“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
holehorror.at.gmail.com

31.1.07

Última hora


Aguarda-se a todo o momento a criação, e posterior divulgação rápida em “you tube” por parte dos Gatos Fedorentos, de um sketch a propósito das últimas declarações de Manuel Pinho na China onde fala aos investidores chineses nos baixos salários portugueses...

O quê? Não está previsto um sketch desses? A sério? Que estranho...

Ela era a mãe de todos.

Na cabeceira da mesa, a toalha manchada de coca-cola, o bolo desabado, ela era a mãe. A aniversariante piscou. Eles se mexiam agitados, rindo, a sua família. E ela era a mãe de todos. E se de repente não se ergueu, como um morto se levanta devagar e obriga mudez e terror aos vivos, a aniversariante ficou mais dura na cadeira, e mais alta. Ela era a mãe de todos. E como a presilha a sufocasse, ela era a mãe de todos e, impotente à cadeira, desprezava-os. E olhava-os piscando. Todos aqueles seus filhos e netos e bisnetos que não passavam de carne de seu joelho, pensou de repente como se cuspisse. Rodrigo, o neto de sete anos, era o único a ser a carne de seu coração, Rodrigo, com aquela carinha dura, viril e despenteada. Cadê Rodrigo? Rodrigo com olhar sonolento e intumescido naquela cabecinha ardente, confusa. Aquele seria um homem. Mas, piscando, ela olhava os outros, a aniversariante. Oh o desprezo pela vida que falhava. Como?! como tendo sido tão forte pudera dar á luz aqueles seres opacos, com braços moles e rostos ansiosos? Ela, a forte, que casara em hora e tempo devidos com um bom homem a quem, obediente e independente, ela respeitara; a quem respeitara e que lhe fizera filhos e lhe pagara os partos e lhe honrara os resguardos. O tronco fora bom. Mas dera aqueles azedos e infelizes frutos, sem capacidade sequer para uma boa alegria. Como pudera ela dar à luz aqueles seres risonhos, fracos, sem austeridade? O rancor roncava no seu peito vazio. Uns comunistas, era o que eram; uns comunistas. Olhou-os com sua cólera de velha. Pareciam ratos se acotovelando, a sua família. Incoercível, virou a cabeça e com força insuspeita cuspiu no chão.

— Mamãe! gritou mortificada a dona da casa. Que é isso, mamãe! gritou ela passada de vergonha, e não queria sequer olhar os outros, sabia que os desgraçados se entreolhavam vitoriosos como se coubesse a ela dar educação à velha, e não faltaria muito para dizerem que ela já não dava mais banho na mãe, jamais compreenderiam o sacrifício que ela fazia. — Mamãe, que é isso! — disse baixo, angustiada. — A senhora nunca fez isso! — acrescentou alto para que todos ouvissem, queria se agregar ao espanto dos outros, quando o galo cantar pela terceira vez renegarás tua mãe. Mas seu enorme vexame suavizou-se quando ela percebeu que eles abanavam a cabeça como se estivessem de acordo que a velha não passava agora de uma criança.

Clarice Lispector, Feliz Aniversário in Laços de Família (Livros Cotovia)

30.1.07

Maternidade 2

Almada Negreiros, desenho

29.1.07

Uma face desconhecida

Hoje no Telejornal das 20h00 na RTP 1, durante a peça sobre a visita do Primeiro Ministro à China e após um pequeno apontamento sobre a tecnologia Portuguesa que irá na bagagem do nosso PM nesta visita, uma voz off tece considerações sobre a China enquanto são mostradas umas imagens de uma localidade, mas o que verdadeiramente surpreendeu, foi o facto das mulheres, nessa localidade, estarem vestidas com quimonos... Uma face desconhecida da China, que a RTP fez o favor de trazer até nós.

Há dias de inverno assim 10

Hendrick Avercamp (1612-79)
A Secene on Ice. 1625, Oil on Panel. National Gallery of Art, Washington DC

Em que vamos para a rua patinar com os vizinhos.

28.1.07

Maternidade

Almada Negreiros, Desenho

Maternidade e Paternidade

A maternidade e a paternidade fazem-se um dia depois do outro. Uma semana depois da outra. Um mês depois do outro. Um ano depois do outro.

