“… he resolved never again to kiss earth for any god or man. This decision, however, made a hole in him, a vacancy…” Salman Rushdie in Midnight’s Children.
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26.4.10

Conversas de Café e Brainstorming

Depois da “espontaneidade” saída de uma conversa de de três jovens juristas que não querem provocar mas somente sensibilizar, soubemos agora de mais espontaneidade no seu melhor, saída de um “brainstorming”. Parece que o Papa se está a tornar num alvo por parte das sensibilidades das causas fracturantes, cá e lá. Cá, um país maioritariamente católico, sobra anti-clericalismo, às vezes até misturado com devoções várias, que hoje se sente aconchegado e que nunca perde oportunidade de se mostrar na sua faceta mais primária, radical e pouco tolerante. Lá, onde o catolicismo é minoritário e o islamismo corre sérios riscos de ser maioritário, perante a lenta dissolução de uma Church of England que consegue ser tudo e o seu contrário, há um anti-papismo secular que as ditas sensibilidades das causas fracturantes descobrem no seu esplendor. Não é em vão que anualmente se celebra com fogo de artifício a derrota do catolicismo e morte de Guy Fawkes.

Uma coisa é certa: as conversas de café que nos anos 60 e 70 propiciaram tanta produção intelectual (não discuto a qualidade da dita) conhecem há muito uma decadência que está bem patente no resultado: distribuir preservativos antes/depois das missas do Papa. Se não fosse patético, dava vontade de rir. O brainstorming, um sucedâneo das ditas conversas de café mas em salas de reunião com toque yuppie e glamour à anos 80 e que produzia sobretudo soluções “corporate” ou “marketing”, (para usar inglês técnico), já conheceu também melhores dias. Estas brilhantes e originais ideias, (ver primeiro e últimos parágrafos), saídas de uma sala de reunião do Foreign Office, já o obrigaram a pedir desculpa ao Vaticano. Nem dá para rir, tal o nível de infantilidade e imbecilidade (com patrocínio governamental).

Razão tem o Bispo de Chester:

14.1.09

Véu Islâmico 11

Este “depende” parece-me fácil demais. O “depende” é raramente circunstancial e tem muito mais a ver com o grau de informação que a mulher, que casa com um muçulmano tem. Duvido, tal como o Cardeal Patriarca afirma (no final do texto), que as mulheres cristãs apaixonadas pelos homens muçulmanos se dêem ao trabalho de ler o Corão e de saberem exactamente no que se estão a meter. A questão não é nova, em Maio de 2004 o então Papa João Paulo II alertou e bem, para surpresa e espanto de muitos, para essa situação prevenindo as mulheres cristãs que querem casar com homens muçulmanos e implorando-as a que pensassem bem antes de se comprometerem.

E se poucas vezes “depende”, tem sobretudo a ver com o facto de que para os muçulmanos maridos não “depende” certamente. De acordo com a lei islâmica a mulher quando casa passa a ser tutelada pelo marido, passa a ser “posse” do marido e família do marido – por isso é que as mulheres muçulmanas, de acordo com o Corão, não podem casar com homens cristãos, para não passarem a pertencer ao mundo cristão. Por isso as regras que o marido reconhece e aplica são as do Islão e não as “civis” ou até as cristãs, e essas regras são sobre obediência, divórcio, bens, tutela dos filhos do casal (que “pertencem” sempre ao pai e nunca à mãe), etc. Duvido sinceramente que as mulheres cristãs (ou não confessionais, mas de tradição cristã) que casam com muçulmanos estejam informadas sobre o que as espera e, pior ainda, acredito que “por amor”, e num primeiro momento, estejam dispostas a abraçar certas tradições muçulmanas suavemente impostas. Quando derem conta do que fizeram já é tarde demais. Esta questão, que está longe de ser meramente teórica e que tem levado a inúmeros casos dramáticos, tem merecido a atenção de muitos governos e instituições por essa Europa fora em países haja grandes comunidades islâmicas.
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17.10.08

