“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
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2.3.08

Junkyard

A sensação de que a escola é um junkyard, onde tudo é válido, tudo se experimenta, tudo se tenta, tudo se procura e tudo o que não é o seu principal objectivo se exige, perdendo de vista a sua função central e a estabilidade necessárias para a formação de uma geração atrás da outra, continua cada vez mais forte e mais dramática. Há um ano, a propósito do filme “Notes on a Scandal” falou-se do retrato da escola traçado nos primeiros 10 minutos do filme pela personagem encarnada por Judi Dench; um retrato cínico e amargo onde não se percebe bem que futuro a escola prepara quem a frequenta, e onde o respeito pela instituição é inexistente da parte de todos os envolvidos. A escola é nesse filme apontada como um prolongamento dos serviços sociais, mais do que um local de aprendizagem e do saber e da exigência, disciplina e avaliação que o aprender e saber exigem.

Nesta semana que passou realço dois factos. O primeiro na vizinha Espanha, melhor na Catalunha, com os folhetos distribuidos pelas escolas ao abrigo do programa “Salut i Escola” em que se discorre sobre as vantagens da masturbação aos alunos entre os 10 e os 16 anos. Esta é uma imagem da face desta vertente actual de laicismo militante (a vontade de “chocar” a tradição católica é demasiado óbvia) e de politicamente correcto. Sem querer pôr em causa as vantagens de uma educação sexual da parte da escola, mais informativa do que formativa (para não andar sempre a mudar ao sabor das últimas modas), eu interrogo-me sobre se não seria melhor concentrar os limitados recursos das escolas no estudo da matemática, da língua castelhana ou portuguesa no nosso caso, da ciência, da história, do inglês. O disparate parece não ter fim, e ainda bem para os envolvidos que o ridículo, tal como a masturbação, não mata. Isso o folheto não explicava.

Também esta semana a entrevista de Ana Benavente à SICN na quinta-feira, que por acaso vi. Percebeu-se bem demais a intenção e, tal como com o ex-ministro da saúde, Correia de Campos, a pressão contra M. De Lurdes Rodrigues, vem também de dentro do PS. Ana Benavente, ex-Secretária de Estado, foi patética e fiquei chocada e incrédula a ouvi-la num discurso já demasiado ultrapassado, gasto e penoso, e não me lembro de uma crítica contundente e pertinente à actuação da ministra. Tudo o que ela disse remete-nos para um universo muito pior do que o que aquele que a actual ministra mesmo nestes momentos de forte crise no sector, gerados também pela sua política, em que abundam a contradição, o autoritarismos incoerentes, a falta de estratégia, pode remeter. Para quem deseja ver mudanças e reformas no sistema de ensino em Portugal, Ana Benavente foi naquele momento a imagem de tudo o que não se quer: a complacência para com as “corporações”, professores, sindicatos, alunos, pais; o laxismo perante a exigência, rigor e a autoridade da escola, as avaliações de todos os envolvidos (alunos primeiro, professores também); a obsessão pelos consensos ousando até, apesar da precaução, a palavra “diálogo”.

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