holehorror.at.gmail.com
24.5.10
La Chartreuse de Parme
25.2.10
Jane Austen
4.2.10
Perdido e Não Achado

4.1.10

20.12.09
Do Frio

Nikita permanecia imóvel desde que se sentara, coberto com a esteira, atrás do trenó. Como toda a gente que convive com a natureza e conhece a miséria, era paciente e capaz de esperar horas a fio, ou mesmo dias, sem se inquietar ou irritar. Tinha ouvido o patrão a chamá-lo, mas não respondeu – porque não se queria mexer nem falar. Embora ainda guardasse algum calor do chá que bebeu e se tivesse esforçado muito a andar na neve funda, sabia que esse calor não duraria para muito mais tempo e que já não teria forças para se aquecer andando e mexendo-se (...). Por todos os indícios passou-he pela cabeça que poderia morrer essa noite, mas a ideia não lhe pareceu especialmente desagradável nem assustadora. Não era desagradável porque a vida de Nikita, ao invés de ser uma festa permanente era um calvário de trabalho constante de que já começava a cansar-se. E não era muito assustadora porque , alem dos patrões como Vassili Andreitch, que servia neste mundo, se sentia dependente do patrão principal, o que o mandara para esta vida; e sabia que, mesmo depois de morrer, ficaria sob a alçada desse patrão, um patrão que não o ofenderia (...).
Lev Tolstói, O Diabo e Outros Contos, O Patrão e o Moço de Estrebaria.
Creio que esta colectânea de Contos de Lev Tolstoi foi, na minha juventude, a introdução à literatura russa. A partir daí fui lendo (e nalguns casos, relendo) ao longo dos anos Tchecov, Dostoievsky, e mais recentemente Pushkin, entre outros. Quando recentemente comprei esta colectânea procurava relembrar como eram estes contos, o que os diferenciava (tudo, mas isso não é para agora) dos de Tchecov sempre presentes porque os leio e releio com muita frequência, mas procurava também, percebi isso depois de ler, reencontrar a emoção que tinha sentido ao ler este conto O Patrão e o Moço de Estrebaria que nunca esqueci. O meu primeiro contacto literário, e não só, com o frio da Rússia, mas também a imensidão e a neve, a noite, a morte, a facilidade com que se dispunha da vida de outro (um criado), o álcool, a ambição, a crueldade da natureza que não se adapta ao desejo e à pressa do homem. Essa emoção, esse sentido trágico do conto está totalmente intacto na leitura de hoje como na leitura de há tantos anos. Impossível lê-lo sem sentir frio. Como sempre me lembrei deste conto (dos outros lembrava vagamente) como um dos contos de Tolstói, a surpresa quanto ao desenrolar da narrativa era irrelevante no fazer do trágico, porque mesmo numa primeira leitura esse “final” vai-se construindo e adivinhando ao longo da leitura, sobretudo através do olhar de Nikita (moço de estrebaria) que, ao contrario do Patrão que tem pressa em chegar, é um observador do desenrolar dos acontecimentos: sem ímpetos, com resignação e sem pressa. E depois, como diz também Nikita, em relação ao final , na última frase do conto: “Todos nós o saberemos, não vai tardar muito”.
19.10.09
Em Três Páginas

Alexandr Sergeyevitch Pushkin, The Complete Prose Tales. The Moor of Peter the Great.
Com uma intensidade notável, Pushkin conta em três páginas o início de uma absorvente e apaixonada história de amor, o seu auge e o seu fim. Nada fica por dizer sobre o caso amoroso, sobre a surpresa da atracção, a intensidade da paixão, sobre a entrega cega, as contradições do amor, sobre o ciúme, o medo e o afastamento. A pequena novela prossegue na Rússia – começou em Paris - e Pushkin (de quem já falei neste blogue a propósito dessa obra-prima que é “A Dama de Espadas”) mais uma vez mostra ser um maestro na criação de personagens, na sua descrição de ambientes de salão, nos detalhes. É um desenhador minucioso e atento das suas personagens e nada lhe escapa nesse fazer, e nessa construção de uma intriga. Não se encontra em Pushkin a forte intensidade dramática de outros seus conterrâneos (que não contemporâneos), mas os contos /novelas têm sempre uma tensão que advém da complexidade das personagens construídas com essa delicadeza e minúcia do subtil. São histórias que se lêem com deleite, mas também com a alguma frustração pois ficam suspensas: Pushkin não terminou muitas delas, como é o caso da história The Moor of Peter The Great. Esta colectânea é feita de novelas, quase todas inacabadas (infelizmente) e de alguns contos. São uma outra face da Literatura Russa que normalmente conhecemos e é mais citada.
