“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
holehorror.at.gmail.com
Mostrar mensagens com a etiqueta Feminismo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Feminismo. Mostrar todas as mensagens

1.7.08

As Mulheres Fazem Política de Forma Diferente?

Tem-se perguntado “por aí” nestas últimas semanas se as mulheres têm uma maneira diferente de estar e de fazer política da dos homens. É a velha história de se as mulheres escrevem de forma diferente dos homens se gerem empresas de modo diferente dos homens etc, etc. Este item da agenda pensante do momento lembrou-me uma cena a que assisti há não muito tempo e que me pareceu interessante, bem como relevante para este caso.

Duas crianças, um rapaz de 7 anos e uma rapariga de 5 anos brincavam com um Action Man que tinha um enorme carro/habitação/quartel-general todo equipado para o conforto, para as imprescindíveis telecomunicações, para defesa, ataque, para camuflagem e para a sobrevivência em geral. O rapaz mexia mais nos gadjets do que no boneco propriamente dito; preparava a secretária para telecomunicar, as armas para defender e atacar, organizava os restantes equipamentos para que estivessem prontos para quando fossem necessários e dedicava-se com atenção a essas tarefas. A menina pegava no Action Man que estava vestido, talvez equipado fosse uma palavra mais correcta, e perguntava-lhe, com ar de quem sabe o que faz, se ele tinha feito cócó e se tinha limpo o rabo, isto perante o olhar atónito do miúdo. Depois disse que ele tinha que ir dormir e foi buscar a rede guardada num canto do veículo multi-funções, tentou desfazer a secretária, isto é a central de telecomunicações, para estender a rede e o pôr a dormir. O rapaz ficou parado, e depois de uma pausa para tentar perceber o que se passava, diz-nos de forma divertida mas paternal: “ela pensa que é a mãe dele!”

Esta cena não me sai da cabeça, mas creio que só posso tirar conclusões mais sérias e daí inferir algo de conclusivo para a forma de ambos os sexos fazerem política quando vir duas crianças, rapaz e rapariga a brincar com uma Barbie. É a peça que falta.

20.6.08

Um Post de Generalidades, mas

O tema não merece mais nem melhor. Manuela Ferreira Leite cometeu o pecado de ter enunciado a sua condição de mulher ao dizer que, cito de cor, As mulheres não pensam 24 horas na política, e que pensam noutras coisas. Caiu o Carmo e a Trindade, jornalistas, bloggers, analistas, comentadores, políticos da esquerda, políticos da direita têm-se detido nesta frase e encontrado mil razões para verem nela sinais de incompetência política, feminismo, oportunismo, falta de feminismo, eu sei lá! You name it, they saw it. Para mim a frase revela a mais óbvia das realidades, diria mesmo que é de uma banalidade total, e ao enunciá-la entrarei com gáudio no reino das generalidades: uma mulher, seja ela quem for, nunca pensa 24 horas na mesma coisa. Mesmo que queira, não consegue, porque não a deixam, porque ela não quer, sei lá: porque é assim, ponto. Há sempre um neto que nasce, uma empregada que telefona pois não percebeu o que era o jantar, a caixa de e-mail que nem queremos abrir, um filho que deita sangue pelo nariz, a reunião marcada para as 18 e 30 e as crianças que só podem estar no colégio até às 19 e o pai delas que não atende o telefone, a filha que hoje à noite vai sair e ainda não se sabe bem com quem, a mensalidade do sei-lá-o quê que esqueceu pagar, as calças do marido que já estão prontas na tinturaria há uns dias e ele que teima em se esquecer de ir buscar, a mãe que telefona pela enésima vez a perguntar se não nos esquecemos do aniversário da tia, a sogra que não consegue falar com o filho, o ex-marido que este mês ainda não pagou a pensão das crianças mas foi ao Brasil de férias, aquele fato lindo e que faz tanta falta será que se aguenta até aos saldos, o relatório que não se consegue começar pois o departamento x ainda não mandou os dados, o telemóvel que toca à noite com o(a) chefe a pedir informações para a reunião que vai ter de manhã... Poderia continuar, mas acho que não vale a pena.

Este acontecimento que se criou à volta da frase de MFL fez-me lembrar a reacção dos media franceses quando descobriram que Segolène Royale usava bikini e a fotografaram assim na praia. Então queriam que ela usasse o quê: um fato Chanel? Uma burka? Ela é mulher, e as mulheres vestem bikinis. Eu já vi fotografias dos políticos na praia e não me lembro de os media se deterem no tipo de fato de banho que eles escolhem calção ou sunga, no comprimento dos calções, surfista ou boxer, se são de licra justos ou de sarja largueirões... Escreve-se muito sobre a igualdade de tratamento, mas isso é pura ficção pois as mulheres ainda são tratadas de forma diferente, e isso vê-se no dia em que ousam lembrar a sua condição de mulher e lhes cai o mundo em cima da esquerda à direita: ou porque disse e não devia ter dito, ou porque não disse a coisa correcta da forma correcta.

