“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
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16.5.10

Bento XVI em Portugal 5

A fotografia que faltava:

Helicóptero de Bento XVI a sobrevoar o Cristo-Rei (12/05/10)

15.5.10

Bento XVI em Portugal 4

Porto

Mas, se esta certeza (“Eu estarei sempre convosco até ao fim do mundo” (Mt 28, 20)» (Bento XVI, Enc. Caritas in veritate, 78)) nos consola e tranquiliza, não nos dispensa de ir ao encontro dos outros. Temos de vencer a tentação de nos limitarmos ao que ainda temos, ou julgamos ter, de nosso e seguro: seria morrer a prazo, enquanto presença de Igreja no mundo, que aliás só pode ser missionária, no movimento expansivo do Espírito. Desde as suas origens, o povo cristão advertiu com clareza a importância de comunicar a Boa Nova de Jesus a quantos ainda não a conheciam. Nestes últimos anos, alterou-se o quadro antropológico, cultural, social e religioso da humanidade; hoje a Igreja é chamada a enfrentar desafios novos e está pronta a dialogar com culturas e religiões diversas, procurando construir juntamente com cada pessoa de boa vontade a pacífica convivência dos povos. (Aqui)

Bento XVI em Portugal 3

Porto

Vaidade e Orgulho

Nos dias que passaram, a minha prioridade noticiosa foi, clara e inequivocamente, acompanhar tanto quanto possível a visita do Papa Bento XVI e a sua mensagem, através das várias visitas, encontros, homilias e discursos. Queria que o mundo e o seu ruído tivessem parado por uns dias não só para aumentar a disponibilidade mental como para dar mais espaço interior a essa viagem pelas faces do catolicismo que cada dia nos eram dadas ver. Não pude escapar totalmente pois a semana que passou foi fértil em importantíssimas decisões políticas para combater “a crise” e em jogos comunicacionais diversos. Tempo haverá, infelizmente, para os digerir e sobre eles me insurgir e desabafar.

A rápida passagem de Bento XVI no Porto comoveu-me. Porque o Porto estava lá, estava como nós sabemos que ele é: a chuva miudinha, a neblina sobre as pontes e o rio, o cinzento, as fachadas de pedra dos edifícios, as gentes que sabem acolher como ninguém (assim queiram), as varandas engalanadas (a da Câmara Municipal estava particularmente bela) e cheias de pessoas símbolo de uma vida que vem “de dentro”, a estrutura para o altar de linhas sóbrias, os painéis de madeira no fundo, bem como o belíssimo altar e cadeiras de madeira, frutos de trabalho de artesãos do norte dando uma nota do conforto burguês bem nortenho num dia em que o tempo não se fez clemente. A eucaristia teve uma dimensão de intimidade e de interioridade que raramente acontece em missas campais, mas reparei que todos os detalhes litúrgicos foram cuidados (evangelho declamado, coros de altíssima qualidade, paramentos...) o que contribuiu para a solenidade do momento, num ambiente de simplicidade.

Confesso que na emoção e vaidade (um pecado, dizem) portuense do momento me perguntei se o Papa repararia na qualidade daquele trabalho que o norte lhe oferecia. Depressa tive a resposta: no momento, a seguir à eucaristia, que o papa dedicou (visto na televisão em directo) a cumprimentar o jovem sacerdote (?) dono de uma voz excelente e que cantou o evangelho, e depois ao ler que o Papa pedira a cadeira em que descansara depois da missa no Porto. Razões para a vaidade e orgulho.

9.5.10

Bento XVI em Portugal


“A verdadeira missão da Igreja: ‘esta não deve falar primeiramente de si mesma, mas de Deus’”. (pág. 74)

O livro de Aura Miguel, bem organizado em torno de uma estrutura simples e eficaz, parece quase um guia (o essencial sobre...) sobre Bento XVI que nos conduz de forma eficiente e rápida, mas nunca ligeira, quer através do pensamento e preocupações teológicas e pastorais de Ratzinger/BentoXVI (o texto está recheado de citações suas de textos, intervenções e homilias vários e ao longo dos tempos), quer através da sua ligação a Portugal, quer dando-nos a conhecer o lado humano do actual Papa. Um trabalho que, apesar da aparente simplicidade e do pequeno número de páginas, é exaustivo, útil e de fácil leitura. Da vaticanista Aura Miguel.