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6.7.09
A Barca do Inferno
José Pacheco Pereira, que por acaso tem um programa novo no horário nobre de Domingo à noite na SICN, fez o favor (e deu-se ao trabalho) de simplificar a tarefa de escolha de insultos e vocabulário vernáculo ao publicar uma interessante compilação de insultos dos tempos modernos que lhe são dirigidos, e que podem bem ser usados pelo diabo. Só podem ser saudades de Gil Vicente.
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24.6.09
Aprendendo com Tolstói (*)
Lev Tolstói, Guerra e Paz
(Título roubado daqui)
23.6.09
Aprendendo com Tolstói 2 (*)
(*) Título roubado aqui.
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Aprendendo com Tolstói (*)
Lev Tolstói, Guerra e Paz
(*) título roubado aqui.
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21.6.09
Guerra e Paz 5
Desta forma sarou a ferida de Natasha. Pensava que a vida tinha acabado, mas, de repente, o amor pela mãe mostrou-lhe que a essência da sua vida – o amor – ainda estava viva. Voltou a despertar o amor, despertou a vida. Os últimos dias (...) tinham ligado Natasha à princesa Mária. A nova desgraça aproximou-as ainda mais.
(...)
Falavam sobretudo dos seus passados longínquos. A princesa Mária contava coisas da sua infância, da mãe, do pai, dos seus sonhos; e Natasha, que dantes, com uma incompreensão tranquila não queria saber daquela existência devota e submissa da princesa Mária, nem daquela poesia do auto-sacrificio crsitão, agora, (...) começou também a amar o passado da princesa e a compreender aquela faceta da vida que antes lhe era inacessível. Não pensava aplicar à sua alma a submissão e o auto-sacrifício, porque estava habituada a procurar outras alegrias, mas compreendia e começava a amar na outra as virtudes que dantes não compreendia. Para a princesa Mária, quando ouvia Natasha contar a sua infância e a sua primeira juventude, também se revelava um lado da vida que dantes não entendia: a fé na vida, o prazer da vida.
Lev Tolstói, Guerra e Paz
Natasha e a princesa Mária são as duas mais importantes personagens femininas de Guerra e Paz. Natasha, pelo seu amor à vida, entusiasmo, espanto, pela sua entrega, pelo seu olhar que brilha, é uma personagem irresistível de quem é impossível não gostar. Vêmo-la crescer e tornar-se uma mulher, seguimos o seu percurso talhado de momentos de prazer e felicidade familiar, de brilho nos círculos aristocráticos de Moscovo e São Petersburgo, e de momentos de decisão, a ânsia da felicidade, o prazer dos pequenos momentos, o percurso de dor, a perda de saúde, o renascimento tal como o que se refere o início deste excerto e um renascimento que lhe permite aceitar o mundo com o olhar mais sábio e ir trilhando finalmente o seu caminho que é o seu. A princesa Mária pertencente a uma das melhores famílias e socialmente acima de Natasha, representa o contrário: a rapariga submissa, inteiramente dedicada ao pai, um velho excentrico e ateu que despreza a sua fé e não reconhece o valor nem da sua inteligência nem da sua generosidade. Mária, ao contrário de Natasha, não teve uma infância e juventude alegre e feliz e uma casa sempre cheia de família e amigos, por isso dedicava-se à oração e à caridade. Muitas vezes, na sua solidão, se perguntava se encontraria um homem com quem se casasse e pudesse constituir uma família.
As mulheres não pertencem ao “mundo da guerra”, mas a guerra, nas suas múltiplas faces, acaba por entrar no mundo destas duas mulheres expondo-as ao sofrimento e modificando para sempre quer as suas vidas quer as suas almas. Natasha recolhe-se em si, para dentro; a princesa Mária torna-se autónoma e abre-se ao mundo, para fora.
O romance é um hino à sempre espantosa manifestação da natureza humana na plenitude: fraquezas e riquezas, e nesse exercício de olhar e escrutínio, percebemos, como o exemplo destas duas mulheres nos mostra, que as circunstâncias que num primeiro momento parecem afastar e antagonizá-las, acaba por uni-las num percurso paralelo de sofrimento, de dor e de transformação. O entendimento e a sólida amizade que se forja, toma assim uma dimensão que está além da pertença social, do entendimento, da personalidade ou da opinião. Começa no sentir e estende-se à dimensão espiritual.
