“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
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8.5.10

Sobrevalorizado


Sentia-me um ser extra terrestre por não ter querido ver Inglourious Basterds quando esteve nos cinemas. O desejo de voltar a ser “normal” e a insistência de alguns levaram a melhor e por isso vi o filme recentemente (DVD) e já depois de toda a gente o ter visto e de saber todas as opiniões possíveis, que eram, por acaso quase unânimes: fabuloso, um hino (homenagem) ao cinema, inteligente, etc, etc. Quem sou eu para contradizer tanta unanimidade e sapiência? No entanto, confesso humildemente que o filme não me entusiasmou nem me tocou especialmente. Muito menos me deixou em êxtase ou deslumbrada.

Não apreciei o tema: um pelotão criado à margem da legalidade e da prática bélica aceitável constituído por marginais (ou quase) que se “vinga de nazis” de forma vândala, cruel e inaceitável. É demasiado próximo de uma má realidade para ser boa ficção. O tirar de escalpes ou o “tatuar” de testas não só vem na linha desta lei da selva que serve de pretexto para o filme, como é uma opção estética importante para Quentin Tarantino. O cineasta, mais uma vez aposta na provocação e em chocar o espectador com o seu rigor formal, que é, impossível negar, impecável. Só não é do meu agrado. Não gosto nem da ideia de tirar escalpes nem de ver escalpes, e muito menos do seu “trademark” que é o sangue a esguichar de cada vez que há uma agressão que envolta o mínimo contacto físico. Cenários totalmente salpicados de sangue ao menor pretexto, por muito válida que seja a opção de chocar, simplesmente não me interessam e confesso ver neles uma infantilidade que me faz tédio. O que diria Freud desta obsessão de Tarantino? A perversidade que poderia existir no filme fica em segundo plano, tal o impacto dos efeitos especiais que me lembram desenhos animados e que contrasta, por exemplo, com a intensa e desconfortável perversidade num muito bom filme que vi há meses, Laço Branco de Michael Haneke e que é de uma crueldade surda e de um rigor estético deslumbrante.


Os diálogos de Inglourious Basterds são interessantes, as piscadelas de olho a outros filmes que fizeram história são divertidas apesar de por vezes demasiado óbvias (a tal infantilidade), mas esses aspectos não “fazem” um filme. Não vislumbrei um humor digno de nota entre sangue a esguichar (com Tarantino o sangue nunca pinga, nem escorre, nem jorra; esguicha sempre), linguagem de séc.XXI, coisas várias que explodem e diálogos espertos. Aliás, se pensar em humor ainda me rio com A Serious Man (que já vi há algum tempo) dos irmãos Cohen, que do primeiro ao último minuto desafia o espectador pelo exasperante e incómodo humor do filme.


Sobra em Inglourious Basterds o cuidado e rigor formal e uma interpretação de Christoph Waltz merecedora do Óscar que ganhou. A partir de Pulp Fiction, Quentin Tarantino passou a cineasta sobrevalorizado.

7.3.10

Há uma cena magistral (a melhor) no filme “An Education. (Atenção, spoiler). Penso na cena da revelação em que Jenny, percebendo-se enganada e traída, pede a David enfática, mas dignamente, para que ele não a obrigue a ter de dizer a verdade aos seus (dela) pai e pois ele deve-lhe, a si e a eles, a verdade da sua (dele) boca. Dá-lhe dois minutos e sem contemplações ela sai do carro e entra em casa de cabeça erguida com a maquilhagem dos olhos desfeita pelas lágrimas. Ele fica no carro, espera, bebe um golo, espera. Ela espera, os seus pais esperam. Finalmente ela ouve o carro dele a arrancar e partir. Ela fica só perante o olhar aturdido dos pais. Senti logo que só uma mulher poderia ter concebido e feito uma cena destas carregada de significado ou significados, bem como de história de história. Lembrei-me desta cena depois de ter lido este texto de Teresa Ribeiro em que fala actual presença das mulheres a fazer cinema.


