“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
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26.5.10

Breve História de um Magalhães

Com o entusiasmo e urgência de quem quer uma caderneta de cromos do mundial, pede um Magalhães. Os argumentos contra são enumerados, são claros, são imbatíveis, são inflexíveis. Segue-se uma crise quase existencial que se ignora estoicamente. Um dia vem o argumento a favor, último e arrasador: a professora perguntou se já todos tínhamos o Magalhães porque mais tarde vamos usá-lo, e já todos (um todos que carrega o peso do mundo) têm, menos eu – dito com a raiva própria das grandes vítimas da injustiça. Semanas depois chega o Magalhães. Desfaz-se o pacote e liga-se o computador com o entusiasmo de sempre. Explora-se o seu potencial (tão limitado, não é?) e jogam-se os jogos, que fáceis demais, depressa se esgotam. Poucas semanas depois, menos do que as semanas que demora a esquecer a caderneta de cromos, o Magalhães dorme sono profundo num canto esquecido, quem sabe à espera que a professora o chame. Já passaram quase dois anos. Houve eleições, crise, mudança de prioridades, mudança de Ministra de Educação. A professora nunca mais falou do Magalhães, nunca o pediu, nunca o utilizou. Ainda bem.

30.4.10

Apesar de alguma dissidência, os portugueses gostam de teatrinho. Os brandos e amáveis costumes, sempre.


Aqui, notícias actuais da pedofilia; daquela de que é difícil falar. Daquela sobre a qual as opiniões não se fazem rápidas, nem os julgamentos definitivos. Daquela de que, maioritariamente não se sabe e que acontece do outro lado das portas fechadas. Daquela que deixa sempre os vizinhos incrédulos. Daquela de que ninguém pede perdão.

22.4.10

Uma Irritação

Ao passar os olhos pela página inicial do Público Online vi na secção “vídeos” um vídeo com o “O Escocês que detesta a Islândia”. Só de olhar pareceu-me uma coisa sem graça e banal, nada merecedora de qualquer tipo de atenção. Perguntei-me até se não haveria um vídeo mais apelativo para destaque. No entanto a curiosidade foi mais forte e fui espreitar o vídeo do dito escocês na levíssima esperança de encontrar algo que justificasse o dito destaque. São 19 segundos da mais pura banalidade, em que se ouve um homem com ar de hooligan e sotaque escocês gritar duas vezes “I Hate Iceland”. É tudo. Ao fim de quase uma semana de interrupção de ligações aéreas este é o vídeo em destaque no Público porque,


O que me irritou foi o facto de eu ter pensado que, mesmo que remotamente, pudesse haver algo de interessante ou até divertido no vídeo...

19.4.10

O Caos 3

Fotografia daqui

Um outro dia de críticas. Na Grã-Bretanha repete-se Dunquerque. E, de repente percebemos uma outra face da globalização. As rosas não saem do Quénia, as flores não chegam aos EUA, e em plena época de casamentos também não há diamantes para anéis de noivado. A fruta tropical e o mozzarella também ficam em terra. Apesar das ostras que deveriam vir da Islândia (que agora só produz e exporta com sucesso cinzas vulcânicas) sobra tempo para ler e passear no parque àqueles que foram ali, a correr, a uma reunião ou conferência e se viram obrigados a ficar por lá e, mais importante, a serem, por uma vez, viajantes. Como diz o popular Alain de Botton:



14.4.10

Os Estudos

Lembro-me, quando do caso Casa Pia, de ouvir psicólogos, psiquiatras e outros estudiosos desta condição humana que todos partilhamos explicarem que o perfil tipo do pedófilo era o de uma pessoa “normal”, com uma vida “normal” – incluindo a familiar, mas numa situação de proximidade da vítima. Depois falou-se do facto de os números – com base nos casos conhecidos pela justiça - apontarem para o facto de que os abusos sexuais terem lugar em casa e serem praticados por pessoas próximas das vítimas, (padrastos, pais, irmãos, tios, primos, vizinhos, etc). Agora que a Igreja assumiu os crimes de pedofilia do seu clero, e que se dispõe a abertamente condenar quem os comete, a deixar que a justiça seja feita acabando com a prática, profundamente injusta e pouco saudável do ponto de vista social e da própria instituição, de não-cooperação com a justiça e de encobrimento, a ânsia de definir o perfil do “pedófilo tipo” recomeçou.