13.6.09
Guerra e Paz 4
Só agora Pierre percebia toda a força da capacidade da sobrevivência humana e a força salvadora, dada ao homem, da transferência da atenção, à semelhança daquela válvula de segurança nas máquinas a vapor que permite a descarga do excesso de vapor mal a sua densidade ultrapassa determinada medida. (...)
(...)Aquilo que dantes o atormentava, aquilo que procurava constantemente – o objectivo da vida – já não existia para ele. (...) E era esta inexistência (...) que lhe dava aquela consciência plena e feliz de liberdade que, nesses dias, constituía a sua felicidade.
Agora não podia ter objectivo porque tinha fé: não uma fé numas quaisquer regras, ou palavras ou ideias, mas a fé num Deus vivo, constantemente sentido. Dantes procurava-O nos objectivos que se colocava. A sua procura de objectivo era tão só a procura de Deus (...).
Lev Tolstói, Guerra e Paz
A busca da felicidade tem muitas caras e toma muitas formas. Pierre, talvez a personagem central de Guerra e Paz, vive com um pé no mundo da Paz: o mundo urbano da sociedade aristocrática que vive em luxo e conforto; e o outro pé no mundo da guerra, sobretudo na altura da batalha de Borodino e na ocupação de Moscovo: o mundo dos homens que estão nos diferentes ramos das forças armadas e que fazem a guerra defendendo o seu país. Ele começa por ser uma personagem intrigante e estranha com dificuldade em se afirmar no mundo em que, de repente, se vê pertencer. Teve o privilégio de uma esmerada e completa educação no ocidente (França sobretudo), mas havia sempre algo que lhe escapava, que lhe faltava e procurava incessantemente aquilo a que chamava o objectivo da vida, ou felicidade pois parecem ambos, neste caso funcionar como sinónimos. Tentou várias formas e escolheu várias caras, mas via sempre a felicidade, mais cedo ou mais tarde, escapar-lhe de cada vez que sentia, com alguma ingenuidade – própria das “boas pessoas” - que a conseguiria aprisionar. Tomou decisões fez escolhas, mudou de rumo, mas tudo parecia em vão, uma procura estéril dessa ilusão que é a felicidade que se “encontra” nisto ou naquilo, ou na descoberta do objectivo da vida nesta ou naquela ideologia e teoria.. Como todas as personagens deste romance, Pierre vive uma vida peculiar, cresce interiormente, sofre, adapta-se às circunstâncias, molda-se e descobre-se. Nestes breves excertos do romance tirados de capítulos diferentes e “colados” de uma forma que tento que faça um todo tão coerente quanto possível (um só excerto parecia-me demasiado redutor para personagem tão complexa), percebe-se que Pierre um dia é feliz: quando descobre que existe um limite ao sofrimento que se suporta, que a felicidade nunca é absoluta e que – mesmo em cativeiro – nunca há privação total da liberdade. Talvez mais importante, e num segundo momento, ele percebe que não precisa já não procura o objectivo da vida, em regras, palavras ou ideias, pois tem fé num Deus vivo e que é sempre sentido.
Atrevo-me a dizer que Pierre concordaria com o João Gonçalves: toda a felicidade, a não ser a dos tolos, pressupõe amargura, solidão e sofrimento.
7.6.09
Guerra e Paz 3
Lev Tolstói, Guerra e Paz
Platon Karatáev é uma personagem menor, mas com grande valor simbólico num romance onde abundam personagens da aristocracia culta que de formas diferentes procuram encontrar o sentido da vida e um objectivo que as faça agir. Karatáev é um camponês inculto, mas dotado de uma sensibilidade existencial muito peculiar. Ele, tal como o excerto acima nos diz, existe em ligação com o mundo, uma partícula na existência que ele sente e sabe, não deixando muito espaço ao cultivo do ego, estados de alma ou a problemas existenciais relacionados com o sentido da vida ou os objectivos das opções que se tomam e que caracterizam na obra as personagens principais. Ele existe como contraponto a essas personagens e é capaz de seduzir quelquer um pela simplicidade e harmonia do seu ser e viver. Como parte integrante de um universo e de uma existência que o transcende, mas que ele sente ternamente na vida que vive e que vê ser vivida, ao seu redor pelos homens, cães, árvores ou flores, Karatáev não questiona o que lhe acontece, não combate o seu fado - pelo contrário entrega-se, sem ressentimentos nem questionamentos e com uma simplicidade e aceitação tão naturais quanto desarmantes que, nesta sua forma de estar perante o mundo e o momento presente, ele acaba por transmitir aos que o rodeiam paz e ternura em momentos de dor e de aflição. Há nele uma entrega à vida, e consequentemente à morte, que espanta quem o rodeia, no seio dos quais está Pierre, que será fortemente marcado por este homem camponês e iletrado, mas dono de uma sabedoria e liberdade imensas.
