca de Disgrace, Slow Man é, no entanto um romance mais lento mas certamente inesperado e inteligente e que é, mais uma vez e à maneira de Coetzee escrito sem palavras a mais, descrições enfadonhas, explicações demoradas, num estilo simples de frases curtas.

Coisas que se podem fazer ao Domingo 17

Mithras slaying the bull
Roma, séc. II

Matar um Touro

17.11.07

Concretizar


Li duas vezes e custou-me acreditar, mas parece que é mesmo verdade: O MNE está com um problema bicudo. Isto de promover e ser anfitrião de cimeiras Euro-Africanas e ficar bem na fotografia é complexo. Para além de questões (menores, e pelos vistos de facto irrelevantes) que se prendem com a idoneidade política e humana de grande parte dos convidados africanos, ainda há que solucionar o problema da localização da tenda para o grande estadista e ilustre convidado que é Kadhafi que se recusa a ficar num hotel. Para mim a questão é simples: tendas, só nos Parques de Campismo. Não é essa a regra? Há o da Caparica por exemplo, junto ao mar e com ar puro e que é um local vedado e protegido. Não está longe dos olhares públicos, é verdade, mas para isso há, por exemplo, o jardim de S. Bento que sempre é mais recatado: é só questão de José Sócrates querer levar a tão falada hospitalidade Portuguesa a um novo patamar ainda mais aberto e tolerante do que a simples realização desta cimeira permitia. É só desafios para um homem que gosta de “concretizar”.

O Frio

Gosto das estações do ano: gosto do calor do verão e do frio do inverno. Gosto da natureza que muda com as estações, por isso é com alegria que digo: o tempo mudou, entramos finalmente no tempo frio. Posso largar a roupa de verão que já tinha utilizado em abundância, com todas as cambiantes possíveis e que a minha imaginação permitisse, e posso enfim pôr de lado aquelas a que se chamam meia-estação e que nunca sei muito bem o que fazer com elas porque nunca estão na medida certa: com elas acabamos sempre ou com calor ou com frio; nunca se acerta. Também já sentia falta de nuvens que dessem textura ao céu, ao rio e ao mar e que renovasse a paleta de cores que teimosamente não nos largava desde Julho. O excesso de luz, sol, e céu azul por muito que deslumbrasse já me cansava. E quero chuva para limpar o ar, para o humedecer um pouco.

Dando Excessivamente sobre o Mar 17

John Constable 1776-1837
Hampstead Heath, with Harrow in the Distance

15.11.07

Slow Man 3

Perhaps it is not requital of love that you are after. Or perhaps your request for love disguises a quest for something quite different. How much love does someone like you need (…) objectively speaking? (…) None. None at all. We do not need love, old people like us. What we need is care: someone to hold our hand now and then when we get trembly (…). Care is not love. Care is a service that any nurse worth her salt can provide, as long as we don’t ask her for more.’


The years go by as quickly as a wink. So enjoy yourself while you are still in the pink. It’s always later than you think.

J. M. Coetzee, Slow Man

14.11.07

Asas

Hoje
Neste caso hélices

Velas 8

Há dois dias

PSD Profundo: uma dúvida

Na recente disputa da liderança do PSD alguns dos vocábulos mais usados eram populismo, elitismo, bases do partido e “PSD Profundo”. Dividiu-se o partido em dois campos: o campo que ganhou de Luis Filipe Menezes, populista e do "PSD Profundo", e o campo perdedor de Marques Mendes, que entretanto saiu de cena (e bem) deixando o campo opositor, elitista (e sulista) com outros rostos que nós já conhecemos, entre os quais destaco Rui Rio por ser um clássico opositor de Menezes. Desde que o conceito de “PSD Profundo” faz parte do discurso partidário actual que eu me pergunto exactamente o que é que isso quer dizer. Excluo o PSD “não profundo”, isto é, aquele que é visível aos não PSDs. Hoje segui aqui e aqui uma troca de ideias que originou esta reflexão. Não sou militante de nenhum partido, e se a vida política e o governo do país me interessam, a vida partidária deixa-me razoavelmente indiferente, por isso desde já confesso a minha ignorância sobre ela. Mas como eu, haverá muitos portugueses que na hora de votar, no partido A ou B, não hesitam e que no entanto nunca atravessaram qualquer sede de partido, nunca foram a nenhum comício, nem a qualquer sessão de esclarecimento. Talvez parte da minha ignorância seja decorrente de uma natural desconfiança por “estruturas”, que se formam e que se mantêm para exercício do poder e influência de forma pouco visível e escrutinada. (Este tema poderia ser objecto de um outro texto, quem sabe um dia?).