Os anti-papistas de sempre depressa encontraram estudos que estabelecem a ligação entre a pedofilia e o celibato, e agora o Cardeal Bertone com idade e condição suficientes para conhecer as virtudes do silêncio (vulgo “estar calado”), menciona os estudos que ligam a pedofilia à homossexualidade. Confesso que ouvi o Cardeal e pareceu-me perceber um desprendimento estranho ao fazer esta afirmação, como se a homossexualidade não existisse no seio da Igreja Católica. Enfim. A virtude do silêncio é rara e preciosa e nós, cardeal Bertone incluído, somos meros humanos mortais (e pecadores para a Igreja), normalmente cheios de opiniões que tornam difícil, ou quase impossível, resistir à tentação de “dizer coisas” (*). As coisas são ditas e, sem surpresas, percebemos que a maioria do que é dito (vindo também de cardeais e clero) não tem ponta de interesse, e o que vale a pena ser ouvido (vindo também de cardeais ou do clero) se perca no ruído de irrelevâncias ou puras imbecilidades que fazem o grosso do que se diz.

Parece, também, que os estudos são como as sondagens. Encontramos sempre um que dá jeito citar e que serve os propósitos do argumento que previamente se estabeleceu como válido. Há estudos para tudo e que provam isso e aquilo bem como o seu contrário. Eu já não percebo se o pedófilo é tendencialmente uma pessoa “normal”, se é um celibatário ou se é um homossexual, e acredito que para uma vítima de repetidos abusos sexuais (seja da Casa Pia ou da Igreja Católica) a normalidade, o celibato ou a homossexualidade do seu abusador sejam factores sem nenhuma importância. Importante é que se faça justiça e, já agora, que se acalme a ânsia de apontar o dedo sob protecção de “estudos”, que não é mais do que uma faceta desta imperfeita e intolerante condição humana que partilhamos.

(*) É por ser difícil “estar calado” que existem blogues onde escrevemos, maioritariamente, as nossas irrelevâncias. A vantagem do blogue é que só lá (cá) entra quem quer ler essas ditas irrelevâncias. Outra vantagem é serem silenciosos e virtuais.

12.4.10

Paisagem Urbana

De repente deixamos de ver na cidade as mulheres, independentemente dos factores circunstanciais como serem altas ou baixas, gordas ou magras, velhas ou novas, a parecerem que vão, ou que acabam de vir, de lições de equitação e passamos a vê-las, tal como no ano passado, em cai-cai. Dantes eram os umbigos e barriga à mostra, agora são os cai-cai, a praga estética urbana dos dias quentes. Acho particularmente interessante aquela parte em que as mães – em cai-cai, claro, vão buscar os filhos à escola. Se os filhos forem jovens adolescentes ou usam cai-cai também ou, se forem do sexo masculino, terão as calças a cair com os boxers à vista e havaianas nos pés. Nunca percebi porque é que, com uns códigos de moda tão eclécticos como os actuais, nas ruas das nossas cidades estes códigos se transformam em dois ou três chavões “fashion” desprovidos de imaginação, e normalmente pindéricos, mas que todos, num ímpeto uniformizador bizarro, parecem ansiosos por adoptar.

24.3.10

Bingo!

Hoje fiz um telefonema a pedir assistência técnica. Depois de expor o meu problema, a senhora que me atendeu perguntou com o profissionalismo e segurança de quem sabe como resolver as questões e de quem não tem medo de palavras esdrúxulas: “quer que fáçamos a assistência em casa?”, reprimi o meu instinto de explicar os conjuntivos à senhora - estes fáçamos e estes póssamos, que ameaçam espalhar-se desapiedadamente, são mesmo duros de ouvir, e nem o corrector ortográfico gosta deles - e disse que sim. Com a acrescida segurança de quem repete vezes sem conta estas frases e por isso está em território familiar, ela conclui: “há-dem contactá-la para marcar o dia e a hora”. Claramente eu estava em território hostil, balbuciei um obrigada (nesta altura já não me passava pela cabeça explicar-lhe a conjugação do verbo haver), desliguei. Um momento depois pensei afinal na minha sorte: estatisticamente falando, deve ser raro ouvir estas duas preciosidades em menos de dez segundos.