O meu conhecimento de filosofia é infelizmente (e tal como o de tantas outras matérias) muito limitado, mas sei reconhecer neste excerto matéria que nos remete, pelo menos, para questões filosóficas antigas, sobre as quais não sou capaz de dissertar. Ouso, no entanto, algumas deixas; mais uma vez o Platonismo e o Nominalismo e Realismo que na Idade Média ocuparam tantos filósofos e teólogos.
31.5.09
Guerra e Paz 2
(...)
Naquelas horas de solidão, sofrimento e delírio depois do ferimento, quanto mais pensava no princípio novo do amor eterno que se lhe revelava, mais renegava, sem se dar conta, a vida terrena. (...) e com mais perfeição eliminava a barreira terrível que, sem amor, se ergue entre a vida e a morte.
25.5.09
Guerra e Paz
Ouvido o caso, Kutúsov deu um estalido com os lábios e abanou a cabeça.
Para o fogão... lume com isso! E, meu caro, vou dizer-te de uma vez por todas: assuntos desses, deitá-los todos ao fogo. Que eles ceifem as sementeiras e queimem lenha à vontade. Eu não dou ordens para isso, nem o autorizo, mas também não posso puni-lo. Sem isso é impossível. Para cortar lenha, há sempre lascam que saltam. – Olhou mais uma vez para o papel. – Oh, a minúcia alemã! – disse, abanando a cabeça.
Lev Tolstói, Guerra e Paz
Kutúsov é, neste romance, apresentado como uma personagem fascinante e contraditória, tanto dado a algumas mundanidades e a pequenas vaidades e confortos, como senhor de uma esperteza e sabedoria profundas feitas da guerra, de negociações e da observação da natureza humana. Na sua velhice tem o hábito de se deixar adormecer nas importantes reuniões, nomeadamente quando da definição de estratégias para as batalhas, em que os mais jovens oficiais entusiasmados, cheios de energia e patriotismo e motivados por uma ambição de recompensas por mérito, tomam a palavra e mostram bons planos para acções. Kutusóv sabe que há uma força, uma inércia própria da actividade bélica que está para além de discursos inflamados e que assenta sobretudo na dinâmica própria da guerra e consequente esgotamento dessa dinâmica, da capacidade e do espírito bélico. A sua política de retirar, deixando o inimigo (os Franceses) avançar, expondo-os – a seu tempo - às suas próprias (franceses) fraquezas e limitações, foi amplamente contestada por muitas chefias militares, pois sem batalhas as medalhas de mérito e as promoções são mais difíceis de obter, sem batalhas o povo não sente que se lute pela pátria, sem batalhas não se expõe o orgulho de um povo, de um regimento. No entanto Kutúsov sabia que retirando e esperando se evitariam batalhas desnecessárias e sangrentas; Borodino foi a ilustração de uma batalha enorme em que houve grandes perdas e grande derramamento de sangue, sem claro vencedor e vencido, apesar de Kutúsov ter sentido que aí Napoleão começou o seu fim. Sabia que a seu tempo se conseguiria de forma eficaz expulsar um inimigo que inevitavelmente chegará ao esgotamento e ficará sem força. Não conseguiu contenção total, pois era difícil travar totalmente o movimento das tropas russas e de alguns grupos mais ousados que se envolveram em pequenas acções, mas o grosso do exército russo retirou evitando grandes banhos de sangue e deixando Moscovo cair nas mãos inimigas. Mas, a Rússia não era Moscovo, como Kutúsov bem sabia e Napoleão cedo percebeu e cedo retirou saindo da Rússia com um exército desfeito e desmoralizado.