Espiritualidade Pronta Para Consumo

Há uns dias reparei num anúncio de “Meditação Católica”, colocado numa das grandes e movimentadas paróquias da cidade de Lisboa em que convidavam os potenciais participantes a experimentar a meditação católica. É extraordinário ver o que a globalização e o marketing fazem. O que era, e é, vulgarmente conhecido como rezar o terço, para dar um só exemplo, brevemente arriscar-se-á a ser algo próximo de uma recitação de mantras ou uma busca introspectiva do verdadeiro eu, ou um re-equilíbrio com as energias do universo, ou qualquer um desses chavões new-age. Não tenho rigorosamente nada contra a meditação, e reconheço-lhe grandes benefícios, mas parece que precisamos do que nos vem de fora para descobrir e (re)conhecer o que temos cá dentro. A Religião Católica tem uma vastíssima tradição quer na área mística, quer na área contemplativa que tem sido desprezada por uma sociedade virada para pragmatismos, sentimentalismo descartável, sucesso e gadgets. A procura da espiritualidade e de algo “diferente” por tantos que se dizem cansados desta forma de vida, levou-os a locais distantes e abriu a porta a outras tradições espirituais que chegam aqui com o entusiasmo da coisa nova. Ainda bem, e que o entusiasmo não esmoreça como acontece tantas vezes com as coisas novas. Mas reconheça-se que rezar um terço não é uma técnica de meditação, embora possa ser, para escândalo de muitos, igualmente benéfico. Contemplação e oração vêm de uma tradição espiritual diferente da meditação, ambas buscam uma vivência espiritual mais intensa, mas que se reconheçam as diferentes tradições evitando um melting pot amorfo de uma espiritualidade de consumo.

17.3.08

Do Pecado

Em tempos de relativismo moral, de consumismo frenético, de vontades rapidamente satisfeitas, e de pressa em viver, falar de pecado é uma chatice e pensar sobre ele é de quem não tem nada melhor nem mais urgente que fazer. O Papa Bento XVI que não se compadece com esta estranha forma de vida que domina o ocidente falou sobre o pecado no seguimento do seu antecessor João Paulo II, tentando reforçar a sua (do pecado) dimensão social e as consequências que ele pode ter na sociedade. Foi mesmo estabelecida uma lista de seis pecados sociais a juntar à lista tradicional dos sete pecados mortais, não vá o católico consciencioso perder-se neste labirinto que parece ser a vida moderna. Confesso o meu cepticismo em relação a esta nova lista de pecados, à sua necessidade e pertinência, à especificidade dos tempos modernos que exige actualização da lista, e creio que ela está em desacordo com alguma tradição mais exigente do ponto de vista teórico e teológico.

O pecado é uma livre transgressão à lei de Deus, quer em acto, palavra, pensamento ou omissão: Tem que ser grave, feita de forma totalmente consentida e conhecedora, e diz-nos o catecismo que faltando um destes requisitos já não se trata de pecado mortal. Vendo o pecado à luz desta definição, estamos perante matéria do foro íntimo entre o pecador e Deus, sendo o sacerdote que ouve a confissão e dá o perdão de Deus apenas o veículo que reconcilia o pecador com a Igreja. Os sete pecados mortais (relembro: Avareza, Gula, Luxúria, Soberba, Preguiça, Inveja e Ira) tais como a Igreja os estabeleceu há séculos são suficientemente sólidos e representativos da miséria humana e podem cobrir qualquer desvio à ordem divina, para além de serem sempre a mola a qualquer forma concreta que um pecado possa tomar. Por exemplo, os pecados contra a natureza poderão ser muitas vezes atribuidos à soberba humana ou à luxúria (pelo dinheiro e lucro). Também alguns actos tais como os que estão descritos na lista recente de pecados sociais, por exemplo abortar, podem não ser necessariamente pecado mortal se as condições acima descritas não existirem.