11.3.10

Do "Bullying"

Entre as autoridades que “palitam os dentes” (e são a imagem da Autoridade no país), e as “comissões interdisciplinares”, o “bullying” entra para a agenda mediática. Por um lado uma velha tradição do: se apanhares, bate com mais força, aguenta, não faças queixinhas e aprende a ser homem (há também uma versão feminina mais insistente no “aguenta”) pois é assim que se forja o carácter; e por outro lado a nova postura proteccionistas dos pais de filhos hiper desejados e planeados, “ai Jesus, que fizeram mal ao meu menino” e que leva os ditos pais dos ditos filhos hiper desejados, planeados, e agora tiranos, à escola em tom de ameaça ao mínimo desagrado ou empurrão que aconteça à criança que é, de tanto ser desejada e caprichada, incapaz de gerir a contrariedade e que entra logo em “descompensação”. Uma coisa é certa: hoje ser escola é difícil: não há tempo para olhar para os alunos com a atenção merecida quer na sala de aula quer no recreio, onde ninguém vê com olhos de ver. Na sala de aula o professor tem pouca autoridade e muita burocracia; no recreio, onde depressa vêm à tona os comportamentos mais problemáticos há escassez de pessoal qualificado a tomar conta das crianças. Este “tomar conta” deveria pressupor um olhar atento, um detectar de padrões comportamentais diferentes, uma intervenção mais clara, firme e segura no caso de confirmação desses padrões de comportamentos violentos e abusivos. Na escola fecham-se os olhos, ninguém do lado dos adultos tem essa vontade de firmeza e segurança: todos temem as consequências – em burocracia e em contestação pelos pares e pelos pais - de “contrariar” os alunos, de denunciar violências, de impor uma disciplina firme, mas justa. Ninguém já deve saber o que isso é, pois os teóricos da pedagogia e da psicologia que é dada à força aos professores encontram sempre uma explicação e justificação desculpabilizantes para a violência de uns e de outros, fica de fora a vítima que vê desvalorizada uma queixa real. Venham então as comissões multidisciplinares, serão um bom pretexto para criar mais um organismo público: um “Observatório” para violência nas escolas. Se não fosse trágico, apetecia rir. O bullying é só mais uma face da enorme violência e indigência do quotidiano do mundo em que estamos, e em que também o respeito que o outro merece é secundarizado face a proveitos e satisfações mais imediatos.

8.3.10

Aquecimento Global

Onde andam este ano os passarinhos a chilrear e as flores a desabrochar?


3.3.10

Lady Chatterley

Diz-se aqui, a propósito do aniversário (octogésimo) da morte de D. H. Lawrence (a Serpente Emplumada, por exemplo, marcou a minha forma de ver e sentir o México) que "de qualquer modo, lady Chatterley, hoje, está no poder". Que ela está, está. Mas se é no poder eu já não sei - pensei com os meus botões ontem, logo depois de ler o post. Lembrei até a violência doméstica e no que ela “dá” em poder a todas as lady Chatterleys que eventualmente estejam ou sejam cada mulher. O Francisco José Viegas é um optimista, ou melhor, um ficcionista.

Ainda ontem, mas ao fim do dia, enchi o tanque do carro na Galp e paguei mostrando o meu cartão “Fast Woman” (um nome que poderia ser, neste nosso mundo acelerado, um ersatz de Lady Chatterley). Tenho destes cartões que esqueço de converter em bens - que muitas vezes não preciso, por isso ainda bem – e que até hoje só serviram (o da BP, não o da Galp) para comprar bilhetes para o Rock in Rio, (onde nunca fui, note-se). Voltando ao pagamento: perguntaram-se se queria comprar um chocolate que dava pontos extra para o cartão. Não obrigada. Ofereceram-me o jornal i, sim obrigada; e o senhor da caixa perguntou-me se queria a Happy. Não obrigada. Mas é oferta, insistiu. Oferta? Sim, para as senhoras que gastem acima de um determinado montante. Embora cabendo nas duas categorias, recusei novamente porque sei como é a Happy, sei que mesmo que a abra não a lerei, e tenho pouca vontade de trazer tralha para casa. Mas esta é a última e a senhora vai gostar, insistiu o senhor da caixa enquanto me passava a Happy para as mãos.


Cheguei a casa e olhei para a capa. Entre outros assuntos a abordar no interior da revista, são anunciados estes dois interessantes temas: “SEXO: Inquérito revela o que elas querem” e ao lado, “QUER SER INFIEL? Site propõe-se a arranjar-lhe um amante”. Pensei novamente na lady Chatterley de Francisco José Viegas e na ilusão de que ela, hoje, está no poder. Não está, a realidade é outra: tem muitas vezes mais a ver com trabalho árduo e pensões alimentares para filhos que nunca são pagas a horas, quando o são. Não se deixe enganar pelas Happys e Cosmopolitans que se publicam e que enchem de ideias chatterleyanas raparigas e mulheres da cidade e do subúrbio.