14.4.10

Filipe Nunes Vicente escreveu hoje este post de leitura obrigatória. É, no entanto um texto escrito “de fora” e não “de dentro” (da Igeja Católica, claro). Nota-se, entre outras coisas que decorrem da leitura, num aspecto mais formal: o modo como FNV nomeia o Papa (uma escolha nada inocente): Ratzinger e não Bento XVI. Nota-se também em duas ou três afirmações que, apesar de fazerem sentido no contexto de uma leitura mais atenta do texto, podem ser consideradas imprecisas ou polémicas. A mais óbvia é o facto de afirmar que João Paulo II foi “Papa inofensivo”, afirmação sobre a qual não me detenho, mas a principal para mim, porque pode ser geradora de um “mal-entendido” numa leitura mais rápida do texto, é a de que Ratzinger tem desprezo “pela liberdade como valor universal”. FNV teve o cuidado de não dizer só “liberdade”, mas sim "liberdade como valor universal".

S. Paulo, por exemplo, fala muito na liberdade na Epístola aos Gálatas “foi para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gal. 5, 1), ou “Irmãos, de facto foi apara a liberdade que fostes chamados” (Gal. 5, 13) e enfatiza a importância da liberdade no cristianismo. De acordo com o Catecismo da Igreja, Cristo ressuscitado libertou-nos do pecado para que sejamos livres. Deus quer-nos livres, e porque somos livres podemos escolher entre o bem e o mal. Faria algum sentido o perdão de Deus (expresso através do sacramento da confissão) sem liberdade? A liberdade é-nos dada por Deus e ela torna-nos responsáveis. O Papa não despreza a liberdade.

Parece-me por isso importante não confundir a liberdade que nos é dada por Deus, da “liberdade universal” que o Papa despreza, de acordo com FNV. Quando era nova lembro-me de me explicarem que a liberdade andava sempre de mãos dadas com a responsabilidade, coisa que impedia um alívio mais imediato que vem associado à ideia de uma liberdade como uma mera possibilidade de escolher e optar. Ora escolhe-se e opta-se em função dos valores sociais dominantes que, esses sim, serão objecto de desprezo por parte do Papa Bento XVI. Presumo que seja a este desprezo que FNV se refere.


Resumindo os ditos valores: a cultura da experimentação, a tentação equalizadora, o politicamente aceitável, a soberba intelectual (o dito aparelho universitário), as ideias estreitas, banais e fáceis, o folclore e o excesso de ruído comunicacional (o aparelho mediático). Eu acrescentaria o imediatismo, o facilitismo, a aparência, o sucesso.

14.12.08

Dos Interditos

Leio, vejo e ouço na comunicação social que o Papa Bento XVI divulgou um documento com mais interdições. Claro que a mensagem subentendida era a de “mais interdições do Vaticano”, mais interditos, interditos sempre mais e mais. Leio os artigos (este, por exemplo) procuro alguma informação (aqui) e agora finalmente preto no branco o que se suspeitava mas ainda não se sabia ao certo: o pensamento oficial do Vaticano sobre a procriação medicamente assistida. Infelizmente, também eu digo: mais interditos em cima dos já conhecidos interditos, mais do mesmo e nada de novo. Voltamos à estaca zero. Ao que já era conhecido em matéria de contracepção e moral sexual agora reafirmam-se esses bem como se afirmam os novos interditos sobre a bioética e a procriação medicamente assistida.