25.2.10

An Education

An Education é um filme onde os pais, pelos motivos errados, querem que a filha faça a coisa certa. No entanto há um momento em que, para eles e para a heroína, casar ou ir para Oxford parecem ter o mesmo valor em termos de assegurar um futuro. Este é o sumo do enredo de um filme muito simpático, simples e bonito de se ver, em que Carey Mulligan brilha do princípio ao fim no papel de uma rapariga londrina, de classe média, inteligente e cheia de aspirações, e que gosta de ouvir Juliette Greco. Já há muito que não via uma actriz nova chegar aos ecrãs e agarrar um filme com esta simplicidade e com um ar tão fresco e tão pouco “Hollywoodesco” - apesar das cenas glamour que abundam no filme e desse glamour lhe assentar como uma luva.

An Education está nomeado para três Oscars: Melhor Filme (um exagero), Melhor Argumento Adaptado e Melhor Actriz.

Uma nota só sobre a tradução das legendas. Muito fraca um dos casos gritantes foi a tradução de Civil Service por Serviço Cívico. O que é que estudam estas alminhas tradutoras? Não há nenhum tipo de controle de qualidade para traduções?

Jane Austen

Do mesmo modo que temos os nossos odiozinhos de estimação, também temos os nossos amores de estimação que nutrimos e acarinhamos ao longo dos tempos. Um desses amores é a Jane Austen, uma das mulheres inteligentes com quem convivo regularmente há já muitos e muitos anos. Quem tem a paciência de vir espreitar este blogue e ler o que por aqui se vai escrevendo sabe que gosto de literatura, sobretudo romances e do séc. XIX, já agora. Jane Austen é especial pela sua inteligência (já disse), pela sua forma de ver a sociedade e pelo seu humor: nunca me cansei de a reler, coisa que faço regularmente e, claro, continuo a rir e a comover-me. Sinto até algum embaraço em confessar quantas vezes já li, por exemplo, Orgulho e Preconceito, que é o seu melhor romance. Aquele de que gosto menos, Mansfield Park, já li três vezes. É delicioso o humor de Northanger Abbey e Mr Tilney é o seu herói mais divertido (e cerebral); gosto do amor em Persuation, impossível não gostar de Anne Elliot a sua heroína mais comovente; Emma tem intriga e humor que chegue e sobre e Sense and Sensibility tem de tudo um pouco. Mas a coisa não fica por aqui: tenho várias edições dos seus romances, (alguns dos livros estão já demasiado gastos e compro outro, não vá ficar sem ele!), até traduções para português que nunca li, e finalmente, tenho uma colecção, em VHS e sobretudo em DVD, de todas as adaptações para filme ou televisão que se fizeram dos seus romances desde os anos 70.

Por isso foi com prazer que, depois de o ter visto em A Month in the Country e em Another Country, revejo Colin Firth como Mr. Darcy na famosíssima adaptação de 1995 para televisão de Pride and Predjudice. Mas o tempo passou e Colin Firth hoje, e finalmente em Single Man, despiu de vez a aura de Mr. Darcy que carregou, talvez sem querer, durante demasiado tempo e da qual não conseguia libertar-se. Foi premiado por isso, e para bem da sua carreira, com os prémios já ganhos (BAFTA; Veneza) e a nomeação para o Oscar de Melhor Actor. Nomeada também para o Oscar de Melhor Actriz está a britânica Carey Mulligan pelo seu papel de Jenny no filme An Education. Também ela emergiu numa recente adaptação de 2007 para televisão de Northanger Abbey, em que fez um excelente trabalho - que se destacou - como a loira Isabella Thorpe: uma rapariga sabidona, fútil, falsa e cheia de esquemas que se faz amiga da heroína Catherine. Jane Austen no percurso de ambos.

21.2.10

Um Homem Singular


Leio numa entrevista a Tom Ford (que desenhou os vestidos mais elegantes da década de 90 pela Gucci e que agora fez um filme) a sua confissão de que, tal como a personagem principal do seu filme – uma espécie de alter ego, segundo o próprio, se sente atraído por mulheres, o problema é que nunca se apaixona por elas, só por homens. Diz o entrevistador, com a concordância do entrevistado, que isso é a situação menos usual, que é mais frequente um homem gay apaixonar-se por uma mulher mas não conseguir ter desejo por ela. Confesso a minha perplexidade perante estas nuances, e mais ainda perante esta arrumação tão direitinha de fronteiras tão bem definidas entre paixão, desejo e afins.