14.2.10

A Natureza das Coisas

O frio que se faz sentir pede duas coisas: ou passeios energéticos longe do cimento das cidades, daqueles que deixam a cara corada e a ponta do nariz brilhante, ou o conforto das brasas de uma lareira, entre livros, revistas e DVDs. Eu gosto sempre quando chove e faz frio no Carnaval. Podia até chover a cântaros e fazer um frio árctico que não me importava. Penso sempre que isso me pouparia o esforço de tentar não ver, ou o embaraço de ver, as múltiplas imagens dos chamados desfiles tradicionais (tradi... quê? eles sabem mesmo o que quer dizer a palavra tradição?) carnavalescos de inspiração brasileira e tropical e que inundam o Portugal da província de norte a sul para gáudio e orgulho dos “foliões” (só ouvir a palavra já faz mal, quanto mais vê-los) locais. Esses desfiles são verdadeiros atentados à natureza das coisas... mas que é isso perante a força da estupidez humana? A minha esperança acaba por ser, tantas vezes, vã e esmagada por essa força e lá tenho eu que arranjar maneira de não ver nem ouvir falar de desfiles de carnaval. Basta uma nesga de sol para saírem à rua: artificiais, feios e frios, sob o olhar de meia dúzia de “foliões” acompanhados por criançinhas pálidas e vestidas de poliéster que, agitando-se informemente, fingem alegria.

13.1.10

Dos Broncos

Nada pior do que programas de humor que não fazem rir, sorrir, ou mesmo abrir mais os olhos. Nada pior do que o insulto com capa de "humor". De tanto ver referências em diversos blogues, acabei por querer saber e fui ouvir isto na TSF. É verdadeiramente interessante. Revela a pequenez de quem – achando-se muito “à frente” e muito “esperto”, não percebe patavina do assunto que em primeiro lugar o leva a fazer essa coisa a que chama humor e que mais não é do que uma sequência gratuita, sem nexo (nem graça) de insultos e ofensas pessoais. São todos muito “fracturantes” para as causas efémeras e luzidias que a modernidade inventa. Recusam, no entanto, com a indignação e escândalo próprios da bronquice e ignorância, a abordagem de matérias realmente fracturantes e de difícil abordagem e discussão e que têm sido, ao longo dos tempos, expressão da diversidade e e das incoerências do comportamento humano. É sempre mais fácil (também aqui nada de novo) insultar o mensageiro do que pensar e debater a mensagem. Sempre passar por cima das coisas, tratar do brilho das superfícies e pensar o impacto (muito importante o “impacto”): é tão “tá-sse!” dizer (só dizer, nada de explicar) palavras como “pederastia” às 9h20m da manhã na TSF.
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8.1.10

Ouvi há pouco a constitucionalista Isabel Moreira falar em Avanço Civilizacional na RTPN. Este argumento (que parece estar a criar história) soa-me como revelador de novo-riquismo civilizacional, isso sim. A aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo é tão somente uma inevitabilidade (mais cedo ou mais tarde) dos tempos em que vivemos. Sinais dos tempos.

Entretanto a taxa de desemprego sobe: infelizmente mais um sinal dos tempos.

22.12.09

2009 e 2010

Passou um ano marcado pelas socráticas efabulações, conspirações, golpes e contra golpes. Todos os expedientes foram válidos para assegurar a sobrevivência política de José Sócrates. Esquemas, telefonemas, influências, anúncios de anúncios, favorecimentos de alguns marcaram este ano de duas eleições ainda mais do que os outros. A urgência era também outra. José Sócrates corria o risco de se ver sem o cargo de Primeiro-ministro. Um dia a História contará as histórias, contará como se deitava fogo à aldeia para depois poder gritar alto aos bombeiros para irem rápido apagá-lo e decidir a quem atribuir uns incentivos.

