“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
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12.10.09


Ouvir ontem à noite nas televisões, em directo, um jornalista perguntar a Santana Lopes o que é que ele ia "ali fazer", e se ia "à casa de banho", (ver aqui por exemplo) é mais um gesto revelador do baixo nível de profissionalismo do jornalismo português. É uma pergunta impertinente porque gratuitamente agressiva, irrelevante pois é uma matéria que está longe de ser do interesse público, mal-educada, porque sim e não preciso sequer de explicar, e ilustradora do servilismo jornalístico português que, quando se trata do poder, nomeadamente do PS e sobretudo de José Sócrates é todo mesuras e respeitinho. Ou alguém imagina o “espertinho “ a fazer essa pergunta ao Primeiro-ministro? Claro que Santana Lopes muitas vezes se “põe a jeito”, mas nada justifica essa falta de educação e a ausência de qualquer tipo de profissionalismo.
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6.10.09



Só agora reparo que nos cartazes do PS para o Município de Oeiras se escreve Marcos Perestrello com dois “l”. A imagem de uma esquerda que quer parecer cada vez mais frequentável. Estes agências de comunicação são umas brincalhonas.
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1.10.09

Os Gadgets Autárquicos

No Concelho de Oeiras, na parte que conheço, ultimam-se furiosamente rotundas e jardins. Rotundas com jactos de água, com relva e esculturais canteiros de flores (coisa moderna, note-se, nada de canteiros à moda antiga), com estátuas ou blocos abstractos de matéria. As oliveiras dos jardins há muito que foram plantadas, mas agora acabam-se os caminhos, os degraus, enfeitam-se os espaços. Nada que aborreça o olhar ou o gosto, que nisso Isaltino de Morais sabe como fazer, e já há muito que o faz.


Em Lisboa a coisa é diferente: António Costa começou de mansinho a guerra aos automóveis feita pelo município que hoje já parece não ter tréguas, para gáudio dos taxistas que se queixam de pouco negócio e “muitos carros”. Tudo começou com o desastre – pela forma leviana como a obra foi feita sem se perceber se houvera discussão e até uma decisão – no Terreiro do Paço em que, depois de uns meses de puro caos, as faixas de circulação se reduziram a duas na zona do terreiro do Paço, uma em cada direcção. Hoje atravessar de carro a cidade de poente a nascente (ou vice-versa) pela beira rio é um acto que o município desencorajou, e não percebo porquê, nem faz sentido que assim seja. Eu que sempre gostei desse trajecto, hoje penso duas vezes antes de o fazer, mas confesso que as alternativas nem sempre são melhores. A mesma coisa aconteceu à Lisboa Pombalina onde se acabou com a circulação automóvel ou se reduziram as faixas de circulação, não criando percursos alternativos. A redução das faixas de circulação parece ser uma política fétiche desta gestão camarária. Fazem-no um pouco por todo o lado e em ruas onde antes se circulava bem, nomeadamente no Bairro Azul e em Telheiras, tendo como consequências atrasos e incómodos a todos os que delas se servem. O resultado é uma já notória pioria significativa da circulação, com bichas e demoras a qualquer hora, mesmo quando antes não as havia.

Os automóveis não vão desaparecer, por muito que o discurso politicamente correcto o repita, e o deseje, enquanto não houver alternativas reais: a rede do metropolitano é muito pequena e limitada, sem soluções para a cidade nomeadamente para a parte ocidental,e os restantes transportes colectivos não são fiáveis, nem oferecem muitas vezes, soluções de rapidez e conforto. O automóvel continua a ser o rei dos transportes para quem não tenha uma paragem de metro à porta de casa e outra à porta do trabalho. Nesse grupo está essa grande maioria de cidadãos que usa automóvel na cidade de Lisboa.