Single Man é um pouco o reflexo deste mundo arrumado e compartimentado. É formalmente impecável a todos os níveis e sem descurar um único detalhe. Poderia ter caído no exagero formal que traz consigo sempre algum vazio, mas Colin Firth, num trabalho notável, não deixa nunca que isso aconteça. Os outros actores, é justo dizê-lo, nomeadamente Julianne Moore, são também muito bons e permitem dar a este filme a espessura necessária para que seja um muito bom filme. A cena de Colin Firth ao telefone quando é informado da morte do seu companheiro é absolutamente notável: pelo trabalho de representação, mas também pelo que mostra, sem mostrar, do que é a vida de um casal gay, do que é ser gay, na América dos anos 60.

24.1.10

Up in the Air


“Nas Nuvens” transporta-nos muito pouco para “as nuvens” e muito para um mundo ácido, muito vazio e solitário. Aliás a tradução de “Up in the Air” para “Nas Nuvens” pode prestar-se a algum equívoco, uma vez que “estar nas nuvens” é uma expressão que, em português, descreve uma sensação ou um sentimento de contentamento, algo alheio ao espírito do filme. Já o vi descrito como uma comédia, mas o riso que provoca, se é que o provoca, é amargo e todo o filme tem uma presente, embora nem sempre explícita, dimensão de hostilidade que causa estranheza e incómodo. Algumas cenas deste filme inteligente são memoráveis, as personagens também, a de Clooney (sim, confirma-se mais uma vez: é um excelente actor) e as femininas que são muito bem (re)tratadas e interpretadas, e que expõem a supremacia da imagem, da aparência e da eficiência do mundo que retrata e que, inevitavelmente, cada vez mais nos é familiar. As personagens se por um lado criam esse mundo, por outro vêem-se também, num momento ou noutro, reféns dele. E... O melhor é mesmo ver o filme.

15.1.10

Sherlock Holmes


Recentemente Robert Downey Jr. e Jude Law (os dois juntos no mesmo filme é algo a não menosprezar), foram os (dois) únicos motivos que me levaram a ver “Sherlock Holmes”, filme de Guy Ritchie que para além dos actores prometia pouco. Confesso que não esperava nada do filme – eu não gosto de filmes de “efeitos especiais” e não gosto de demasiada acção traduzida em explosões contínuas e ruído ensurdecedor. Mas o filme surpreendeu-me: os diálogos eram vivos e divertidos cheios de um humor que, sem ser muito sofisticado, era inteligente, as personagens (Holmes e Watson) foram levadas ao extremo das suas "personalidades" mas, e inesperadamente, nunca se tornaram caricaturas pouco credíveis das personagens que já conhecemos, aspecto que me parece ser a força do filme. Downey Jr. & Law formam uma dupla fantástica, mostram os bons actores que são, enchendo o ecrã e prendendo-nos a cada segundo. Li muitos dos romances de Sir Arthur Conan Doyle e vi incontáveis episódios da série protagonizada por Jeremy Brett. A imagem que temos de Sherlock Holmes é, apesar de extravagante, muito mais contida do que filme de Guy Ritchie, onde se ousa romper com essa ideia de Holmes que se foi, ao longo de anos, estabelecendo no sub-consciente de tantos.

Agora impera o exagero: na criação das personagens; na recriação visualmente exuberante de uma Londres vitoriana; nos cenários interiores desenhados ao pormenor e de uma arquitectura cuidada (o filme é cheio de “arquitectura”), no guarda roupa, nos adereços, nas explosões, e até no barulho e estrondos repentinos. O filme tem também um aspecto infantilmente lúdico e “clean”: não há mensagens morais, não há culpas a expiar, não há causas fracturantes nem grandes dilemas éticos, o que é, diga-se, um alívio. Não será uma obra-prima, mas surpreendi-me e diverti-me, coisa que nunca deve ser negligenciada.