Botas e política

A comunicação social tem dado notícias das gaffes de Segolène Royale e eu acho que faz muito bem: que se desmonte o seu discurso redondo, cheio de “bom astral” mas vazio e incoerente, que se ponha a nu a inconsistência e superficialidade dos seus projectos, a ensaiada coreografia de idas aqui e ali para media ver, enfim, que se ataque a mulher política as suas ideias de esquerdismo luminoso. Mas que os ataques fiquem por aí: que não se discuta, porque irrelevante do ponto de vista político e revelador de algum preconceito datado, a oportunidade de um bikini na praia (não é isso que as mulheres usam? Será que deveria usar burka?) tal como se fez no verão passado e os paparazzi não cansaram de mostrar, ou a ousadia de usar saias e botas (deveria usar calças e sapatos? Ou burka?) (lido aqui). Segolène não é Margaret Thatcher, pertence a outra geração de mulheres e a outra cultura e não tenciona “anular” a sua feminilidade nem “masculinizar-se” para ter lugar na política. Nesse aspecto tem a minha admiração e simpatia. Que eu saiba até hoje ninguém criticou um homem na política por ele ser homem e usar roupas de homem e roupas que os demais homens usam.

26.1.07

Neve 2

Depois do espanto do primeiro momento, o dia começa a escrever-se na neve: a limpeza das estradas e ruas principais, as marcas dos carros nas ruas, as pegadas de quem passa, a mão que afastou a neve deste vidro, daquele parapeito. Depois a neve que na berma de um passeio começa a derreter mais parecendo gelo húmido, ou a que amolece a cai dos ramos das arvores, dos telhados, e a mais traiçoeira que à força de ser calcada e pisada pelos pneus se converte em gelo seco e liso pronto para fazer escorregar quem passa e ousa pisá-lo.

Neve

Estes dias de frio dão-me nostalgia de outros Invernos diferentes dos nossos. De Invernos em que não se sai à rua sem luvas nem cachecol, e em que os chapéus e gorros são uma necessidade. Invernos em que o sol nunca consegue aquecer, só iluminar. Invernos em que de manhã se tira inevitavelmente a película mais ou menos dura de geada ou gelo do pára-brisas do carro. Invernos em que a noite começa a cair às três e meia da tarde, em que o cinzento é a cor dominante e as lâmpadas eléctricas dos espaços interiores estão todo o dia acesas porque do exterior só vem escuro. Mas a grande nostalgia é a do encanto mágico e silencioso que se avista da janela quando uma manhã ao abrir a cortina se percebe que nevou toda a noite. Muita, muita neve, fresca, branca, espessa, imaculada a cobrir tudo. Nunca nos habituamos ao silêncio da neve que cai.

25.1.07

Há dias de Inverno assim 9...

Gustave Caillebotte (1848-1894)
Rue de Paris,Temps de Pluie 1877


24.1.07

Verdade inconveniente

A única medida legislativa iminente é a proposta de lei que aumenta a percentagem da componente ambiental do Imposto Automóvel, actualmente em 10%. Mas até essa medida já está anunciada há quase meio ano. O Governo prometeu apresentar a revisão do IA este mês no Parlamento para, a partir de Julho, entrarem em vigor novas taxas de componente ambiental - 40% em 2007 e 60% no período 2008-2012.

Na RR a propósito do Debate Mensal no Parlamento hoje como Primeiro Ministro que será subordinado ao tema das alterações climáticas.

Tenho de reprimir a vontade de rir bem como a vontade de propor novenas a S. Pedro como forma de combater, regularizar, ordenar, travar, prever (eu sei lá...) essa “coisa” que não se sabe exactamente o que é, nem tão pouco porque é, salvo uma pequena percentagem de iluminados que viu e gostou do filme de Al Gore “An Inconvenient Truth” a que se convencionou chamar “Alterações Climáticas”, para benefício de algumas almas ocidentais atormentadas e alguns interesses políticos e económicos crescentes. Mas o nosso Primeiro Ministro continua fiel a si próprio: com mais um novo aumento da carga fiscal (que nem é novidade) desta vez com roupagens ambientalistas e politicamente correctas, continua o seu trabalho de moralização do país, tal como já escrevi há uns meses atrás.