Este estender do pecado à esfera social, definindo como pecado situações concretas e não sentimentos ou características da alma humana, também contém outros perigos. Aqui neste blogue tem-se escrito criticando, a propósito do islamismo, os danos da omnipresença da religião em todas as esferas da actividade social dominando e influenciando quer as leis, quer os hábitos, a cultura, a mentalidade. Apesar do ocidente estar numa situação que não se assemelha à existente em tantos países islâmicos, não gosto que o manto da recomendação religiosa se estenda, através de directivas concretas, a outras áreas. Nem sequer é necessário e desvirtua a noção pessoal e íntima do pecado. Como já disse a antiga lista dos sete pecados mortais tal como estão definidos podem bem continuar a cobrir qualquer acto deliberadamente contra a vontade divina que a imaginação mais criativa possa inventar (como se ainda houvesse algo a inventar) tal como tem sido feito ao longo dos séculos e também não reconheço aos tempos modernos perigos assim tão inovadores e específicos para a alma humana que requeiram novos parâmetros na abordagem ao pecado.
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26.2.08

Reformar

No Mar Salgado, FNV tem, sob o título A Oriente do Oriente, exposto interessantes mosaicos sobre o Islamismo como pretexto para um debate. Desta vez detem-se na questão da reformabilidade do Islamismo e das sociedades islâmicas. Esta é mais uma questão complexa, porque a reforma de qualquer sociedade o é, e porque ainda é mais complexa no caso do Islamismo em que a religião e a própria sociedade, leis costumes, se misturam não sabendo onde uma começa ou onde acaba outra. Qualquer questão que se coloque sobre o Islamismo terá que ir parar à essência do próprio islamismo, à religião, à crença à forma como essa religião e a Revelação Divina são vividos. Com as sociedades cristãs que separam há muito a religião da sociedade e dos poderes políticos e judiciais, e que têm tido como mote “dai a César o que é de César, e dai a Deus o que é de Deus”, é mais fácil delimitar as fronteiras da religião. Com o Islão é quase impossível e quando se tenta estabelecer uma sociedade laicizada (Turquia, Pérsia), há um dia um retorno com a pressão dos sectores mais “fundamentalistas” – que não serão necessariamente terroristas, note-se.

Este facto tem uma raíz teológica, ou de falta de teologia ou mesmo de exegese, ou falta dela, e tem a ver com a forma como a Revelação Divina é olhada. Para um muçulmano o Corão é a Revelação, é a palavra de Deus. É mesmo Deus que disse aquelas palavras daquela forma e o livro transmite fielmente o que Deus pensa, quer e disse. Como o Corão é o centro da vida de um muçulmano e porque regula todas as áreas da vida, quer da vida íntima quer da vida social, é muito difícil “reformar” uma sociedade, tal como nós concebemos a noção de reforma, isto é uma reforma no sentido de valorizar a liberdade individual total (ser livre de ser ou não muçulmano, ser livre de se converter a outra religião ou simplesmente ser livre de explicitamente, mas sem escândalo, não fazer o Ramadão, por exemplo), e uma igualdade de direitos e oportunidades para ambos os sexos. Será que alguém concebe homens e mulheres a rezar juntos numa mesquita? Porque é que, na mesquita, as mulheres têm que estar segregadas, num primeiro andar com tecto baixo e apertadas e com grades para não serem vistas? As coisas podem mudar em Marrocos com mais mulheres deputadas, podem mudar no Dubai com mulheres em lugares de topo na vida empresarial, na Turquia com mulheres tão iguais a nós, mas enquanto não rezarem ao lado dos homens na mesquita ou, pelo menos, nos mesmos locais que os homens usam, nada muda no fundo. Enquanto um muçulmano não for livre de não ser muçulmano, nada muda no fundo. Pode-se decretar a secularização duma sociedade, como na Turquia e proibir o uso de véu nos locais públicos, mas um dia, pouco a pouco a pressão da religião far-se-á sentir e a sociedade retomará devagar ou depressa (Pérsia que ficou Irão) os caminhos do Corão.

Qualquer reforma, para o ser, terá que passar ou pelo afastamento das leis e preceitos religiosos, ou por uma nova maneira de olhar e debater a própria Revelação de Deus. Não vejo outra forma, e esta parece-me do domínio da utopia. Mas por passar a mensagem da dificuldade (impossibilidade?) de reforma do Islão, recuso a "culpa" de estar a condenar as mulheres muçulmanas ao castigo dos taliban. Apesar de ser uma expressão retórica, não quero cair na tentação de achar que aqui, no Ocidente do Ocidente, somos os culpados do que se passa no Oriente do Oriente.