12.1.10


Já está. Apesar da associação ser óbvia, não foi à primeira que consegui compor o título: “O Primeiro-ministro, a Mulher, o Talhante e o Filho Deste”. Impossível não fazer este paralelo e, de repente, perceber que foi nos anos 80 que vi (e me diverti) com filmes como The Draughtsman’s Contract, Drowning by Numbers e, como é óbvio, o The Cook, the Thief, His Wife ans her Lover, e que nunca mais vi nada de Peter Greenaway. Um estilo muito peculiar e a vontade de rever alguns dos filmes.
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4.1.10

Percebi agora porque é que não me apetece ver Avatar. Trata-se de um aparatoso filme de entretenimento, com quase três horas de efeitos 3D que deixam qualquer espectador exausto, com o sentido da visão momentaneamente perturbado, (mas feliz por isso). (Em A Terceira Noite, e os parentesis são meus de forma a não modificar o sentido geral do texto). Eu não quero ficar exausta e dificilmente ficaria feliz estando-o depois de três horas de efeitos 3D que deixam o sentido da visao perturbado. Para mim dez minutos de "efeitos especiais" já me deixam cansada e enfadada. Imagine-se três horas de "efeitos 3D" que requerem óculos e tudo. Parece que há matérias em que sou uma real conservadora mas, quem sabe, talvez mude de opinião quando sair o DVD e eu puder ver o filme em casa em pequenas porções.

Ao contrário de Avatar, já Rosebud me entusiasma. (Basta olhar para os nomes). Eduardo Pitta, agora a solo no Da Literatura que completou recentemente cinco anos de existência, dá-me razões para querer ler Rosebud de Pierre Assouline, um “escrutinador de almas", que procura o Rosebud de cada biografado.


Cortex Frontal, a nova casa de José Medeiros Ferreira e um novo blogue a seguir.

Este fim/início de ano blogosférico mais parece o período de transferências e de compras e vendas do mundo do futebol.


5.10.09

Cheri


Ao ver Chéri, mais um bom filme de Stephen Frears (baseado num romance de Collette) que nos mostra uma das melhores interpretações de Michelle Pfeiffer no papel ambíguo de uma mulher que envelhece e se “reforma” da sua profissão de cortesã saboreando finalmente a riqueza e as noites dormidas sozinha na cama, mas que - ao tomar conta de um jovem filho de uma “companheira” de profissão - se apaixona por uma vez, e por quem não devia (se é que alguma vez se deve seja o que for, sobretudo no domínio da paixão), lutando para que essa paixão não se mostre nem aos outros nem a ela e não a “derrube”, lembrei as semelhanças entre a personagem masculina do filme e uma outra personagem masculina de uma série que vi recentemente: The Line of Beauty, também ela baseada numa obra literária, neste caso num romance de Alan Hollinghurst. O mesmo tédio e abandono de si próprios e dos seus percursos e opções, o primeiro nas mãos de Léa, o segundo, Nick, nas mãos, rotinas e hábitos da família Fedden. Ao contrário de Nick que se deslumbra com a abundância dos Fedden e do meio em que se movem (com algumas pouco subtis reminiscências de Brideshead Revisited onde se inclui a homossexualidade plenamente assumida no caso de The Line of Beauty), Chéri nasce na abundância, mas numa família disfuncional, se é que se pode sequer falar em família. Ambos no seu estado de permanente langor (propício ao consumo de drogas) cultivam o esteticismo e a beleza como um fim em si, como uma forma de estarem na vida e em sociedade, como expressão daquilo que são e do que querem. De formas distintas, ambos são “abandonados” no fim: um pela família que o acolhe, outro pelas suas inevitáveis opções como se se tratasse de um destino já escrito.


The Line of Beauty é uma série irregular, bem feita - tem a chancela BBC e todo o rigor no retratar de uma época e com todas as subtilezas necessárias que marcam a persistente estratificação da sociedade inglesa, mas que nunca cativa plenamente tal a superficialidade e automatismo das personagens e da banalidade narrativa.