O pior é que não percebo o porquê desta política hostil de circulação, nem a razão de acabar com faixas de rodagem. A única explicação que tenho é o surgimento quase espontâneo de pistas de circulação para bicicletas: entre Campolide e a Radial de Benfica, em Telheiras, entre o Estádio da Luz e o Colombo, etc. Vejo carros em bichas, mas até hoje não vi uma única bicicleta. António Costa, que não é burro, não deve, nem nos seus sonhos mais loucos, pensar que vamos deixar de nos deslocar de carro para o fazermos de bicicleta, logo em Lisboa cuja topografia não poderia ser mais díspare da de Amsterdão, ou Londres, ou até Paris. Ninguém em Lisboa vai trabalhar, ou à Loja do Cidadão, ou às compras, ou ao médico de bicicleta. E ao fim de semana, quem quer passear ou fazer exercício escolhe outros locais: a beira rio ou Monsanto. Por isso não se vê uma alminha que seja a utilizar essas pistas para bicicletas, que mais não são do que esbanjamento de recursos. Tudo não passa de demagogia politico-ecologicamente correcta para poder dizer que fez e quer fazer muito pelo ambiente e pela cidade. Tretas, o que faz é redobrar os problemas de trânsito e encher a cidade de elefantes brancos de côr salmão (a côr das pistas para bicicletas).
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27.9.09

Venceu “o Sócrates”. Venceu o Senhor Engenheiro. Venceu o optimismo de pacotilha, a política feita de belos cenários, músicas que enchem o coração, e frases pensadas, ensaiadas e repetidas ad nauseam. Venceu “ter-se boa imagem”. Venceu o parecer em vez do ser. Venceram as máquinas partidárias que fizeram ganhar ou perder as eleições. Venceram as agências de comunicação. Venceu a relação difícil com a verdade. Venceu o discurso político grau zero. Venceu o marxismo, leninismo e afins.

Venceu mais um tabu de Cavaco Silva.

Que país de treta.

25.9.09

Ouço comentadores na RTPN - que passou em directo largos momentos do comício de encerramento do PS, incluindo compassos de espera de José Sócrates à saída - a falar de um “outro José Sócrates” que surgiu e aparece desde a derrota das europeias a fazer um trabalho de (re)construção. Menos arrogante, menos "animal feroz". Os comentadores falam nisso como que a louvar essa "mudança", uma inteligente táctica do actual Primeiro-ministro. Ora para mim, é precisamente o contrário: é porque José Sócrates se pode oldar de uma ou outra maneira, de um ou outro estilo, é por causa dessa flexibilidade de “ser”, que eu não o quero mais para Primeiro-ministro. Há também, como é óbvio e como ao longo dos tempos tenho aqui escrito, o problema das suas políticas, ou melhor das suas medidas casuísticas, da sua falta de visão política que se esgota na enunciação do optimismo e determinação - mas tão mau ou pior do que a política que faz, é essa falta de verdade em conseguir ser aquilo que é, essa necessidade constante de ser "outro" conforme as circunstâncias e conforme o guião que especialistas de comunicação preparam para ele.

Tudo o que Manuela Ferreira Leite não é, nem representa.
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24.9.09

Juntos, Quê?

Estávamos à conversa sobre o facto de tudo ter significado (meaning) quando passámos pelo último cartaz “Avançar Portugal”´do PS em versão gigante (que se pode ver aqui). Olhámos o cartaz e perguntei o que é que um político de braço esticado lhe fazia lembrar. Hitler, foi a resposta imediata. Lembrei também Mussolini, Lenine e Kim Ill Sung retratados em conhecidas estátuas sempre com um braço à frente - porque nada é inocente nunca, muito menos em campanhas profissionais pensadas ao milímetro, e que gestos e palavras nos remetem para significados que cada um encontra na memória, ou por associação de ideias, seja como for que não sou psicóloga. A imagem de ditador que pode surgir é imediatamente suavizada pelo sorriso e pelo polegar "fixe" e optimista, reforçando o sentido da determinação e autoridade em detrimento da repressão. A fotografia feita para apanhar José Sócrates levemente de lado dá um registo de informalidade e “glamour”. Resumindo a fotografia tentar dar-nos informação sobre tudo aquilo que José Sócrates pensa que é, e tudo o que ele quer que pensemos que é. Não me lembro de ter algum dia visto cartazes tão cuidados como estes do PS.

Depois vem a parte afectivo-colectiva e pirosa do cartaz. O verde e o vermelho a lembrar a bandeira nacional, com José Sócrates no meio, qual esfera armilar. A essência do “ser” português, o Portugal que se confunde com ele, o Portugal no centro da sua decisão, e José Sócrates no centro da nossa vida, o “rei-sol”, a nossa identidade, a salvação. Quanta presunção num só cartaz!