8.1.08

Grau Zero 2

O grau zero de referências a, e de sinais religiosos cria um vazio na sociedade em que ele nasce. Os vazios têm os seus perigos, por muito modernos, brilhantes e zen que sejam, nomeadamente o de o serem por pouco tempo, porque algo irá ocupar esse “espaço” de nada: outra simbologia, outros sinais, outras referências, e outros valores. Não sei se a sociedade fica a ganhar se paulatina mas inexoravelmente for substituindo os símbolos e valores de um cristianismo liberal, que é o que se vive na maioria das sociedades europeias, por outros símbolos e valores de cariz laico, por esemplo ligados ao republicanismo e que serviram de suporte ideológico à Revolução Francesa (também eles uma evolução “laica” de valores cristãos) ou, outro exemplo, ligados a aspectos mais materiais, consumistas e de “progresso económico”. Também não sei se a sociedade fica a ganhar se forem outros os símbolos e valores que a pouco e pouco e se forem nela entranhando, nomeadamente se forem ligados ao Islamismo, uma religião expansionista e agressiva que preza pouco a laicidade e a separação entre Estado e Religião. Muitos países Europeus estão a confrontar-se com sérios problemas de valores com as suas comunidades muçulmanas.

Eu creio que no aqui e agora, e prevenindo o que poderá ser um mau futuro, as investidas dos que se reclamam herdeiros de valores republicanos e laicos, e viram o seu combate em direcção à igreja Católica, poderiam tomar também outros rumos. Vou deixar aqui um pequeno inventário de questões, apesar de ainda pouco visíveis em Portugal e de dimensão inferior à de uma parte relevante dos países europeus, que directa ou indirectamente estão ligadas à religião. São práticas que poderiam e mereceriam ser monitorizadas e objecto de análise pois muitas delas são contrárias aos princípios de igualdade de oportunidade, de dignidade e respeito pela individualidade e integridade física, moral e financeira dos indivíduos, e são claríssimas violações da lei.

  • Cumprimento de escolaridade obrigatória por parte de todas as crianças e jovens nomeadamente do sexo feminino.
  • Liberdade de escolha, nomeadamente sobre o seu próprio casamento, se, quando e com quem, ou sobre a religião que se quer professar.
  • Cumprimento da Lei no que diz respeito aos direitos patrimoniais da mulher.
  • A excisão feminina é uma prática a que Portugal não é alheio. Esta é uma questão que merece um combate sem tréguas e uma tolerância zero.

6.1.08

Grau Zero

O artigo de ontem no Público de Vasco Pulido Valente transcrito aqui e aqui, lembrou-me o tão recente episódio gerado pela notícia do dia 2 deste mês no Correio da Manhã. Porque tenho dificuldade em acreditar na inocência de uma legislação que condiciona a escolha de um nome de patrono que terá que ter/ser “reconhecido valor de personalidade que se tenha distinguido na região, nomeadamente no âmbito da cultura, da ciência ou educação,podendo ainda ser alusivas à memória da expansão portuguesa, à antiga toponímia ou a características geográficas ou históricas do local onde se situam os estabelecimentos de educação ou de ensino”, ou na bondade dos orgãos regionais do MNE, que segundo o desmentido ao desmentido, (e porque não houve desmentido ao desmentido do desmentido) terão dado indicações de que se evitassem nomes de cariz religioso, creio que estamos perante mais uma investida da nova ordem moral tão cara a José Sócrates - e ao seu mentor do politicamente correcto, José Luis Zapatero. Uma investida discreta, em que as instruções são insinuadas de forma informal para conseguirem passar a mensagem sem grandes perturbações e testar as reacções das partes implicadas. Indo devagar, aprovando uma medida hoje, outra amanhã para não levantar ondas e evitar as manifestações que enchem as ruas, vão-se tirando as cruzes das enfermarias dos hospitais mesmo contra a vontade dos utentes, aprovando estatutos para os capelães que deixam de ter autonomia para de visitar qualquer doente, tudo em nome da laicidade e imparcialidade do Estado, mas inspirados por ímpetos republicanos e jacobinos de outras épocas, para tornar o país e a sociedade tão limpa quanto possível das bafientas, maléficas e ameaçadoras referências à religião católica, e afastá-la tanto quanto possível do convívio com a hierarquia da Igreja Católica maioritária no país e parte fundamental e integrante da nossa tradição, história e cultura.