Já agora, e porque se explica que é a componente ambiental do Imposto Automóvel que será aumentada, (não fossemos nós ter dúvidas) caso avance a proposta governamental, se pudéssemos saber exactamente em quantas componentes, e respectivo peso percentual, se divide o imposto automóvel seria útil para nós cidadãos. Por exemplo: se houvesse no imposto uma componente SCUT, será que ela baixará à medida que os custos das SCUTs passem a ser suportados pelos utilizadores? E podemos também saber que medidas estão previstas, que sejam consideradas eficazes, para que a mais valia fiscal gerada possa combater, regularizar, ordenar, travar, prever (eu sei lá...) as Alterações Climáticas?

23.1.07

Cotas











Elogio das cotas.

22.1.07

a n n a k a r e n i n a

Lista das Listas

Esta “lista das listas


1)Anna Karenina de Leo Tolstoy
2)Madame Bovary de Gustave Flaubert
3) Guerra e Paz de Leo Tolstoy
4) Lolita de Vladimir Nabokov
5) As Aventuras de Huckleberry Finn de Mark Twain
6) Hamlet de William Shakespeare
7) O Grande Gatsby de F. Scott Fitzgerald
8) Em Busca do Tempo Perdido de Marcel Proust
9) Os Contos de Anton Chekhov de Anton Chekhov
10) Middlemarch de George Eliot

(via Mundo Pessoa) promete entretenimento. 544 títulos escolhidos por 125 escritores relevantes actuais é pretexto infindável: para algum reconforto, muita especulação, algumas conclusões e ainda mais incertezas. O reconforto vem do facto de já ter lido 8 dos títulos seleccionados e estar, em princípio, de acordo com a distinção que lhes é atribuída. Só não li As Aventuras de Huckleberry Finn (e duvido que me apeteça ler num futuro) nem Lolita, vi muito cedo o filme de Stanley Kubrick com James Mason (já visto e revisto entretanto) e fui protelando a leitura do livro, mas talvez ainda leia, um dia. A incerteza, ou parte dela, poderá ser satisfeita comprando o livro para, por exemplo, tentar perceber quem são os 125 escritores que votaram e saber que critério os faz relevantes e como se mede o mérito: por prémios, vendas, reconhecimento académico? A especulação, a parte mais divertida, é infindável: desde saber se a lista se manteria exactamente como está se tivesse sido elaborada um mês depois, isto porque aquilo que é uma escolha hoje poderá ser outra diferente amanhã e teria sido diferente ontem, até perceber porque é que num determinado contexto se vota neste autor e não naquele, não faltarão razões para nos determos na lista. Finalmente algumas conclusões (óbvias demais!): a omnipotência masculina: só George Elliot (porque não Austen ou Brontë, ou Woolf?) como excepção; a forte presença russa: 4 títulos, (mas porque é que Dostoievsky, não está no top ten?), a ausência dos épicos gregos, um só título de drama, Hamlet, o “empate técnico” (2 títulos) entre Franceses, Ingleses e Americanos e a modernidade: com excepção de Shakespeare todos os títulos (mais ano, menos ano) têm menos de 150 anos. O melhor mesmo é ler o livro para ter algumas respostas.

20.1.07

Postal Ilustrado 3

Hong Kong skyline

O caso que divide o País?

Tenho ouvido esta frase de cada vez que a comunicação social se refere ao caso da pequena Esmeralda e do sargento Luís Gomes condenado a seis anos de prisão. Mas curiosamente, o que não tenho percebido é de que divisão do país está implícita na frase, pois o país, neste caso, parece-me falar praticamente em uníssono: não vejo divisões nem em função do sexo de quem opina, não percebo diferenças em função das escolhas político-partidárias. A classe social também parece irrelevante e até o grau de literacia não é relevante. Até agora só ouvi uma voz dissonante: a da Associação Sindical dos Juízes que se reclama conhecedora de factos relevantes que a comunicação social ignora na sua missão de (in)formar a opinião pública. Os factos relevantes prendem-se com os aspectos processuais quer do processo de Regulação de Poder Paternal, quer do Processo Crime no qual o Sargento Luís Gomes foi condenado. Fica demonstrado que os Juízes vivem num mundo diferente do mundo em que vive o restante país que fala sobretudo de outro tipo de factos (irrelevantes, claro) como o bem estar de Esmeralda, o futuro de Esmeralda, o amor daqueles que têm sido de facto os seus Pais, o Pai biológico que só depois de ser obrigado a fazer um teste de DNA se lembrou que seria interessante ser Pai, enfim o país fala de si mesmo uma vez que insiste em manter durante anos crianças em lares e outras instituições deixando-os sem o carinho de um lar e deixando sem filhos tantos casais que querem adoptar.