Kutúsov na sua velhice e na sua sabedoria, sabia também o preço que há a pagar para se fazer e manter uma guerra. Não só um preço contabilizado em homens que se mantêm ou que se perdem, em bens destruídos e saqueados, em cidades e campos incendiados, em dinheiro, em provisões e material, mas também um preço moral. Que se as regras devem existir, nem sempre se podem cumprir. Ele sabe, por exemplo e como o excerto transcrito mostra, que sem pilhagens não há soldados, sem soldados não se faz a guerra de quem quer, de quem tem e de quem pode.
24.2.09
The Private Patient

Like every investigation, this one would leave him with memories, people who would, without any particular wish on his part, establish themselves as silent presences in his mind and thoughts for years but who could be brought to life by a place, a stranger’s face, a voice. He had no wish regularly to relive the past but these brief visitations left him curious to know why particular people where lodge in his memory and what their lives had become. They were seldom the most important of the investigations and he thought he knew which people from the past week would remain in memory.
P. D. James, The Private Patient
Creio que posso afirmar que os romances de P. D. James são praticamente os únicos policiais que hoje em dia leio e aguardo sempre com impaciência que saia mais um. É difícil ser indiferente ao misterioso poeta e inspector Adam Dalgliesh e à sua equipa de colaboradores. P.D. James desenha magnificamente todas as personagens dos seus romances, todas elas são ricas e cheias de vida, e nem as suas perversões ou impulsos mais negros nos são poupados, o que dificulta a tarefa de perceber quem é o criminoso do crime investigado. No entanto James põe especial empenho e cuidado, diria mesmo carinho, nas personagens que ao longo das investigações - romances - nos acompanham sempre, a equipa de investigadores. Sem nos darmos conta nós, fieis leitores, ficamos subtilmente envolvidos nas suas aspirações, dúvidas, memórias e medos, tecendo-se uma estranha teia, porque nunca óbvia, de romance em romance, de implícita cumplicidade. Tudo feito com uma elegância e objectividade ímpar. Os seus romances, na medida do possível, devem ser lidos por ordem cronológica para que este elo frágil e subtil, mas presente ao fim dos tempos não se perca.
P. D. James, para mim, superou-se em Devices and Desires (que belo título), e pensei que dificilmente manteria o mesmo nível. Enganei-me redondamente. Para encanto de todos continua a escrever autênticos romances que, por acaso, são policiais. A sua escrita rica, mas precisa e elegante, os seus retratos psicológicos, o seu instinto para a intriga e a sua capacidade para criar momentos de suspense e terror são únicos, e mantêm-nos interessados e atentos da primeira à última linha. The Private Patient é disso o mais recente exemplo. Agora já estou à espera do próximo romance.
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21.1.09
Do Engano 2
J. M. Coetzee, Diary of a Bad Year
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29.12.08
A Trilogia do Cairo
Voltando à lista das escolhas de livros da Ípsilon. Não li nem metade dos livros referenciados, embora esteja a ler um e já estejam dois na calha de leituras próximas, mas apesar desta confissão fico espantada por ter visto a “Trilogia do Cairo” de Naguib Mahfouz em décima oitava posição ora, para mim, esta obra mereceria um lugar de topo numa lista dos melhores romances do século XX. Pergunto-me quem é que a terá lido mesmo e que critérios usam para classificar as obras. Bem sei que se trata de um romance já “velho”, isto é, dos finais dos anos cinquenta do século passado e que nunca mereceu nenhum tipo de curiosidade ou entusiasmo português apesar do Nobel atribuído ao autor em 1988 e das excelentes críticas internacionais, mas finalmente é traduzido e editado em Portugal e é recebido com indiferença reverencial, (só assim se explica o lugar na lista) mais do que com aplauso e gosto. A Triologia do Cairo, que li faz muito tempo numa tradução em Inglês, não corresponde aos cânones das obras modernas pois é daqueles romances inteligentes e de grande fôlego, uma enorme saga familiar que se estende por várias décadas que nos remete para escritores clássicos tais como Dickens, Tolstoi ou Flaubert e não para autores contemporâneos nem tão pouco para romances abstractos e “sem história”. É uma obra riquíssima, com histórias – aliás várias histórias dentro da história – e muita História, que retrata uma família, uma cidade, um país em constante mudança política, e os seus costumes, religião, modos de vida e desejos das personagens ao longo desses anos. Tem uma grande panóplia de personagens riquíssimas e psicologicamente densas, que agem numa teia às vezes mais visível do que outras e um pathos muito próprio. É uma obra muito gratificante e que dá um prazer imenso ler, desafiando e desaquietando o leitor, sobretudo o leitor ocidental, mas de uma grande sensibilidade e momentos de verdadeiro lirismo.
