“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
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21.3.08

Museus em Madrid 3

Da colecção de Velazquéz, este quadro que reproduzo em cima é um dos mais extraordinários. Vi-o de longe, ocupava uma parede e a surpresa e o choque foram instantâneos tal a força do quadro, pela simplicidade, contenção e realismo. Um dos quadros de Velazquéz em que as linhas e o equilíbrio atingem a perfeição, e em que é transmitido sem frufrus nem excessos decorativos, simbólicos ou de sangue, o mistério da cruz. Pelo minimalismo do objecto tratado “esconde” o barroco (o drapeado do pano, a definição anatómica) e respira modernidade e veicula uma emoção única. Um dos mais belos quadros que já vi.

O museu do Prado com a sua ala nova ampla e luminosa que serve de entrada e onde estão as lojas e as cafetarias (muito boas) tem uma colecção de pintura de grande dimensão à escala mundial e está sem sombra de dúvida ao lado dos grandes museus como o Louvre ou a National Gallery e a poucas centenas de quilómetros de qualquer cidade portuguesa.

13.2.08

Museus em Madrid 2

Desde que me lembro de saber que existe pintura que me lembro que El Greco existe. O pintor que, era assim que eu o conhecia, fazia as pessoas longas e puxadas para cima. Uns anos mais tarde, e numa visita a Toledo, guiada por um amigo espanhol mais velho, conhecedor e coleccionador, num dia cinzento e muito frio, em frente às pinturas de El Greco fiquei surpreendida com a cor e a luz dos seus quadros e de quão fria eram. O meu amigo também me ensinou a olhar para os olhos das personagens pintadas por El Greco, outro dia falarei sobre isso. Fiquei surpreendida com essa frieza porque se Espanha era fria no inverno, era quente, quente demais, no verão e nós associamos a Espanha mais facilmente a noção de calor do que de frio. A surpresa também era grande porque os pintores flamengos (Flandres e Holanda) do mesmo período (tenho, ao longo do tempo, colocado aqui no blogue alguns exemplos e já escrevi o meu elogio – um - à pintura flamenga) apesar de virem de países mais frios, pintavam quadros mais quentes. Mas Espanha é uma noção moderna e abstracta. Se pensarmos Castela já a noção de frio se desenha de uma forma mais natural no nosso imaginário.

Neste meu mais recente banho de museu em Madrid, e perante uma verdadeiramente magnífica exposição de Velázquez no Prado, em que os seus quadros estavam expostos lado a lado com outros quadros de seus contemporâneos tais como Caravaggio e Rubens, bem como perante os outros na colecção normal do museu, pude confirmar os tons frios das pinturas e da luz na pintura espanhola, e neste caso da de Velázquez: desde as célebres meninas e demais retratos, aos exteriores nomeadamente quando os sujeitos pintados estão a cavalo (um exemplo três posts atrás). No quadro que coloquei no post anterior do deus Marte despojado de todo o seu equipamento bélico, cansado e perplexo vemos na forma como a nudez é exposta e a pele é pintada sinais do Barroco e semelhanças, influências provavelmente, de Rubens no tratamento da pele, na sua textura, nas suas pregas. O que a torna diferente é a cor da tez, a luminosidade. Em Velázquez a pele é mais fria, mais contida, menos sensual.

12.2.08

Museus em Madrid 1

Na semana passada nos museus de Madrid, sobretudo no Rainha Sofia e no Thyssen pois visitei-os de manhã, vi vários grupos de crianças, algumas bem pequeninas, sentadas e semi circulo em frente a um quadro a ouvir e a conversar com o guia sobre ele. O guia estava também sentado à frente no chão para não perturbar a visão das outras pessoas que literalmente enchiam os museus. Por trás das crianças juntava-se um grupo de adultos visitantes que assistia à explicação e diálogo do guia com as crianças. Olhando para o quadro ele fazia perguntas sobre o que elas viam, sobre o que não viam, guiava-lhes o olhar, ouvia as suas explicações e explicava o porquê do tema, de uma cor, do traje das personagens, de uma perspectiva, de uma composição. As crianças sentadas em frente ao quadro tinham tempo para o apropriar e sobre ele discorrer e imaginar. O entusiasmo delas era o espelho do entusiasmo do guia que fazia o que era suposto fazer – guiar o olhar mais inexperiente – também com entusiasmo e amor à obra. Não fiquei com a sensação de que estavam ali no emprego a ganhar umas coroas, que certa e justamente estavam, fiquei com a sensação que eram amantes de pintura e que sabiam transmitir essa paixão.

Lembrei, e em contraste com o que acabei de escrever, o relato de uma visita recente de turmas de um colégio ao Museu Nacional de Arte Antiga em que um, neste caso uma, entre os guias, com pastilha elástica na boca, cara de frete e impaciente, mal respondia às perguntas dos guiados, prolongou demasiado algumas explicações históricas e não lhes mostrou “o” quadro mais importante do museu, As Tentações de Santo Antão de Bosch, nem conseguiu entusiasmar ninguém com os Biombos de Namban. O resultado foi o esperado: “que chatice!” “detesto museus!” Mas também, porque é que me passou pela cabeça que poderia ser diferente?

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