E continuando com generalidades, pois entre o estereótipo do homem e o estereótipo da mulher, há toda uma interessante gama de cinzentos, poderíamos dizer coisas do género “as mulheres riscam os carros e não se importam, pois para elas, eles são meros objectos utilitários”, “as mulheres têm mais capacidade para ouvir os outros”, “as mulheres são mais sensíveis às questões sociais”. As mulheres dizem coisas destas, será que as mulheres políticas não o podem fazer? Que tipo de discriminação é essa? Voltando ao Caso MFL: o que poderia ter sido uma questão política pertinente sobre a oportunidade ou não da sua ausência e consequente silêncio na semana dos bloqueios, inquinou-se e transformou-se na espuma de uma banalidade e numa questão corriqueira de “MFL se aproveitar do facto de ser mulher”. E já agora: se alguma vez ela se aproveitou ou vier a aproveitar do facto de ser mulher, merece todo o meu respeito e só mostra que é uma mulher a sério e que deve ser levada a sério.

15.4.08

Estrogénio e Progesterona

Não me lembro de um acto, decisão, medida política de Zapatero de que tenha gostado. Mas de repente e sem pensar muito daria uma lista exaustiva de actos decisões, medidas, tomadas de posição, prioridades políticas, de que discordei. Tal como com o conteúdo político, não gosto do seu estilo, desse constante bicos de pés que se vê na vontade de estar sempre na crista da onda politicamente correcta tudo muito bem planeado pelos profissionais do marketing comunicacional político. Mas hoje – acreditando que estas nomeações não têm como único objectivo colocarem Zapatero num patamar mais alto do politicamente correcto – tenho que confessar que o admiro pela escolha de tantas ministras e muito particularmente pela ousadia de ter nomeado uma Ministra da Defesa grávida. Ver uma mulher grávida Ministra a passar revista às tropas é uma imagem carregada de simbolismo à qual, enquanto mulher, é difícil ficar indiferente.

Num mundo em que as mulheres políticas em cargos de maior responsabilidade tendem ainda a ter como modelo Margaret Thatcher e a ser, como tantas vezes se comenta, mais homens do que os homens, pela determinação, força e exigência, dá gosto ver uma mulher política no auge da sua feminilidade: redonda, com estrogénio e progesterona no seu máximo e com roupa feminina tal como a sua condição exige. Final de gravidez, parto, aleitamento, e a respectiva montanha russa hormonal, eis o que espera a Ministra da Defesa espanhola e, como se isso fosse incompatível com o exercício de qualquer cargo de responsabilidade, eis os medos e tabus (tão previsíveis, afinal) por trás das críticas que têm sido feitas a esta escolha de Zapatero. Se não, eu não percebi mesmo o que é que se critica com esta nomeação: a nomeada aparentemente ter competência e curriculum? Ser socialista? Ser Mulher? Estar grávida?

22.5.07

Da Identidade

“Noni had recovered her confidence only when it was too late. Life had passed her by and in those days things had to happen fast for a girl, or they didn’t happen at all.”
Kiran Desai, The Inheritance of Loss

Li, porque fui obrigada e não porque me apetecesse ou tivesse sentido algum impulso empático, Simone de Beauvoir e Benoite Groult, e fui conhecendo os movimentos feministas que tinham despontado em várias partes do mundo nomeadamente em Portugal apesar de nunca ter querido ler “As Três Marias”. Para além das verdades incontornáveis, sempre em número muito menor do que queriam fazer crer, todo o feminismo descrito nas obras lidas me parecia hostil, estranho, demagógico e por vezes de uma agressividade que eu, ainda a aprender a ser mulher, rejeitei. Nunca percebi, por exemplo, porque é que para usufruirmos de igualdade de oportunidades tínhamos de, por um lado ser hostis para com o mundo masculino, e por outro adoptar atitudes e comportamentos (e vestuário) tipicamente masculinos. No entanto o século passado ficou inegavelmente marcado na nossa sociedade ocidental pela grande participação das mulheres na vida pública e pela chegada das mulheres a lugares antes exclusivos dos homens, e muito disso se deve aos movimentos feministas.

No entanto onde se nota uma cada vez maior evolução nas mentalidades bem como na vida vivida por cada uma de nós (mulheres), é no facto de podermos ser sempre mulheres. Explico. Hoje ser mulher não é só aquele breve momento do auge da beleza física (bloom) que começa na pós adolescência quando a rapariga “entrava” para o mercado do casamento à procura de um bom marido, para que logo de seguida deixasse de ser simplesmente mulher para ser “a mulher de”, e terminava muitas vezes com a chegada da maternidade, passando a ser mãe e continuando a ser mulher de. A pouco e pouco a mulher diluía-se nos novos papeis em que outros eram protagonistas. Hoje, a mulher reclama a sua identidade independentemente do estado civil, da maternidade ou não, da carreira profissional ou não. Cada vez mais ela é ela própria. Hoje todos os dias são cada vez mais, dias de novas oportunidades, de novos desafios, de recomeços, e de escolhas, reclamando para nós os mesmos direitos de busca da identidade, de afirmação e de realização pessoal, que os homens têm usufruído ao longo dos tempos. Hoje, de certo modo, já não se joga tudo naqueles breves momentos do fim da adolescência.

Tenho escrito aqui no blogue notas com o título “Véu Islâmico”. Uso esse título porque dificilmente consigo olhar para o “véu islâmico” como um exercício de liberdade individual, mesmo nas sociedades ocidentais onde ele funciona como símbolo de pertença. Não consigo deixar de olhar para esse “véu islâmico” como um símbolo da anulação dessa identidade feminina, feita por sociedades hostis às mulheres e com leis que cerceiam o desenvolvimento da sua identidade e liberdade pois as consideram seres menores e inferiores.

Acerca de mim

temposevontades(at)gmail.com