Finalmente a mentira: o sempre presente “nós” do “Juntos Conseguimos” que simplesmente não existe, e pelo qual ele tem desprezo, por muitas criancinhas e velhinhas que beije na campanha. José Sócrates sempre esteve só na decisão, nas rédeas do poder, e no seu pedestal, e o seu horizonte quer visual quer político, de decisões e projectos, deve ter pouco mais de 50cm de diâmetro o que o tem tornado cego para a realidade do “nós” dos portugueses. Ele só perceberá, (que a vida é cruel por muito optimismo que se ingira em cápsulas ou mantras) o quão só está quando perder eleições.

O "conseguimos" um intemporal modo verbal (passado e presente que se projecta para o futuro), é todo um programa. Ao certo o que é que "conseguimos" nestes últimos 4 anos? O que é que ao certo "conseguimos" hoje e nos próximos 4? Estas são as perguntas certas a fazer. Pois conseguir nos próximos 4 anos o que "conseguimos" neste últimos é uma perspectiva nada animadora. Se respondêssemos seriamente a estas questões, José Sócrates nunca deveria ganhar as eleições do próximo Domingo.
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8.6.09

Muito boa a análise de Eduardo Cintra Torres no Público caderno principal da edição impressa de hoje com o título: Dez Derrotados na Comunicação. A saber, mesmo que seja importante ler todo o artigo: 1 - A reportagem opinativa, 2 - A campanha enviesada da RTP, 3 – A Credibilidade das sondagens, 4 – A artificialidade comunicativa do PS e da LPM, 5 – A comunicação arrogante e sufocante, 6 – Os comentadores da direita socratista, 7 – Miguel Sousa Tavares, 8 – A sobrevalorização da sondagem das legislativas na SIC, 9 – A infelicidade do humor, 10 – O novo riquismo cenográfico (RTP).

5.6.09

Basta de Socialismo na Sociedade Portuguesa!

Basta de Socialismo na Sociedade Portuguesa!

Esta frase que Paulo Rangel elegeu para palavra de ordem é um alívio para a alma. Estamos fartos de socialismo. Abstenho-me agora de comentar José Sócrates, a sua imagem cultivada em think tank de marketing, as suas frases inventadas em laboratório de ideias e desenhadas e arquitectadas de modo a bastarem-se por si, no discurso redondo que usa tão típico dos monólogos por ele promovidos às horas que lhe convém, não vale a pena agora explorar o que ele representa de superficialidade e frivolidade, nem alongar-me nas incessantes dúvidas sobre o seu percurso e as razoáveis dúvidas sobre o seu carácter. Deixemos isso hoje.

Basta de socialismo! Estamos fartos do peso do Estado do seu excessivo poder, do crescente endividamento da sociedade portuguesa, do constante e crescente peso do fisco sobre as pessoas e as empresas, da prepotência das medidas tomadas aleatoriamente, dos ajustes directos entre o estado e empresas que promovem as ideias que geram anúncios que nem sempre se vão realizando. Estamos fartos de projectos megalómanos que servem para dar a ilusão e a patine moderna ao país pobre em dinheiro e em espírito que somos. Parafraseando Vasco Pulido Valente hoje no Público: para um povo melancólic(o), desiludid(o) e sem esperança. Que lhe pode trazer um novo regime: uma terceira auto-estrada?

Paulo Rangel conseguiu gerar algum ímpeto e entusiasmo numa campanha eleitoral que normalmente mobiliza pouco e em que a Europa e os seus impasses foram os grandes ausentes, mas que permitiu ao eleitor aperceber-se e ver que se desenha uma alternativa ao PS e a José Sócrates. Muito mérito de Paulo Rangel certamente, mas mérito também de Manuela Ferreira Leite. A líder do PSD que não entusiasma ninguém, que fica bem criticar, e que se confronta diariamente com a má fé e com os seus maiores críticos dentro do seu partido, é a grande responsável pela escolha e pelas decisões tomadas no PSD. Por muito hábil, e comum, que seja a retórica iluminada que tente demarcar Paulo Rangel de MFL, não o conseguirão. Qualquer vitória dele será sempre uma vitória dela. Eu espero por Domingo, e espero que Domingo um passo mais na direcção do Basta de Socialismo na Sociedade Portuguesa! seja dado.
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28.4.09

