“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
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23.4.08

Autópsia de um Crime (Sleuth)


Quatro homens levaram-me ao cinema, a saber: Jude Law, Michael Caine, Harold Pinter e Kenneth Branagh, por esta ordem. Vi o que esperava ver, confesso que não esperava muito mais. Um Jude Law que dantes era quase só um homem bonito demais, com uma voz bonita demais e um sotaque composto demais e que a pouco e pouco se vai libertando dessa imagem e se vai fazendo um belo homem, um bom actor com a bela voz de sempre. Michael Caine é Sir Michael Caine e sobre ele e as suas composições não há muito para dizer: representa como quem anda ou come e bebe, prende-nos ao ecrã e mantem uma voz belíssima e o sotaque que sempre o caracterizou. O filme não funciona como filme: uma realização complicada e exagerada (ai Kenneth Branagh!) cujo propósito não entendi – cinema ou teatro filmado? Resultou um objecto híbrido sem grande nexo, às vezes um pouco pastoso num cenário demasiado pomposo, e onde a ausência de uma trama e de um fio condutor o ajudam a tornar algo estéril e desajustado. Mas, mesmo assim fiquei presa. Os actores exibiram um certo virtuosismo defrontando-se com algum afinco na representação, com um diálogo, às vezes inteligente, como arma. Foi só. É só como o prazer de quem ouve um pianista a exibir-se tocando escalas, estudos de Czerny, excertos complicados de Schumman ou Lizt para aquecer os dedos e se preparar para o concerto logo à noite. Do concerto propriamente dito, não se viu nada.

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