De um ponto de vista antropológico seria interessante estudar esta vontade de despir a sociedade dos seus valores religiosos (que hoje, só para lembrar quem teime em viver no passado, não são nem coercivos nem opressores) que a formaram, que lhe são específicos e que são tão naturais ao ser humano. Seria interessante perceber esta vontade de criar um vazio, um grau zero de religiosidade social e do Estado, numa altura em que temos um Estado inegavelmente laico (e ainda bem) e em que a religiosidade hoje se manifesta mais através de alguns rituais, de referências e de feriados (que ninguém ousa tocar, com excepção do católico Cavaco Silva quando era Primeiro-ministro) do que através de uma prática que transborde e influencie determinantemente o Estado. Mais interessante ainda seria perceber esta intolerância face ao que é “nosso” (num sentido lato) face às nossas referências religiosas de que fala VPV e que resulta da tolerância à diversidade. Se hoje se tolera na sociedade ocidental, e provavelmente em Portugal também - só que ainda não o sabemos - a propaganda islâmica, se preferirem, de ensino corânico, que prega a perversidade essencial do Ocidente e tenta promover a sua expeditiva eliminação (cintando VPV), como é possível que alguns sectores se sintam ameaçados na sua liberdade, nos seus conceitos por coisas simples, mas que inegavelmente traduzem uma identidade, uma religião, uma cultura, uma tradição, que as nossas, como nomes de Escolas, a presença de um Bispo numa inauguração ou um cantar de Janeiras?

30.12.07

Dos Balanços do Ano 2

A omnipresença

De Deus. Ele está em todo o lado, e 2007 não foi excepção. No Kosovo, na entrada da Turquia na UE, nos atentados de Argel, na Birmânia, no Afeganistão, na Rússia, no Sudão, no Médio Oriente. Na intolerância, na radicalização religiosa, na perseguição, na discriminação (sobretudo das mulheres). Nas revoluções dos costumes, no aborto, no casamento dos homossexuais, no divórcio, na contracepção, na inseminação artificial, nas experiências em embriões, nos preservativos. Na política, em Sarkozy na viagem a Roma, no Papa Bento XVI e a sua cruzada constante sobretudo na Europa (à deriva, segundo ele) pela valorização do legado cultural cristão bem como dos valores cristãos numa sociedade (ocidental) cada vez mais materialista e relativista.

De José Sócrates. Ele está em todo o lado, tal a preocupação em zelar pelo nosso interesse, sobretudo onde não deve. Na obesidade que devemos combater, no jogging que não fazemos e que em qualquer lado do mundo ele nos lembra, nos cigarros que fumamos, nas graçolas que dizemos aos colegas de trabalho, no dever de dizer quando sabemos quem não paga imposto, no óleo em que fritam os rissóis que vamos comprar, nas consultas para deixar de fumar, no estímulo à natalidade, nas certidões de habilitações passadas ao Domingo, nos momentos de glória “porreiro, pá!”, na distribuição de computadores pelas escolas nos “momentos Chavez”, no Inglês Técnico do Middle West, na West Coast Of Europe, no Allgarve, nos sapatos Prada, na revolução tecnológica que não percebemos e que tantas vezes simplesmente não funciona. E enfim, ele está presente no governo que nos governa, e na oposição que não temos.

19.12.07

Outros Mundos

Enquanto que em muitos países do mundo em que o secularismo está bem radicado e em que há uma clara separação entre o poder (político, judicial e legislativo) e a religião, se insiste em criticar, condenar e por vezes até ridicularizar qualquer acto ou ritual religioso que envolva um mínimo aparato e visibilidade noutros, como o caso do mundo islâmico hoje, vive-se uma festa religiosa importante, Aïd El-Kebir (no Norte de África, sendo também conhecida como Eid ul Adha). Manda a tradição que, em memória do primeiro profeta cuja submissão a Deus o teria levado a sacrificar o seu filho, cada família sacrifique um carneiro (ou outro animal). Cabe ao pai de família, numa mostra de religiosidade e de masculinidade, degolar o carneiro sob o olhar atento dos familiares, nomeadamente dos seus filhos que terão que aprender a um dia a fazê-lo, e de acordo com um determinado ritual. Quem vive em apartamentos ou casas pequenas fá-lo na rua, que se enche de gente, carneiros ainda vivos, outros já degolados e sangue que em abundância escorre por todo o lado. Nesses países poucas vozes criticam os rituais religiosos e poucos defendem o secularismo do Estado. Outros mundos.