Hoje são os Cheque-dentista

O pior desta política de medidas/anúncios/inaugurações diários, - hoje são os cheque-dentista - calendarizados milimetricamente para que o “efeito” de empenhamento político do governo e do Primeiro-ministro se mantenha elevado, com deslocações, pompa e cenário cuidadosamente estudado, um discurso mais estudado ainda para sair natural e em frases simples e sonantes de frente (ou será ¾?) para as câmaras de televisão, num exercício que durará até às eleições (talvez uma treguazita lá para Agosto?), é o facto de que as medidas em si, lidas e vistas assim em título de jornal, são feitas de forma a dificultar o questionamento sobre a sua bondade, necessidade ou interesse e são feitas de forma a minimizar a discórdia e contestação. Quem discorda de que se deva incentivar a higiene oral das crianças prevenindo doenças da boca? Quem discorda da extensão da escolaridade para 12 anos? Quem discorda que os medicamentos genéricos sejam comparticipados a 100% para reformados dos escalões de rendimentos mais baixos? Assim, de repente, é difícil discordar, no entanto estas medidas são demagógicas e populistas, são mais pensadas pelo efeito que causam ao eleitor do que pensadas em função de uma coerente política sectorial. Da forma como são apresentadas, elas estimulam o sentimento de dependência das pessoas ou empresas do Estado paternalista que zela por nós e a todo o momento nos salva e nos dá uma mãozinha quando as circunstâncias apertam, transmitem também uma noção de facilitismo irrealista e contraproducente. O Estado não pode tudo nem tem que poder tudo. Os cheques-dentista têm que estar inseridos num sistema de saúde racional e de custos controlados. O ensino até aos 18 anos tem que ser pensado em termos de dar a formação devida às diferentes pessoas, diferentes talentos e diferentes ambições. Estas medidas nunca deviam ser olhadas isoladamente, deveriam sempre ser parte de algo mais estruturado e abrangente em que se percebesse um sentido, uma lógica, um orçamento, uma racionalização de custos. Mas não – o governo não quer que pensemos, que discutamos as políticas sectoriais, o governo quer-nos calar com medidas “simpáticas”, mas que não restem ilusões, todas estas medidas têm custos que ninguém questiona, o deficit aumentará ainda mais bem como o endividamento externo, e nenhuma destas “medidas” nos fará estar melhor quando a crise passar, nem contribuirá para o enriquecimento do país. Até lá o calendário eleitoral terá sido cumprido com um ritmo de inexorável cegueira em que nos empobrecemos um pouquinho mais cada dia que passa.
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13.7.07

Um privilégio

As últimas eleições legislativas não me entusiasmaram, não consegui querer a vitória de um dos candidatos e votar foi um desinspirado cumprimento de “dever cívico”. Nestas intercalares municipais em Lisboa, a vontade de cumprir o “dever cívico” é nula. Tudo à volta destas eleições me gera náusea: os candidatos, a campanha, os debates, as soluções, o discurso, as “ideias” sobre Lisboa. A falta de inspiração política, as ideias e soluções coladas à pressa ao discurso de campanha sem a solidez de uma visão amadurecida, as personagens saídas de um romance absurdo, umas ainda atordoadas e as outras teimosamente coladas ao seu fado, os chamados “interesses” cada vez mais despudoradamente visíveis, a voracidade com que se agarra o poder sem obrigar a reflexão ou jejum prévio, tudo junto me dá vontade de, pela primeira vez, não ir votar.

Claro que resistirei a este impulso, pois basta-me pensar em quão privilegiada sou por poder fazê-lo. Nalgumas sociedades, islâmicas por exemplo, não poderia votar, ou porque sou mulher ou porque, muito simplesmente, não há eleições livres. Por isso estarei atenta às sondagens de hoje para votar sem eficácia, presumo, contra aquele que sei que não quero que ganhe: António Costa.

Acerca de mim

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