Confesso a minha perplexidade perante estas listas que se subjugam a critérios de “moda” e “conveniência” incompreensíveis para leigos que gostam de ler e de bons romances.
7.12.08
The Enchantress of Florence

Demorei mais tempo do que gostaria a ler o livro. Rushdie escreve bem como sempre, uma escrita texturada que enche o livro de frases belíssimas e imponentes. Este é mais outro romance rico e denso: pelas personagens, pelos ambientes, pelas histórias, pela história, pelas geografias, pelos mundos, pelas intrigas, pela linguagem, pelos simbolos, pelas evocações. O multiculturalismo em versão literária. No entanto e por vezes, o romance cansava-me, tal o turbilhão de nomes complicados, de locais impronunciáveis, de gentes, já não é a primeira vez que isso acontece (‘The Ground Beneath her Feet, por exemplo) de uma forma que não acontece com outros romances igualmente complexos e densos como “Midnight’s Children” e “Shalimar the Clown”, e chego à conclusão que o Salman Rushdie que mais me prende e agarra é o que é autobiográfico. Ele escreve sobre Cachemira e Bombaím - as suas memórias, mesmo que ficcionadas, dessas terras - de uma forma diferente da que escreve sobre todos os outros locais. As personagens que ele molda são também diferentes, mais doces e rudes e menos elaboradas e intelectuais nos romances mais autobiográficos. A intensidade é diferente, a poesia, o sentir, a delicadeza, a nobreza, a luta, o confronto, são diferentes; são menos intelectuais, menos retóricos. É como se escrevesse uns romances com a cabeça e os outros com a cabeça mas também com os sentidos, a nostalgia, a memória, como se saíssem de dentro dele e não apenas como se fossem construções. Para mim, este é mais um bom romance ao contrário dos outros que são excelentes romances.
27.11.08
Ver os Filmes dos Livros
Há casos interessantes de livros que dão filmes. Alguns criam sucesso próprio, outros não. Uns conseguem ser uma peça que vale só por si, outros não e nunca conseguem ganhar vida “própria” e mérito “próprio”. Não sei qual é o segredo, e se todos soubessem todos fariam belas peças de arte. Há duas situação: a primeira é a de tentar olhar para o filme como uma peça isolada sem muita comparação com o livro. Lembro-me de como gostei de ler “O Nome da Rosa” de Umberto Eco (um best-seller dos anos 80) e de como o filme me desiludiu, uma vez que não consegue transportar toda a riqueza do romance. Revi-o passado uns anos e tentei não o colar ao romance, tentei pensá-lo como um filme autónomo sem referência a nada e apercebi-me que não era assim tão mau. O segundo caso é o de de seguir à letra o romance o que leva muitas vezes a que se faça uma série e não um simples filme. Foi assim em “The Jewel in the Crown” uma belíssima série (1984) de uma tetralogia subestimada "Raj Quartet" de Paul Scott. Ambos romance(s) e série de altíssima qualidade. Foi assim com "The Lord of the Rings"de Tolkien também cujos filmes de Peter Jackson ganharamn Oscares.
Mas nos últimos anos temos assistido a um fenómeno interessante: fazer um filme de um romance que entretanto já deu origem a uma série de grande sucesso e qualidade. Tudo fica ainda mais complicado: há duas referências boas e aclamadas o terceiro desafio é, por isso, muito ousado e há que o ser na concretização do projecto mostrando-nos algo de novo. Assim aconteceu com o grande clássico “Pride and Predjudice” de Jane Austen cuja série de 1995 fez enorme sucesso e que posteriormente deu origem a um filme de 2005 de Joe Wright que, confesso, conseguiu surpreender. Não concordando com todas as suas opções e percebendo-o qui e ali longe do romance, reconheço que o filme vive por si, a produção tem qualidade e mérito, as opções funcionaram o ritmo prende e reconheço que foi uma aposta ganha. “Brideshead Revisited (The Sacred and Profane Memories of Captain Charles Ryder)” é outro exemplo, e ainda melhor, desta vontade arrojada de fazer sobre o que já existe e que é reconhecido como brilhante: um romance conhecido e valorizado de Evelyn Waugh que dá origem a uma das melhores séries televisivas de sempre (1981) de qualidade irrepreensível, fidelissima ao espírito do romance e aclamada unanimemente. Fazer um filme nestas condições é muito arrojo.
(continua)
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