12.11.07

Puxão de Orelhas

Noto que há uma estranha unanimidade apoiando e concordando com o Papa Bento XVI no seu “puxão de orelhas” aos Bispos Portugueses em Roma na visita Ad Limina. Televisões, jornais, todos noticiam com gáudio mal disfarçado o dito “puxão de orelhas”. De repente parece que o país acorda para a excessiva clericalização da Igreja Portuguesa e depressa se aponta o dedo à hierarquia. Não sou excepção e também o aponto, e aponto em várias outras matérias igualmente relevantes que são sistematicamente esquecidas, mas aponto o dedo sobretudo aos tantos católicos portugueses de todas as faixas da sociedade e de todas as idades, que contribuem para essa excessiva clericalização da Igreja quer pela passividade, quer pela falta de exigência consigo próprios e com o clero. Não dispensam o “Sr. Padre A” ou o “Sr. Padre B” para abençoar qualquer decisão moral que tomem, qualquer evento em que participem, qualquer opção significativa para a vida. A figura do “Sr, Padre”, sem nenhum desmerecimento para os Senhores Padres, é ainda hoje no meio católico (mas não só) excessivamente reverencial, algo distante e tantas vezes incontestada. Dou um exemplo que pode parecer irrelevante, mas que ilustra essa distância entre o “clero” e os leigos: por essa europa fora os católicos tratam os padres com que trabalham e/ou convivem pelos nomes próprios; aqui em Portugal – e creio que não me engano – essa é uma situação raríssima. O Padre trata quer pelo nome próprio quer por tu o católico com quem tem maior proximidade, o caso inverso rarisssimamente se aplica. Só o “Sr Doutor” (o médico especialista note-se) ainda tem em Portugal igual grau de reverencialidade, de autoridade e infalibilidade. Se a Igreja em Portugal tem de ser menos clerical cabe também aos leigos portugueses fazê-la mais “sua” e menos “dos padres”. Cabe também aos leigos exigir mais e melhor qualidade nomeadamente do clero. Provavelmente voltarei a este assunto.

21.10.07

Da Ortodoxia

Quando li este texto - escrito há seis dias, uma eternidade blogosférica - percebi bem essa simpatia pela ortodoxia tranquila e silenciosa, que não se impõe, que se faz todos os dias com disciplina e abnegação, que conhece o percurso, o passo seguinte e nunca deles se desvia mesmo nos momentos em que, por um breve instante, hesita diante dos remédios ou das soluções. Se a ortodoxia é difícil e requer renúncia, ela também dá conforto, alguma tranquilidade e sobretudo uma certeza de pertença. A ortodoxia é normalmente uma prática de grupo, os ortodoxos apoiam-se, conhecem-se, usam uma mesma linguagem e têm os mesmos códigos. Vivem a sua opção pessoal inseridos numa comunidade mais ou menos presente: juntos afastam a “fraqueza”, a imperfeição e a insegurança – colaboram, apoiam-se e vigiam-se. Vivem da nostalgia de uma prometida utopia que, melhor ou pior tentam recriar... Há admiráveis ortodoxos, compassivos, tolerantes, abertos ao outro e estranhamente conhecedores das fraquezas do mundo. É impossível não os admirar.

Mas a ortodoxia não serve os solitários ou os individualistas – os que questionam percursos, caminhos ou soluções. Os que tantas vezes se refugiam na prática, nos rituais e na disciplina para esconder a dúvida. Os que não gostam de disciplina, que não se revêem em práticas ou rituais, mas que têm poucas dúvidas. A segurança de um grupo acaba por intimidar tantos dos que lêem um livro, e mais outro, outro ainda e nunca os queimam, nem em fogueiras nem na cabeça, mas guardam-nos para lembrarem, relerem, pensarem, ajuizarem, criticarem e claro duvidarem. Por muito apelativa e tranquila que seja a ortodoxia, por muito que a olhemos com admiração e uma ponta de inveja, eu desconfiarei sempre dela, tão perfeita e tão segura, tão cheia de certezas e preferirei sempre a heterodoxia, a contradição, a imperfeição, a hesitação, a procura, a dúvida, a certeza que às vezes se confunde com a incerteza.