Mantém-se assim a célebre dissonância entre o Vaticano e os crentes que, uns com indiferença e naturalidade, mas outros com coragem individual e contrariedade - coisas imperceptíveis e invisíveis neste mundo feito de dados adquiridos - tomam a pílula, usam o dispositivo intra-uterino, fazem bébés proveta, têm relações sexuais fora do casamento. Tudo um pouco longe desse mundo cor-de-rosa pensado pelo Vaticano onde supostamente se fazem os filhos como “fruto do acto conjugal específico do amor entre os esposos”, os filhos fazem-se como sempre se fizeram: fazendo-se. Aliás esta frase é o paradigma do deste desfasamento que teima em perpetuar-se no corpo da Igreja. É impossível evitar uma primeira e básica reacção: Meu Deus perdoai-lhes que presumivelmente “eles” (se houvesse mais “elas” talvez não se dissessem tantas imbecilidades, mas isso é outra conversa) não sabem do que falam.

Na sua ida aos Estados Unidos, onde vimos para escândalo de tantos Rudolph Giuliani, um reincidente divorciado recasado, comungar, o Papa criticou aquilo que ele considerou como uma moderna forma de catolicismo: o “pick and choose catholicism”, em que as pessoas ajustam a doutrina à medida das suas conveniências e das suas vidas e expectativas ignorando algumas directivas. O Papa Bento XVI tem alguma razão na sua crítica, mas não é com documentos destes e com a habitual posição do Vaticano sobre as questões da sexualidade e da bioética que se minimiza a distância entre os crentes e a sua Igreja. Não falo nem em facilitismos, nem relativismos, muito menos em porreirismos, lembro só que há mais correntes teológicas dentro do catolicismo do que aquela que representa o Papa, que a Igreja é diversa e livremente pensante e esta matéria, mesmo entre teólogos, quanto mais entre os leigos que enchem as igrejas ao domingo e os que não as enchendo dão no mundo o seu testemunho do Cristo vivo, está longe de ser consensual.

Mais do que julgamentos e interditos eu acredito na liberdade que a Ressurreição de Cristo nos dá e na Misericórdia Divina que, porque Deus se fez Homem e porque é isso que todos os anos nesta época o Natal se celebra, essa encarnação em que o Verbo se faz Homem, conhece a nossa condição humana, conhece a curiosidade que nos leva a querer saber mais e conhecer melhor o mundo na forma dos avanços científicos e tecnológicos, conhece a dúvida que nos faz vacilar, conhece a dor e a alegria. Acredito na Igreja (comunidade de crentes, e não só instituição), que melhor ou pior é presença no mundo e que se constrói tantas vezes apesar de interditos e mais interditos.

22.4.08

Bento XVI nos EUA, 2

Dos Direitos Humanos

A apologia dos valores culturais do mundo ocidental nunca deixam de estar presentes nas diferentes intervenções do Papa o que também aconteceu nesta sua viagem aos EUA. Na ONU ele abordou a questão dos direitos humanos da sua importância para a paz e ousou apelar a uma universalidade no reconhecimento dos mesmos. A Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) adoptada pelas Nações Unidas após os tantos abusos decorrentes da Segunda Guerra Mundial, nunca teve um carácter vinculativo e tem tido ao longo dos tempos os seus opositores mais ou menos silenciosos e continua ainda hoje a ser um tema que condiciona tantas vezes a agenda diplomática e política internacionais e, mais importante, condiciona a vida de milhões e milhões de seres humanos que são vítimas de abusos. Apelar à universalidade dos direitos, é insistir na profissão de fé na cultura humanista predominante no mundo cultural judaico-cristão e desafiar e impelir de forma clara a organização que os reconheceu e declarou a uma maior exigência dos seus membros no respeito pelos direitos humanos.