Chéri, ao contrário, e apesar do rigor do retrato da “Belle Époque” e do deslumbre (nosso) perante o guarda-roupa, interiores e exteriores (o jardim de Inverno de Mme Peloux é de antologia), é todo feito de modulações psicológicas das várias facetas do abandono ao amor, da idade e do tempo quer passa, da inevitável e esperada separação, e das tentativas de superar e não mostrar a dor provocada pelo afastamento do ser amoroso. Como pano de fundo o afundar da forma de vida de Léa e das suas companheiras e a decadência da própria sociedade com o mundo a mudar em vésperas de guerra.
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23.3.09

Grand Torino



Às vezes já sei que vou gostar do filme e ainda não o vi; foi assim, sabendo exactamente que ía gostar e do que ía gostar que fui ver Grand Torino. Não houve surpresas só a confirmação de um excepcional fazedor de filmes que é Clint Eastwood.

A história, que tem algo de pascal (adjectivo de Páscoa e não referente ao filósofo e físico francês), e gira em torno de Walt Kowalsky, uma personagem complexa, que vive em guerra com o mundo que desconhece cada vez mais. É um cínico ex-veterano de guerra de humor eficaz e rude, que se vê no fim da sua vida, viúvo e só, a viver com os fantasmas que o acompanham desde os tempos passados e com os ódios e indiferenças do presente. Ele é o motor da narrativa e é à volta dele que gravitam as restantes personagens: o Padre Janovich, o "over-educated 27-year-old virgin", (segundo Kowalsky), que vai crescendo e se vai revelando ao longo do filme, bem como os dois irmãos Hmong, Thao e Sue, que farão despertar em Kowalsky uma solidária amizade e respeito. Kowalsky é ao mesmo tempo um herói e um anti-herói: se por um lado é destemido e não teme nem o confronto, nem o uso da violência para se proteger e proteger os “seus”, por outro lado não esquece o que fez num passado longínquo quando não lhe deram ordens para o fazer, e tem por isso sentimentos conflituosos em relação à medalha que recebeu por esses seus feitos “heróicos” na guerra.

Talvez o que mais tenha gostado, e sem surpresa mas sempre com prazer, foi da cadência do filme, um andante que dá um passo de cada vez, mas que pisa seguro e na direcção certa: as cenas não se atropelam, a câmara não saltita, a música não se sobrepõe à narrativa e a história desenrola-se com a naturalidade das coisas que acontecem aqui ao lado. A realização e direcção de actores é sóbria e de grande contenção o que valoriza essa cadência agradável, humana, esse ritmo que não atordoa e que permite que ao longo do filme se mantenha uma postura e atitude contemplativas e uma sensação de tranquilidade e de serenidade, mesmo quando sentimos que algo de desagradável vai acontecer. Há sempre um tom latente de redenção (daí o pascal) mesmo com o preço da culpa dos outros, daquilo que os irá atormentar, e creio que esta dualidade é uma característica de Eastwood, uma humanidade que procura no turbilhão de possibilidades um (o) sentido final, num filme que não quer atordoar o espectador nem provocar sensações mais imediatas e visíveis, mas que aposta no que há de mais íntimo, na sensibilidade e na inteligência. Uma última referência à música, excelente, que emoldura este ambiente intimista.
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19.3.09

Natasha Richardson


Quando, com surpresa, pois a morte tem dessas coisas – a capacidade de teimosamente nos surpreender, li hoje cedo da morte tão inesperada quanto estúpida (como se diz normalmente nestes casos) de Natasha Richardson lembrei-me de como apreciava o seu trabalho, a sua voz o seu olhar e veio-me à memória um belo texto de Eduardo Pitta sobre o filme The White Countess com que me identifiquei de imediato: também eu tinha visto o filme e sentido esse sopro nostálgico tão bem evocado por Natasha Richardson e Ralph Fienes no filme. Descanse em paz.
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14.2.09

O Leitor

É inegável que estamos cheios de opções para ver bons filmes no cinema. Desta vez “O Leitor”- talvez o filme que vi nos últimos tempos de que mais gostei - será pretexto para um comentário e algumas reflexões. Estamos em território de adultos, não por causa da exposição anatómica ou das razoáveis cenas de sexo, mas porque entramos num mundo complexo, desarmante e cerebral.