2.10.07

Hospitais, Capelanias e Anti-Clericais 3

Ao considerar que, por defeito, o doente no hospital tem direito a assistência espiritual, há que saber como providenciá-la. Admito que esta questão hoje, devido a uma maior multi-culturalidade da nossa sociedade, se coloque de forma diferente daquela que se colocava há vinte ou trinta anos atrás. Se, parece ainda fazer sentido a manutenção de um capelão Católico (porque o catolicismo é maioritário) de acordo com as necessidades e tamanho (número de camas) e tipo de hospital, percebo a necessidade de haver uma ligação a outros assistentes espirituais de outras religiões, e porque não a assistentes espirituais sem ligação a nenhuma estrutura religiosa (existem e são úteis nomeadamente para cépticos que no entanto “se questionam”). Terá que haver sensibilidade suficiente de quem coordena tal apoio para que, mesmo em situações de carência de um ou outro representante da religião professada pelo doente, quem lá esteja saiba despojar-se e abrir-se às necessidades do doente. O argumento de que há padres que abusam da sua situação, que tentam impor sacramentos ou tentar conversões (a sério? Ainda há disso hoje?) é igual ao argumento de que o médico foi insensível ou fez um mau diagnóstico, ou de que o enfermeiro é desatento e descuidado, e não é por isso que se prescinde dos benefícios nem da medicina nem dos cuidados dos enfermeiros. As reclamações terão ser feitas a quem de direito, sobre médicos, enfermeiros, auxiliares, recepcionistas ou capelães. Nem mais nem menos.

Como frisei antes, cada vez se passa menos tempo no hospital, mas há muitas pessoas que passam lá tempo demais, e é lá também que muitos se confrontam pela primeira vez com a morte. A morte de alguém pode ser notícia, mas a inexorabilidade da morte, o seu aproximar, ou as condições em que se morre hoje em Portugal nunca deu notícia nem sequer dá votos. É um dos assuntos de que não se fala. Um dos últimos tabus, e por isso nem sequer faz parte do discurso dos políticos ou entra nas intenções das campanhas eleitorais. Imagine-se um político em campanha a anunciar que as necessidades espirituais do doente (cuja importância na cura, na qualidade de vida, ou na tranquilidade perante a morte, me dispenso de referir, pois parece ser assunto de consenso) como uma prioridade de governação, ou anunciar como paixão os Cuidados Paliativos. No entanto...

1.10.07

Hospitais, Capelanias e Anti-Clericais 2

De acordo com o que tenho lido na comunicação social sobre o projecto-lei do Governo sobre a questão dos capelães católicos nos hospitais, a proposta parece ir no sentido de o doente, quando é admitido no hospital solicitar assistência religiosa de acordo com a religião que professa e pratica, de acordo com a sua fé e com a sua vontade. Ora um doente ao ser admitido num hospital não está, muitas vezes, na posse de todos os dados referentes à sua situação clínica ou mesmo à sua evolução que pode ser imprevisível ou modificar-se em relação ao que ele esperava. Se é verdade que hoje se passa cada vez menos tempo no hospital, e que os internamentos são tão curtos quanto possível, também é verdade que aí se passam muitos dos momentos mais significativos e marcantes da vida de cada um e dos seus e que no meio de mudança, imprevisibilidade e sempre pairando no ar bem ao fundo a morte, a pessoa muda. As certezas mudam, as incertezas também. As prioridades reorganizam-se, os anseios também. E o que é um facto é que no momento em que se é admitido num hospital, ninguém sabe realmente o que vai acontecer durante a estadia, nem sabe de certeza em que condições vai sair, nem tão pouco se vai sair. Nesta encruzilhada de incertezas e fragilidades o doente, independentemente do credo religioso que professe ou mesmo que não professe nenhum, tem um sentido espiritual mais apurado do que noutras circunstâncias, mesmo quando nega a dimensão religiosa. No nosso, país com a nossa cultura, essa ânsia espiritual, tem normalmente como expressão visível uma aproximação aos sacramentos da religião Católica, mas essa é uma das possíveis expressões de religiosidade ou simplesmente de espiritualidade, mesmo que o doente nem se dê conta disso. Um capelão aberto ao outro, ou alguém com experiência nessa área de aconselhamento espiritual sabe detectar esses sinais.