Assim, eu pergunto-me qual é esse rosto do "PSD Profundo" de que tanto se fala? (poderia ser o PS Profundo, mas como a actualidade aponta na direcção do PSD tomo-o como exemplo). São os cidadãos anónimos e eleitores que nas eleições nacionais dão maiorias governativas – a Cavaco Silva e agora a José Sócrates, e que elegem os Presidentes de Câmaras? São gentes absolutamente desconhecidas desses mesmos eleitores sem partido, que com inicial entusiasmo se dedicaram ao trabalho partidário e à luta política, que sem se darem conta investiram nisso a sua vida e que passados anos trabalham e se esgrimem com afã para manterem a sua influência, ou o que resta dela, e o seu poder no único mundo que conhecem? Presumo que naquilo a que se chama influência e poder local e autárquico. Ou será o “PSD Profundo” uma imagem de um Portugal Profundo? Daquele feito de consumismo, reality shows, fins de semana e pontes de chinelo no pé, marisqueiras, peregrinações e debates sobre Madeleine McCann, que raramente está satisfeito com o que quer que seja, mas que raramente questiona e se questiona, ou é verdadeiramente subversivo (piercings, palavrões são normalidade). Qualquer uma das hipóteses (que por serem por mim colocadas – e por isso susceptíveis de padecerem de preconceito) me parece má, mas eu tento perceber melhor o que poderá ser esse “PSD Profundo” que parece ser tão decisivo e importante para Portugal por determinar os destinos do principal partido da oposição, e não consigo. Por falha e ignorância minha, admito, mas haverá uma outra imagem do “PSD Profundo” que nós, cidadãos e eleitores sem filiação partidária nem participação política activa, desconheçamos?

13.11.07

Plataforma contra a Obesidade 26

Giuseppe ARCIMBOLDO (1527-93)
L'Automne

Slow Man 2

When he arrives at the gate, St Paul (for other new souls it may be Peter but for him it will be Paul) will be waiting. ‘Bless me father for I have sinned’ he will say. ‘And how have you sinned, my child?’ Then he will have no words to say, save to show his empty hands. ‘You sorry fellow, ‘Paul will say, ‘you sorry, sorry fellow. Did you not understand you were given life, the greatest gift of all?’ ‘When I was living I did not understand, father, but now I understand, now that it is too late; and believe me father, I repent, I repent me, je me repends, and bitterly too. ‘Then pass,’ Paul will say, and stand aside: in the house of your father there is room for all, even for the stupid lonely sheep.’

J. M. Coetzee, Slow Man

Slow Man

He is not the first person in the world to suffer an unpleasant accident, not the first old man to find himself in hospital with well-intentioned but ultimately indifferent young people going through the motions of caring for him. A leg gone: what is losing a leg, in the larger perspective? In the larger perspective, losing a leg is no more than a rehearsal for losing everything. Whom is he going to shout at when that day arrives? Whom is he going to blame?

J. M. Coetzee, Slow Man

12.11.07

Combate ao Sedentarismo 41

Puxão de Orelhas

Noto que há uma estranha unanimidade apoiando e concordando com o Papa Bento XVI no seu “puxão de orelhas” aos Bispos Portugueses em Roma na visita Ad Limina. Televisões, jornais, todos noticiam com gáudio mal disfarçado o dito “puxão de orelhas”. De repente parece que o país acorda para a excessiva clericalização da Igreja Portuguesa e depressa se aponta o dedo à hierarquia. Não sou excepção e também o aponto, e aponto em várias outras matérias igualmente relevantes que são sistematicamente esquecidas, mas aponto o dedo sobretudo aos tantos católicos portugueses de todas as faixas da sociedade e de todas as idades, que contribuem para essa excessiva clericalização da Igreja quer pela passividade, quer pela falta de exigência consigo próprios e com o clero. Não dispensam o “Sr. Padre A” ou o “Sr. Padre B” para abençoar qualquer decisão moral que tomem, qualquer evento em que participem, qualquer opção significativa para a vida. A figura do “Sr, Padre”, sem nenhum desmerecimento para os Senhores Padres, é ainda hoje no meio católico (mas não só) excessivamente reverencial, algo distante e tantas vezes incontestada. Dou um exemplo que pode parecer irrelevante, mas que ilustra essa distância entre o “clero” e os leigos: por essa europa fora os católicos tratam os padres com que trabalham e/ou convivem pelos nomes próprios; aqui em Portugal – e creio que não me engano – essa é uma situação raríssima. O Padre trata quer pelo nome próprio quer por tu o católico com quem tem maior proximidade, o caso inverso rarisssimamente se aplica. Só o “Sr Doutor” (o médico especialista note-se) ainda tem em Portugal igual grau de reverencialidade, de autoridade e infalibilidade. Se a Igreja em Portugal tem de ser menos clerical cabe também aos leigos portugueses fazê-la mais “sua” e menos “dos padres”. Cabe também aos leigos exigir mais e melhor qualidade nomeadamente do clero. Provavelmente voltarei a este assunto.