É um filme cuja estrutura narrativa, em variados e nem sempre aparentemente sequenciais flash-back, tem planos que se sobrepõem e percebemos uma falta, ou melhor, "a" falta; a falta de matéria de união, não me refiro a uma união sequencial ou cronológica, mas sim a algo como uma argamassa que une os tijolos, um fio motivador, a identidade do filme, o que quer que seja que faz mover as personagens e faz acontecer a história, que se desenrola de uma forma fria e quase que automática. Essa matéria nem sempre é evidente e a riqueza do filme é que nós enquanto espectadores vamo-nos questionando e tentando perceber do que é que ele (filme) trata. Será o amor? O erotismo? Será o interesse? O destino? Será a verdade? Será o cumprimento do dever? A frieza de nunca o questionar? Será a vergonha (do analfabetismo)? A honestidade? Será a culpa ou a falta dela? Será o sentido do sofrimento? A justiça? Há de tudo um pouco, e no fim, para além da desarmante honestidade de Hanna, que é sempre um desafio às outras personagens e a nós espectadores, e de um sempre desconcertado (e porquê, tentamos nós perceber até ao fim do filme) Michael Berg, vemos e lemos o que queremos ou o que somos levados a ver e a ler.

A realização é metódica e os actores são tão bons quanto esperávamos. Kate Winslet mais uma vez prova a grande actriz que é despojada de si e entregue totalmente a uma Hanna misteriosa, desarmante, mas digna. O jovem David Cross (Michael Berg na juventude) e Ralph Fienes são competentíssimos parceiros de Winslett.

Da culpa.
O jovem Michael estudou direito e um professor seu explica-lhe que não é a moral que rege o mundo, mas sim a lei, mas Michael parece não ter nunca absorvido esta noção. As aulas de Direito coincidem com o julgamento de Hanna e com o turbilhão de sentimentos conflituosos de Michael. Ele quer perceber culpa (a dita Moral que não rege o mundo) em Hanna, ele espera percebê-la mas nunca a consegue ver, o que lhe trará consequências de peso: ele faz sua a culpa que gostaria de ter visto nela e vai ser ele que a vai expiar numa vida ao longo de grande parte da sua vida. Essa inexistência de culpa en Hanna é talvez o elo que os liga ao longo dos anos de uma forma que só eles entendem, pois o segredo dela só ele o conhece. Para Hanna a culpa é o segredo, de tal forma que o guarda e está preparada para uma maior e “injusta” condenação por parte do tribunal; a culpa não está nos factos por que foi julgada.

Do sentido do sofrimento.
Michael quer que o sofrimento tenha sentido e gostava de ver um propósito, tirar uma lição desse sofrimento, talvez para poder entender os seus actos, o seu sofrimento. Mas as voltas estão trocadas. Por duas vezes ele se depara com o vazio, o nada do sofrimento. Depois de tudo o que se passou Michael pergunta a Hanna, pouco antes dela sair da prisão o que é que ela aprendeu com a prisão. Vê-se que ele está à espera de uma resposta existencial, de crescimento individual, mas a desarmante honestidade de Hanna e a cerebralidade da sua resposta não deixam margens para dúvidas: a aprendizagem (aceitação da culpa, sentido do sofrimento) que ele procura não está lá. Do sofrimento não aprendeu nada. Do mesmo modo na conversa final entre Michael Berg e Llana Mather, ela lhe diz para não procurar a sua catarse nos campos (de concentração): não há lá nada. Não se aprende nada, não se ganha nada. Aquele sofrimento é nada. Michael está entregue a si próprio.
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12.2.09

Doubt

Por vezes parecia que estava a ver um filme de acção: suspirava de alívio de cada vez que terminava um diálogo, tal a tensão dramática e a atenção que eles requeriam. Todos os detalhes contam: o cenário, os gestos, os tempos de fazer o que se faz, ou de dizer o que se diz, a expressão da cara que os inúmeros primeiros planos ajudam a decifrar. Outro filme feito para ver os actores brilharem e eles brilham. Todos eles o que é também um claro sinal de mérito do realizador.