2009 não deixa saudades. 2010 não promete nada de melhor, por muito que os modernaços oráculos europeus tenham decretado oficialmente (ah soberba) o fim da recessão. Por cá irá ser mais do mesmo: para alem da dívida, o drama do desemprego a aumentar pois para a nossa recessão o fim não está à vista. O estilo José Sócrates agudizar-se-á. Descobriremos mais família e mais amigos, mas nunca saberemos nada. O PSD continuará enrolado em si próprio sem querer ver nem perceber o país, nem tão pouco valorizar a líder que tem. O eterno candidato ocupará, logo depois do grande líder, lugares de relevo na comunicação social para o povo ver e lembrar. Sofisticações das técnicas de marketing e comunicação que se especializam em fabricar nadas. Tristes perspectivas. Que sobrem bons filmes e bons livros.
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10.12.09

(...) Estamos todos, aliás (de passagem). É pena que a maior parte das pessoas morra sem perceber esta trivialidade.
Aqui
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25.11.09

Amanhecer 19

Outro Amanhecer. Este é de hoje. Afinal, que culpa tenho eu que o mundo seja um local bonito, e que o sol nasça e se ponha todos os dias?
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1.11.09

Ídolos de Nada

Sinto-me sempre um pouco constrangida quando vejo programas tipo Ídolos (SIC; hoje à noite) que geram ondas de entusiasmo e que lançam novos talentos a quem prometem um futuro radioso. De facto, revelam apenas a nossa pequenez. A pequenez mental e a pequenez do nosso mercado e da nossa capacidade de “aproveitar” algum real talento que venha a ser relevado. Portugal é assim: pequeno. E nos locais pequenos não cabem todos. Nem chega a ser má-vontade, é quase uma questão física: não há espaço para todos. Dizem que nos EUA e noutros países, nomeadamente em Espanha alguns, senão todos, dos 12 finalistas destes concursos têm uma carreira de sucesso assegurada, há exemplos de muitos que hoje são mundialmente conhecidos: Leona Lewis, David Bisbal ou Jennifer Hudson que até já conta com um Oscar. Aqui nada disso acontece: com excepção da Luciana Abreu, que de cantora passou a ser actriz, nomeadamente a Floribela, também foi (ainda é?) sex-symbol, namorada ou não de algum futebolista, e não-sei-que-mais, não me lembro (serei eu distraída?) de nenhum finalista, nem sequer de um vencedor desses concursos tipo Ídolos ou Operação Triunfo que tenha mesmo triunfado e construído uma carreira com alguma visibilidade e credibilidade, apesar de mostrarem talento. Os concursos podem fazer audiências, mas não fazem nem triunfos nem ídolos de coisa nenhuma. O seu objectivo é uma mentira que os milhares de jovens que acorrem aos castings não querem, ou não sabem, perceber.

Depois há sempre aquele momento penoso em que tantos concorrentes fazem figura de parvos (começam cedo) cantando sem saberem o que isso é. Será que a vontade de ter esses 15 minutos (neste caso segundos) de fama se sobrepõe a qualquer tipo de bom senso e a um julgamento minimamente racional da parte dos concorrentes e de quem os incentiva a ir “tentar a sorte”?
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7.10.09

Ver Portugal

Há muito que tento não olhar para tentar conseguir nada ver. Este retrato (que refere FJV aqui), é o retrato de um Portugal desleixado, inculto, incapaz de preservar o seu património físico e da memória histórica. O Alentejo tem a sorte de uma paisagem limpa, onde se vê o horizonte. Que retrato faríamos se caminhássemos mais para norte? Por exemplo para o litoral norte, o Alto Minho, que conheço bem, os olhos já não se perdem na paisagem; esbarram sempre num ou noutro mamarracho que o excesso de construção e o gosto discutível impuseram paulatinamente e de forma inexorável impuseram. Na ânsia de modernização e de melhoria de nível de vida das populações, deitou-se fora o menino com a água do banho. As casas de azulejos por fora, ou de tectos múltiplos e sobrepostos, construídas em qualquer local e as churrascarias à beira da estrada surgiram na altura mascaradas de sucesso mostrando quão depressa o dinheiro tinha sido ganho, não são hoje mais do que uma evidência desse Portugal em desleixo, da falta de cultura, de brio e da óbvia decadência dessa ilusão da riqueza. As cidades e as grandes vilas da província prolongam-se hoje ao longo das estradas nacionais sem que nos apercebamos onde começa uma e acaba a outra e sem nunca termos um pedaço limpo de horizonte para respirar, para ver Portugal.