18.1.07

Há dias de Inverno assim 8...

Avercamp (1585-1634) Winter Landscape with Iceskaters
c. 1608; Oil on panel, 87.5 x 132 cm; Rijksmuseum, Amsterdam

17.1.07

Não se pede Sensibilidade; só Bom Senso.


De nada serve estudar anos seguidos, decorar manuais, códigos, pesquisar e a tirar boas notas. De nada serve fazer um mestrado e outro, cursos de Magistratura, passar provas com distinção, se faltar o bom senso e se nunca se perceber que as Leis são para servir os cidadãos e não os cidadãos para servir as Leis. Nesta história chocante de condenação do Pai Adoptivo fica patente a confiança dos cidadãos de bem na Justiça do estado que é, infelizmente, tão bem ilustrada nas declarações da Juíza: ...foi uma decisão colegial, em consciência e sem qualquer dúvida. Note-se bem: sem qualquer dúvida. Destas consciências, deste Juízes e desta Justiça (deste Estado) eu tenho é medo!

16.1.07

Os Princípios


First study; then approve; then love. Let your eyes be blind to all external attractions, your ears deaf to all the fascinations of flattery and light discourse. These are nothing - and worse than nothing - snares and wiles of the tempter, to lure the thoughtless to their own destruction. Principle is the first thing, after all; and next to that good sense, respectability…

Anne Brontë, The Tennant of Wildfell Hall

15.1.07

Há dias de Inverno assim 7...

El Greco (1541-1614)
La Dama del Armiño

14.1.07

As “Boas Pessoas”

As “boas pessoas” são iguais às “más pessoas”. Quando têm que abortar, abortam; quando têm medo, têm medo; quando têm que mentir, mentem; quando se sentem abandonadas, choram; quando pensam que devem votar “sim”, votam “sim”; quando pensam que devem votar “não”, votam “não. Nem sempre o que pensam anda de mãos dadas com o que fazem, tal como com as más pessoas. Talvez não durmam um sono tão tranquilo, ou talvez sim...

Há dias de Inverno assim 6...

JOHN CONSTABLE 1776 - 1837
CHAIN PIER, BRIGHTON (1826-7) - TATE

13.1.07

Dilemas morais

Do mesmo modo se espera que os defensores do "não" considerem existir outro tipo de dilemas morais tão genuínos como os suscitados pela questão da "vida". Uma gravidez não desejada, - e pode ser não desejada por inúmeros motivos - , é também profundamente perturbadora (pode também "matar" em vida) e suscita questões morais que não são menores do que aquelas que se levantam à volta da "vida". Reconhecer uma idêntica valoração moral quer aos motivos da decisão do "sim" quer do "não", é o único ponto de partida para um debate sério e não relativista.

Depois de ter lido esta nota de JPP, não deixo de querer fazer um breve comentário. É precisamente porque a questão do aborto levanta “outro tipo de dilemas morais” que é tão polémica, fracturante, funcionando como uma espécie de caixa de Pandora de onde vão saindo cada vez mais questões, quer do foro íntimo quer do foro social, morais e éticas, financeiras e políticas. O aborto toca na “vida”, e na “vida” cabe tudo. Discutir o aborto é complexo e eu creio que a abordagem “less is more” é provavelmente aquela que evita extremismos, demagogias fáceis, certezas absolutas, slogans datados ou arrogâncias morais. A parte que me levanta dúvidas prende-se com o “tipo de dilemas morais” que poderão determinar uma opção de aborto. Eu não duvido que sejam genuínos, legítimos, naturais e normais (num sentido estatístico de normalidade), o que questiono é se, na valoração moral estas questões terão o mesmo peso que a “vida”. Primeiro porque quando falamos na questão da “vida” sabemos do que falamos, e quando falamos de “outro tipo de dilemas morais”, não sabemos do que falamos, tornando-se mais difícil essa valoração.

A lei actual contempla alguns conhecidos dilemas morais: violação, saúde da mãe (de forma muito abrangente) e mal formação do feto. Existirão muitos mais, sobretudo no foro íntimo de cada ser humano. Mas como pode ser feita essa valoração? Deve a sociedade fazer uma lei que acautele, esses “outro tipo de dilemas morais”, e só durante as primeiras dez semanas, em detrimento de um valor que se considera maior e que é a “vida”?