Tudo se passa em pouco tempo e em pouco espaço. Grandes dúvidas, grandes certezas, algumas hesitações. “Kindness” contra “virtue”. Complacência contra determinação. Tolerância contra intolerância. O que é a verdade, onde está a verdade. Todos estes tópicos fluem inteligentemente, evitando slogans, verdades pré-fabricadas ou politicamente correctas, polémicas fracturantes e sentimentalismos fáceis, num ambiente depurado quer do ponto de vista formal quer psicológico. Cada diálogo é uma luta entre verdades num pano de fundo de catolicismo. Para nosso desafio e deleite neste filme não há um minuto perdido, e vê-se avidamente sem sentir o tempo passar.
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4.2.09

Revolutionary Road



Revolutionary Road não é um filme que cause grande entusiasmo generalizado, nem é “diferente” ou deslumbrante, mas é sólido e de uma qualidade irrepreensível. Eu gostei muito de o ver. Parece ter sido feito para enaltecer o trabalho dos actores e conseguiu isso mesmo: fá-los brilhar da primeira à última cena e creio que ninguém duvidada disso. Kate Winslet, Leonardo di Caprio e um fabuloso Michael Shannon dão o seu melhor para deleite de quem os vê. O filme explora o sentimento de frustração de um casal de um subúrbio norte-americano nas suas múltiplas facetas e ao fazê-lo deixa vir à tona o que move cada um dos elementos do casal, o que os liga e o que os afasta. Implacavelmente comprometida com a “sua” verdade, April Wheeler não desiste de lutar e exigir o seu sonho daquilo que pensa ser uma vida com sentido, num percurso em que a questão de ser ou não verdadeiro, onde está a verdade e o que é a verdade se coloca inúmeras vezes a cada um e ao casal, bem como os limites dessa mesma verdade. John Givings, o outsider visionário e em tratamento numa clínica psiquiátrica, funciona quase como uma espécie de coro da tragédia clássica: vê o que ninguém ousa ver, diz o que ninguém ousa dizer. Nada é adquirido neste filme: não há bons nem maus, justos nem injustos, boa fé nem má fé, mas há sobretudo uma transpiração dramática inequívoca, ou não fosse Sam Mendes um homem vindo da produção teatral.
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29.1.09

Benjamin Button


Não há fome que não dê fartura, assim diz o provérbio popular. Depois de um Outono em que as escolhas cinematográficas me pareceram sempre poucas, segue-se um período de abundância em que todas as semanas estreiam filmes que me apetece ver. Haja oportunidade para os ver, e para aqui os anotar, pelo menos alguns.

Devo ser um caso único, mas o filme “O Estranho Caso de Benjamin Button” não me comoveu nem me entusiasmou. A aparente originalidade de nascer velho e morrer novo não me pareceu mais do que a figuração invertida (e muito pouco prática) da realidade cíclica que é sempre a vida, e pareceu pouco mais do que um pretexto para fazer caracterização, efeitos visuais e explorar as capacidades do actor, que se revela competente mas sem deslumbrar. Tem ingredientes para ganhar Óscares, mas pareceu-me um filme incapaz de superar o óbvio e por isso não o catalogo como um dos melhores filmes do ano. O que de mais simpático retenho deste filme são as personagens secundárias: Queenie a mãe no seu simpático lar de idosos, e sobretudo o capitão Mike no seu Chelsea, bem Elisabeth Abbott a aristocrata, uma Tilda Swinton muito convincente que parece actuar como quem respira. Aliás é neste período no mar e durante a guerra, no Chelsea, em que Benjamin começa a descobrir o mundo que o filme atinge o pico de densidade, vida e propósito, pois conta com as personagens mais densas, vividas e peculiares; até Benjamin com o seu olhar deslumbrado e a consequente perda de inocência se revela interessante por uma vez. Cate Blanchett pareceu-me uma sombra da grande actriz que é e a sua personagem é plana e pouco interessante, nomeadamente velha no seu leito da morte quando olha para a vida e a conta à filha numa confissão pouco verosímil. Posso dizer o mesmo em relação a Brad Pitt, que me pareceu muito melhor em Babel, por exemplo. Ser um bom actor não passa só por ter a caracterização e maquilhagem certas, não são só as camadas que se põe por fora que têm que bater certo, a respiração certa, a alma têm que lá estar e o olhar também.