12.8.09

Leitura de Verão


Mão amiga fez-me chegar, via Amazon, este simpático livro que olha para o cérebro feminino e mostra o quão diferente ele é do masculino. Nada que nós mulheres, que o somos porque temos um corpo de mulher, ao longo dos tempos não tivéssemos vindo a perceber. Mas até esta intuição, que não precisou de grandes estudos científicos, este gut feeling é explicado,

Gut feelings are not just free-floating emotional states but actual physical sensations that convey meaning to certain areas in the brain. (…). The areas of the brain that track gut feelings are larger and more sensitive in the female brain, according to brain scan studies. Therefore the relationship between a woman’s gut feelings and her intuitive hunches is grounded in biology. (Segue-se uma descrição científica sobre os circuitos e a química cerebrais que me abstenho de transcrever).

Assim, e de uma vez por todas, arrumamos com o feminismo dominante dos anos 70 que pretendia unisexizar tudo e incutir às mulheres a ideia de que elas eram iguais aos homens, incitando-as a fazerem o que os homens faziam segundo as regras por eles estabelecidas ao longo de milénios. Nunca conseguiram estabelecer a diferença entre igualdade tout court e igualdade de oportunidades e direitos. Foi pena. Perdeu-se muito tempo e a sociedade não ficou melhor por isso.

The biological reality, however, is that there is no unisex brain. The fear of discrimination based on differences runs deep, and for many years assumptions about sex differences went scientifically unexamined for fear that women wouldn’t be able to claim equality with men. But pretending that women and men are the same , while doing a disservice to both men and women, ultimately hurts women. (…) Assuming the male norm also means undervaluing the powerful, sex-specific strengths and talents of the female brain.

Estes livros científicos pensados para o grande público e convertidos em best-sellers, feito em que os norte-americanos são exímios, conseguem ser boa leitura. Porque sérios e credíveis para percebermos que não lidamos com videntes, curiosos ou gurus espirituais de uma qualquer escola de auto-ajuda, e porque permitem uma leitura apelativa. A obra é pensada para o leitor: desde a estrutura do livro aos exemplos dados, tudo se lê facilmente, com interesse e bem. Há momentos especialmente engraçados (o capítulo sobre a adolescência é uma mina deles) e o capítulo “The Mature Female Brain” é particularmente interessante. Podem-se, nestes capítulos ler coisas como:

Every brain begins as a female brain (...) it only becomes male eight weeks after conception when excess testosterone shrinks the communication centre, reduces the hearing cortex and makes the part of the brain that processes sex twice as large.

Ou

Connecting through talking activates the pleasure centers in a girl’s brain. Sharing secrets that have romantic and sexual implications activates those centers even more. We’re not talking about a small amount of pleasure. This is huge. It’s a major dopamine and oxytocin rush, which is the biggest, fattest neurological reward you can get outside an orgasm. (…) It keeps them motivated to seek these intimate connections. What they don’t know is that this is their own special girl reality. Most boys don’t share this intense desire for verbal connection. (…) Girls who expect their boyfriends to chat with them the way their girlfriends do are in for a big surprise. (…)The testicular surges of testosterone marinate the boys’ brains. Testosterone has been shown to decrease talking (…). In fact, sexual pursuit and body parts become pretty much obsessions.

Ou

A menopausal woman becomes less worried in pleasing others and now wants to please herself. This change (…) is triggered by a new biological reality based in the female brain as it makes it’s last big hormonal change of life. (…) She’s less interested in the nuances of emotions; she is less concerned about keeping the peace; and she is getting less of a dopamine rush from the things she did before, even talking with her friends.

Estes são alguns excertos, uma pequeníssima amostra deste livro interessante sério e de fácil leitura. Registo, no entanto, as sempre presentes intenções pedagógicas e a pontinha moralista tão características destas obras norte-americanas. Mais uma tentativa – entre tantas já feitas ao longo dos séculos (a psicanálise, por exemplo a que tantas mulheres recorreram sabe Deus porquê) com ou sem base sólida científica - de melhorar o relacionamento entre homens e mulheres (em saudável monogamia, claro) através do conhecimento científico e aprofundado do cérebro feminino e das suas diferenças biológicas e químicas em relação ao cérebro masculino. Este conhecimento permitiria quer à mulher quer ao homem, uma maior compreensão do cérebro feminino ao longo dos anos que deveria ser usado para melhorar os relacionamentos. Talvez assim, homens e mulheres juntos, consigam finalmente, mais depressa e melhor serem felizes para sempre. Nunca se sabe...
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