11.11.07

Coisas que se podem fazer ao Domingo 16

Wooden figure of Avalokiteshvara
Song or Jin Dynasty, 11th-12th century


Dar nas vistas


Witness


Revi ontem num canal de televisão, um dos filmes dos anos oitenta de que mais gostei na altura: Witness de Peter Weir. É sempre com apreensão que revejo filmes de que gostei e após um longo período sem os ver porque tenho sempre medo de me desiludir, de achar que o filme está datado e irrelevante, que perdeu algum edge. Não foi o caso. É um thriller que nos prende, que tem a sua dose de crueza própria de histórias de corrupção, mas isento de violência gratuita e que por isso não nos põe os cabelos de pé, pelo contrário remete-nos para a nostalgia de um sonho de utopia, de sociedade perfeita sem “maus”, tal como a teríamos sonhado num momento na infância. É, sem lamechices, uma alusão, um reconhecimento ou mesmo uma homenagem a esse tal sonho que existirá e sobreviverá num limbo qualquer da nossa condição humana. A cena mais emblemática desta homenagem é a construção do celeiro do casal recente. Mas o filme não se perde em utopias e depressa se entra no trilho realista, mesmo contando com o anacronismo da comunidade Amish, como o prova a história de amor – paixão, desejo, o que for - que desde o início injecta a narrativa de uma forte carga erótica. A cena da música no carro do celeiro é um dos pontos de maior tensão que ilustra este erotismo nunca óbvio mas sempre presente. Harrison Ford continua credível no seu papel como John Book, e Kelly Mc Gillis tem aqui talvez o momento mais alto da sua carreira. Pena que nunca mais a tenhamos visto. Acho que Witness entrará - se é que não entrou já, na galeria dos "clássicos".

10.11.07

Apeteceu-me

Wagner, e ouvi Solti e a Orquestra Sinfónica de Chicago em


Depois encontrei esta maravilha que vale a pena espreitar: Arturo Toscanini no youtube.

Porque não te calas?” (diz o Rei de Espanha a Hugo Chavez) é uma frase que veria de bom grado aplicar-se a um vasto número de personalidades, entre elas políticos, mas não só. Não é um convite a que a pessoa se cale, é uma forma de dizer que já não há pachorra para a ouvir, que nada do que diz é interessante, honesto, íntegro ou de boa fé, faz sentido, ou de alguma forma nos estimula, nos ensina e é útil para a sociedade. As horas que se perdem com palavras inúteis, ocas, ofensivas, políticamente correctas e em discursos redondos em que o orador fala para se ouvir a si próprio e que por fim são inevitavelmente aplaudidas é um dos paradoxos (flagelos) actuais. Cimeiras, Forums, Reuniões, Assembleias em que todos falam muito e muito. Uns nada dizem, outros era melhor que nada dissessem, e só uma minoria é digna de ser ouvida com atenção.

O Rei de Espanha foi educado para ser Rei. Foi educado para servir, para servir o seu país, para o defender e para defender o espanhóis. É livre de passagem pelas urnas e por isso não trabalha (não reina) em função de eleições e de ciclos eleitorais. É um homem educado e que tem caracter (ousadia suprema). Diz o que tantos gostariam de poder dizer. Diz o que tantos gostamos de ouvir.

8.11.07

Plataforma contra a Obesidade 25

Giuseppe Arcimboldo (1527-93)
Été

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