12.1.07

The image “http://www.worsleyhallgardencentre.com/camellia%20images/Camellia%20japonica%20'Adolphe%20Audusson'.jpg” cannot be displayed, because it contains errors.CAMELLIA JAPONICA ADOLPHE AUDUSSON

11.1.07

Arbitrariedade do Estado

Todos, da ministra ao Presidente que promulgou o novo decreto-lei sem hesitações - só o provedor de Justiça lembrou o perigo de se mudarem regras a meio do jogo -, jogaram com a sorte de milhares de jovens com a ligeireza de quem joga na roleta

Público, Editorial de hoje, sobre os casos das notas de exames decididas em tribunal, porque o Ministério não soube acautelar a igualdade de circunstâncias para todos os alunos. Este caso, de contornos evidentemente injustos e pantanosos provocados por incompetência e leviandade do Governo, e denunciados neste Editorial continua no entanto, a não merecer a atenção, indignação e a reprovação que esperaria. Que mais faltará?

Há dias de Inverno assim 5 ...

Van Gogh

Peritos?

Que peritos são estes que propõem a criação de mais um imposto? Desta vez na área da Saúde. Para propor criação de impostos não é necessário chamar nem pagar a peritos: qualquer um consegue fazê-lo. Peritos e sábios são os que, sem criação de novos impostos, propõem a racionalização de um serviço evitando as derrapagens financeiras. Claro que uma racionalização, reorganização e controle de custos (as ditas reformas estruturais!) é decididamente mais complexo, polémico, demorado e não gera dinheiro fácil já... Mas esta proposta de peritos é certamente a má opção. Nunca é demais dizê-lo: o país vive sufocado com tanta carga fiscal.

10.1.07

Há dias de Inverno assim 4...

Utagawa Hiroshige
People on a Bridge Surprised by Rain (1856-8)
(from the series One Hundred Famous Views of Edo)

Em que o carro vai para a revisão.

9.1.07

Há dias de Inverno assim 3

Albert Marquet
Port de Marseille sous la pluie (huile sur toile, 1918)

O NIM

Parece que alguns movimentos de apoio ao SIM no referendo ao aborto começaram a perceber onde tudo se joga. Tal como no voto partidário em que o chamado “centrão” decide o sentido do voto, também neste referendo é ao NIM que terão de ir buscar votos e uma decisão. O SIM está a perceber que um discurso demasiado voluntarista que se baseie numa concepção de liberdade que põe em causa a liberdade de existir do feto, ou em slogans do tipo: “aqui mando eu” ou em discursos inflamados sobre desigualdades sociais (que se irão manter) afastam votos. Cabe ao NÃO agora, aproveitando o maior argumento do respeito pela vida, abandonar de vez um discurso demasiado taxativo e de alguma arrogância moral, no qual muitas mulheres, e também homens, ou porque já abortaram sendo “contra” o aborto, ou porque têm consciência que um dia poderão ser confrontadas com uma situação de dilema sobre abortar ou não, não se revêem e rejeitam.

Será difícil: o discurso sobre a liberdade e o direito à decisão está tão enraizado na história recente das lutas e reivindicações feministas, e o aborto tão dependente de uma certa noção de direito da mulher que dificilmente certos sectores conseguirão olhar para esta questão de outra forma. O grande terreno comum parece ser o da rejeição do aborto e o da rejeição da condenação de uma mulher por ter feito um aborto. É neste, pelo menos aparente, desequilíbrio partilhado pelo NIM que se joga a decisão do referendo.

8.1.07

Carolina 2

Diz a capa do 24 horas de hoje: “Carolina andou na farra com amigos do Benfica”. Não sei se deva começar a ficar preocupada, pois se há algo que não entendo é que, por causa de um homem, se troque de clube. Oxalá esteja enganada, para tranquilidade do espírito!

CCB

Hoje demorei a folhear o livrinho da programação do CCB para Janeiro, Fevereiro e Março. Vi com atenção, marquei as páginas com espectáculos que me pareciam interessar para com mais tempo decidir o que me apetece ver ou não. Já há muito que não o fazia este ritual pois, nos últimos anos abria o livro e depressa o via, muitas vezes deitando-o fora de seguida por nada me ter entusiasmado. Nos anos que se seguiram à inauguração do CCB, pude lá espectáculos, sobretudo de ópera e bailado, de enorme qualidade coisa que nos últimos anos não consegui fazer porque as propostas me eram desconhecidas ou simplesmente não me interessavam. Vejo agora com agrado o regresso de propostas de obras “clássicas” conhecidas e apreciadas, nomeadamente ópera, numa das boas salas da cidade de Lisboa.