Também no encontro com os jovens e lembrando a sua juventude durante o regime nazi, Bento XVI falou da necessidade de prezar a liberdade, democracia e respeito pelos direitos humanos que os jovens hoje, em contraste com a sua juventude, gozam nos EUA e nas democracias ocidentais. E mais uma vez, o Papa foi mais longe alertando contra os perigos do multiculturalismo e do relativismo moral. Se a referência ao relativismo moral é um tópico caro a Bento XVI, já a referência aos perigos do multiculturalismo é ousada porque mais incómoda dado que nos meios mais tolerantes se tende a uma posição algo passiva, que prefere tantas vezes fechar os olhos para não ter que se confrontar com problemas como o desrespeito pela democracia, liberdade de expressão, igualdade entre sexos e o abuso da violência. Alertando para os perigos do multiculturalismo Bento XVI questiona a “bondade” de todas as tradições e culturas que se confrontam (não necessariamente no sentido bélico) hoje e tão de perto com a nossa.

21.4.08

Bento XVI nos EUA

Mais uma viagem de Bento XVI e mais um sucesso segundo o que se pode ler na imprensa deste e do outro lado do Atlântico. Com um estilo bem diferente do do seu antecessor, Bento XVI acaba sempre por surpreender no calor do contacto, nas palavras e gestos que usa. Os seus discursos que já não surpreendem, são sempre exigentes e obrigam a alguma reflexão. Mais do que um comentário à visita do Papa, à escolha da sua agenda e aos seus momentos marcantes, bem como à importância política da mesma, eu gostaria de retomar alguns tópicos por ele lançados durante estes dias e lidos na comunicação social quer nacional quer internacional.

Um bom comentário/síntese à visita Papal pode ser lido aqui. Outro interessante comentário sobre uma questão marginal (aparentemente) à visita e pontual aqui.
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16.4.07

As palavras dos outros

Pensei, e tinha vontade de escrever hoje sobre o Papa Bento XVI, no dia do seu 80º aniversário. Sobre o facto de eu o considerar um dos homens de maior relevo nos nossos dias, pela sua ousadia, clarividência, rigor e capacidade quer intelectual, quer política, quer espiritual. Pela profunda admiração que tenho pela sua visão e compreensão do mundo, sobretudo do nosso mundo ocidental, com as suas incongruências, inflexões e hesitações. Dizia eu que queria ter pensado e escrito um texto, mas ao olhar para o que se escreveu hoje nalguns blogues que visito regularmente e depois de ler este texto aqui escrito ao melhor estilo e inspiração do João Gonçalves, senti que nada poderia dizer mais. Tirou-me as palavras que gostaria de ter usado, só me resta assinar por baixo.

13.3.07

Sacramentum Caritatis

Na Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis (notícia aqui no Público, outra aqui na BBC, entre muitas), documento sobre o Sacramento da Eucaristia, é reafirmada a obrigatoriedade do celibato no clérigo, e reafirmada a exclusão da comunhão de católicos divorciados e casados de novo, católicos a viver em união de facto, nomeadamente casais homossexuais (valores não negociáveis, segundo Bento XVI). Este texto, embora não surpreenda nenhum católico, que finalmente (re)vê o já conhecido Cardeal Ratzinger, funcionará como um balde de água fria nos sectores católicos que esperam desde o fim do Concílio Vaticano II uma mudança gradual de algumas orientações de Roma no que diz respeito à moral privada dos católicos. Todo um sector que aguarda uma pequena abertura em relação ao celibato dos padres, uma flexibilidade em relação ao divórcio, contracepção, sabendo que assuntos como a ordenação das mulheres ou uniões de facto homossexuais ainda terão que esperar mais.

Este documento é muito importante no que tem de reafirmação e inflexibilidade no rumo da Igreja e deixará um amargo de boca em muitos sectores mais liberais que gostavam de sentir que, apesar de devagar, a Igreja se move. Bento XVI, inteligente teólogo, hábil político e defensor inequívoco da sua Igreja (no sentido lato) é, sem surpresas, reafirmo, intransigente nas polémicas questões da moral privada dos católicos que tanto os mantém afastados das Igrejas, e que tanta dissonância cria de cada vez que um Bispo ou um Padre ousa clara e abertamente afirmar a sua discordância em relação ao Papa. Não hão-de faltar polémicas em torno deste texto sobre a Eucaristia.

Ainda não li o texto todo disponível em Português aqui, mas, com tempo o farei.

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