“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
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24.9.09

Juntos, Quê?

Estávamos à conversa sobre o facto de tudo ter significado (meaning) quando passámos pelo último cartaz “Avançar Portugal”´do PS em versão gigante (que se pode ver aqui). Olhámos o cartaz e perguntei o que é que um político de braço esticado lhe fazia lembrar. Hitler, foi a resposta imediata. Lembrei também Mussolini, Lenine e Kim Ill Sung retratados em conhecidas estátuas sempre com um braço à frente - porque nada é inocente nunca, muito menos em campanhas profissionais pensadas ao milímetro, e que gestos e palavras nos remetem para significados que cada um encontra na memória, ou por associação de ideias, seja como for que não sou psicóloga. A imagem de ditador que pode surgir é imediatamente suavizada pelo sorriso e pelo polegar "fixe" e optimista, reforçando o sentido da determinação e autoridade em detrimento da repressão. A fotografia feita para apanhar José Sócrates levemente de lado dá um registo de informalidade e “glamour”. Resumindo a fotografia tentar dar-nos informação sobre tudo aquilo que José Sócrates pensa que é, e tudo o que ele quer que pensemos que é. Não me lembro de ter algum dia visto cartazes tão cuidados como estes do PS.

Depois vem a parte afectivo-colectiva e pirosa do cartaz. O verde e o vermelho a lembrar a bandeira nacional, com José Sócrates no meio, qual esfera armilar. A essência do “ser” português, o Portugal que se confunde com ele, o Portugal no centro da sua decisão, e José Sócrates no centro da nossa vida, o “rei-sol”, a nossa identidade, a salvação. Quanta presunção num só cartaz!

Finalmente a mentira: o sempre presente “nós” do “Juntos Conseguimos” que simplesmente não existe, e pelo qual ele tem desprezo, por muitas criancinhas e velhinhas que beije na campanha. José Sócrates sempre esteve só na decisão, nas rédeas do poder, e no seu pedestal, e o seu horizonte quer visual quer político, de decisões e projectos, deve ter pouco mais de 50cm de diâmetro o que o tem tornado cego para a realidade do “nós” dos portugueses. Ele só perceberá, (que a vida é cruel por muito optimismo que se ingira em cápsulas ou mantras) o quão só está quando perder eleições.

O "conseguimos" um intemporal modo verbal (passado e presente que se projecta para o futuro), é todo um programa. Ao certo o que é que "conseguimos" nestes últimos 4 anos? O que é que ao certo "conseguimos" hoje e nos próximos 4? Estas são as perguntas certas a fazer. Pois conseguir nos próximos 4 anos o que "conseguimos" neste últimos é uma perspectiva nada animadora. Se respondêssemos seriamente a estas questões, José Sócrates nunca deveria ganhar as eleições do próximo Domingo.
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