7.1.07

Há dias de Inverno assim 2

6.1.07

Dia de Reis

Sandro Botticelli
Adoration of the Maji (Del Lama Adoration), 1475
Galleria Degli Uffizi

Parece ser impossível não gostar, sempre, de Sandro Botticelli. Vêm modas estéticas com as suas teorias inovadoras, vêm diferentes valorizações da memória artística, ou manias, gostos, estados de alma, psicanálise simbólica da obra de arte, chuva, vento ou sol desabrido, mas desde o dia em que se viu o primeiro quadro de Botticelli que ficamos presos à sua obra. Não há excessos de postais ilustrados de pormenores da Primavera, nem poster de gosto mais ou menos duvidoso do Nascimento de Vénus que perturbe esta admiração. Mesmo cercados por enxames de turistas polifónicos e barulhentos, numa sala mal iluminada dos Uffizi, depois de esperar para lá entrar... nada parece abalar este gostar imenso que nos deixa rendidos perante a sua obra.

5.1.07

Engenharia e Bruxarias


Todas as notícias que tenho ouvido sobre a destruição do reforço das dunas na Costa da Caparica, bem como o facto da reposição de areia nas praias não ter sido suficiente para travar o avanço do mar, lembraram-me um capítulo do livro de Mário Vargas Lhosa que li recentemente, e que já aqui referi Travessuras da Menina Má que fala do mistério que envolve a construção de esporões. São ilustrações da luta entre o homem e as forças da natureza, ou o querer desvendar todos os seus segredos. Deixo aqui um breve excerto:

Não havia nenhuma razão para que não resistisse (...), Eu sei dessas coisas, foi para isso que estudei. As ondas e as correntes eram as mesmas que incidiam no primeiro. A linha de fuga, idêntica, assim como a profundidade das fundações submarinas. Os operários insistiram comigo para que desse ouvidos ao Arquimedes, mas eu achei que era um capricho de velho bêbedo para justificar o ordenado. E construí-o onde me pareceu. Em má hora amigo Ricardo! Meti-lhe o dobro das pedras e da argamassa do primeiro, e o maldito desfazia-se-me uma e outra vez. Provocava remoinhos que alteravam toda a zona envolvente e criavam correntes e marés que tornaram a praia um perigo para os banhistas. Em menos de seis meses, o mar fez-me o endemoninhado esporão em pedaços e deixou-o transformado na ruína que viste. Cada vez que por lá passo fico com a cara a arder. Um monumento à minha vergonha! A Câmara multou-me e fiquei a perder dinheiro. (...) As explicações que ele dá não são explicações (...). São patetices. Como “O mar ali não aceita”, “Ali não encaixa”, “Ali vai mexer, e se mexer, a água rebenta com ele”. Parvoíces assim sem pés nem cabeça. Bruxarias, (...) ou o que quer que seja. Mas, depois do que me aconteceu na Costa Verde, eu calo-me muito caladinho, e é o que o velho disser. Em matéria de esporões não há engenharia que valha: ele sabe mais.

4.1.07

Há dias de Inverno assim...



Hercules Brabazon Brabazon The Rhone Valley, a Storm
Hercules Brabazon Brabazon - 1821-1906
The Rhone Valley, a Storm
Watercolour and gouache on paper

3.1.07

"Gramática" Transcendente

A comunicação social em geral e também alguns blogues têm dado notícia desta mensagem Papal de 1 de Janeiro para o Dia Mundial da Paz, destacando sobretudo a frase em que Bento XVI, sobre o direito à vida, denuncia “o destroço de que é objecto na nossa sociedade: junto às vítimas dos conflitos armados, do terrorismo e das mais diversas formas de violência, temos as mortes silenciosas provocadas pela fome, pelo aborto”. A menção do terrorismo e do aborto na mesma frase terá suscitado polémica inferindo-se que o Papa terá estabelecido uma comparação entre ambos os actos. A leitura integral da mensagem, que é, na minha opinião, bem estruturada, rica e de fácil leitura, permite um juízo sobre o que é dito, não só menos superficial, como esclarecedor da forma racional e espiritualmente exigente deste homem de Fé pensar e de olhar para o mundo. No entanto, e voltando ao direito à vida, proponho este excerto como forma de contextualizar a visão de Bento XVI sobre esse direito à vida.