23.1.09

Changeling


A Troca não é uma obra-prima, nem o melhor dos filmes de Clint Eastwood, mas é de uma enorme solidez e muito “reliable” sem cair em facilitismos sentimentais e exageros maneiristas num filme que onde isso seria tão fácil e num filme que é sempre duro. Tão duro quanto só a esperança da mãe, apesar de tudo, o pode ser. É a esperança que é dura e cruel, que não deixa viver nem respirar. É também um filme tão duro quanto o “fazer” de uma verdade oportunista e para consumo exterior e tão longe da única verdade o pode ser. É o fabricar desta verdade tão desrespeitosamente longe da realidade que é duro. Não se dá pelo tempo passar. Envolvemo-nos naquele clacissismo que já todos reconheceram e glosam em Eastwood. Bom casting, boa fotografia, boa música. “A Troca” é um filme de qualidade indiscutível.


11.1.09

"Austrália"


Dificilmente resisto a um épico em forma de livro ou em forma de filme, e nesta última forma gosto especialmente de ver grandes produções que não apostem em efeitos especiais, monstros e outros seres bizarros, construções fantásticas e mundos esquisitos. Por isso, mal vi anunciado o Austrália soube logo que iria vê-lo mal estreasse e assim foi. Apesar de gostar deste género, já não nutro grandes ilusões, nem grandes expectativas em relação a este tipo de filmes em cartaz, o que me torna numa espectadora mais livre. O filme não surpreendeu em nada – já nem sei se é uma coisa boa ou má - e foi o que esperava: nem melhor, nem pior. Vê-se com agrado, é competente, bonito, mas longe da obra-prima que eu já não ouso esperar, mas com que ainda sonho. A história, é linear e sem grande complexidade, mas com um ou dois momentos de inconsistência que irritam. As personagens são planas, com pouca densidade existencial e não são dotadas de grandes tensões psicológicas, sociais ou outras, ressalvando o miúdo aborígene, o narrador com que todos simpatizamos e que centra nele quase toda a possível espessura do filme, contradições e complexidades do mundo a que pertence, ou não. As paisagens são, como esperado, deslumbrantes e de fazer sonhar, os actores são competentes, mas sem rasgos de genialidade, a música é boa e a fotografia também. No entanto, e apesar de ter visto o filme com gosto foi impossível esquecer a densidade e tensão dramáticas bem como a complexidade psicológica dessa obra prima que dá pelo nome de “E Tudo o Vento Levou”, ou a exacerbação romântica que é “África Minha”, ou o ritmo e contemplação de “Lawrence da Arábia”. Na comparação, creio que “Austrália” perde sempre. Talvez seja do meu olhar e talvez a passagem do tempo o torne mais macio e mais clemente, e daqui a uns anos, à medida que me for apropriando do filme, pense diferentemente. Tem potencial para isso.
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10.1.09

Combate ao Sedentarismo 57

La Dolce Vita
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6.1.09

When the Going Gets Tough, the Tough Gets Going


Easy Virtue (Virtude Fácil) não é uma obra prima, nem sequer um marco no cinema do ano. Vai passar despercebido pelo circuito comercial dos cinemas, e muitos dos que o vão ver, acha-lo-ão dispensável. Não é o meu caso. Trata-se de uma comédia romântica que em nada faz lembrar o género a que pertence: não há grandes trapalhadas, nem equívocos, nem qui pro quo que nos levem às gargalhadas, mas a partir dos primeiros momentos respira-se um ambiente especial e uma longa tradição de humor fino, de ironia e de fazer pouco de si próprio, coisa em que os ingleses ainda são exímios e mestres, mesmo com equipe multinacional e um realizador australiano. Boa música, bons adereços, bom guarda-roupa, boas personagens. Eu gostei.

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