Uma paz verdadeira e estável pressupõe o respeito dos direitos do homem. Mas se estes direitos se baseiam numa concepção débil da pessoa, como não hão-de ficar também eles enfraquecidos? Daqui se vê claramente a profunda insuficiência de uma concepção relativista da pessoa, quando se trata de justificar e defender os seus direitos. A aporia neste caso é patente: os direitos são propostos como absolutos, mas o fundamento aduzido para eles é apenas relativo. Causará surpresa se, diante das exigências “incómodas” postas por um direito ou outro, aparecer alguém a contestá-lo ou decidir ignorá-lo? Somente radicados em instâncias objectivas da natureza dada ao homem pelo Criador, é que os direitos a ele atribuídos podem ser afirmados sem medo de contestação.

Bento XVI aborda aqui, mais uma vez um tema que lhe é caro (quem leu Ratzinger conhece-o): o do relativismo moral que, neste caso, se revela insuficiente para um coerente respeito dos direitos do homem. Assim sendo, a morte de um ser humano e o consequente não respeito pela vida, Graça do Criador, viola o direito absoluto à vida humana. Bento XVI, neste texto, usa argumentos teóricos fala como um intelectual, filósofo, teólogo, fala em princípios em valores; não lida nem analisa fenómenos políticos ou sociais. Não explora a psicologia, a sociologia, não faz história. Mas, do que está escrito, infere-se que o mal que fez Saddam Hussein é irrelevante para a defesa do direito à vida enquanto absoluto, o mal que os terroristas queiram castigar com os seus actos é igualmente irrelevante como defesa de um acto que tira de forma deliberada a vida de tantos. Também o dilema existencial ou financeiro ou outro que determina quem decide interromper uma gravidez é fraco fundamento para a violação do direito à vida.

No entanto, e para que não se leia na minha interpretação deste texto de Bento XVI qualquer tipo de fundamentalismo, que não seja a minha crença no direito à vida, ou qualquer tipo de arrogância de quem detém a verdade e se sente intocada por dilemas de que tipo sejam, deixo um outro excerto desta mesma mensagem que nos leva ao outro lado, que permite um olhar menos teórico e mais humano para o tomar de uma decisão, e para um acto:

A “gramática” transcendente, ou seja, o conjunto de regras da acção individual e do recíproco relacionamento entre as pessoas de acordo com a justiça e a solidariedade, está inscrita nas consciências, nas quais se reflecte o sábio projecto de Deus. Como recentemente quis reafirmar, «nós cremos que na origem está o Verbo eterno, a Razão e não a Irracionalidade».

Para os crentes, a consciência individual é então local privilegiado do projecto de Deus, e é aí que Deus, na sua infinita misericórdia, nos acolhe e nos ama cada minuto de cada dia. Esta é a “gramática” transcendente que tem uma face tão pouco visível nas nossas sociedades ocidentais, que este Papa, e o último, cada um do seu modo não se cansam de mostrar.

2.1.07

Travessuras



Não encontro explicação, mas sempre ignorei Mário Vargas Llosa. Nunca quis saber, nunca perguntei, nunca tive curiosidade, nunca comprei, nunca li. Creio que o excesso de romances latino-americanos, alguns deles muito bons, lidos há umas décadas atrás terá que ver com essa indiferença. Por isso fiquei surpreendida quando, de repente vejo, compro e leio o último romance de Llosa Travessuras da Menina Má. Li o livro de um fôlego e percebi que estava perante um hábil narrador, fazendo jus à tradição da literatura latino-americana, apesar deste livro ser mais urbano, cosmopolita e europeu. Mas é sobretudo uma história de amor como já não se usa... A ler!

1.1.07

Marc Chagall, Presépio - 1950

Grandes Portugueses 3

Acabo de ver na televisão que os dois filmes mais vistos em Portugal no ano de 2006 foram “O Filme da Treta” e “O Código da Vinci”...

Passados uns minutos vejo, também na televisão, imagens de diferentes passagens de ano aqui em Portugal: coroas e diademas nas cabeças, comboiozinhos dançados, uma chuva de várias garrafas de espumante por cima das cabeças, risos, alegria pontual e muitos votos de saúde e paz.

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