Os doentes têm direito a essa assistência e têm direito a saber que ela existe, que está ali, que é só estender a mão que ela lhe é dada. Que não é preciso uma decisão racional, uma declaração de intenções, ou uma clara expressão de vontade em tê-la. Se se dependesse da vontade expressa do doente, muitos que tiveram o apoio ou a ajuda desse aconselhamento sem o terem solicitado, mas só porque lá apareceu alguém para eles e para lhes dar um momento de atenção, não o teriam tido. Dito isto, creio que a vontade expressa terá de ir no sentido oposto: no sentido de não querer essa presença ou esse apoio espiritual. O direito a tê-lo terá sempre de ser mais fácil, e mais natural - porque decorre da natureza humana e da natureza das circunstâncias e porque a sombra da morte não deixa indiferente - do que o direito a não o ter que é seguramente legitimo e deve ser respeitado. Este princípio é violado neste projecto-Lei. A laicidade de um estado não pode esconder a face religiosa da sua população.

(Continua)

30.9.07

Hospitais, Capelanias e Anti-Clericais 1

Apesar de não conhecer em detalhe o tipo de funcionamento das capelanias nos hospitais, as obrigações contratuais de ambas as partes, os custos e mesmo a pertinência da manutenção do modelo de serviço tal qual ele é prestado hoje, quase em exclusividade – senão em exclusividade total pela Igreja Católica, admito desde já a necessidade de que seja revisto e de que haja aspectos obsoletos e desajustados à realidade do Portugal de hoje que necessitem de reformulação. Sou também inequivocamente partidária de um estado laico e da rigorosa separação entre a religião (seja ela qual for) e o poder político e a sociedade. O que continuo a não entender é que para alguns sectores conservadores, sim que o anti-clericalismo e a bandeira da laicidade do Estado num país como o nosso e nos dias de hoje parece-me uma posição muito conservadora que terá tido a sua justificação noutros momentos da História, se confunda laicidade com uma recusa cega em aceitar a religiosidade de uma população e um sentimento religioso maioritário numa sociedade. Nesta semana que passou o debate sobre a proposta do governo de alterar o funcionamento das capelanias e assistência espiritual nos Hospitais trouxe tais sentimentos anti-clericais à tona na comunicação social e nalguns blogues nomeadamente aqui, aqui e aqui.

Um estado laico não pode ser nem surdo nem cego perante a realidade religiosa de um país. Esta realidade não é só feita da fé, por muito que os sectores mais conservadores da Igreja o pretendam, é feita muito e talvez sobretudo de uma realidade cultural. Se só se casasse pela Igreja quem tem fé, se só participasse nas diversas órbitas da Igreja quem tem realmente fé, teríamos ainda menos católicos praticantes e fieis aos sacramentos do que temos hoje. O aspecto religioso é bem mais complexo, amplo e vasto e está enraizado na nossa cultura e é impressão digital da nossa civilização (ver aqui). Ao minimizar ou negar este facto o anti-clericalismo está, ao contrário do que pensa, a ser faccioso e não isento, pois ignora a liberdade individual de ser religioso da forma que bem se entenda, nomeadamente de ser um mau religioso, um religioso assim assim, de não acreditar muito, mas sentir-se melhor com a imagem de N. Senhora de Fátima ao lado, de não concordar com a confissão, mas gostar de saber que se quiser tem uma igreja aqui e um padre ali, de nem se dar ao trabalho de ir à missa ou jejuar duas vezes por ano, mas dar sempre 50 Euros para as festas do santo da terrinha e queimar umas velas, de só se lembrar de Santa Bárbara quando troveja, mas de chamar um padre para benzer a casa, o barco, a nova fábrica, a nova escola. Outra característica do anti-clericalismo é uma obediência ao politicamente correcto actual tentando sempre uma espécie de humilhação ou subalternização da Igreja Católica ao pretender que em Portugal todas as religiões têm a mesma expressão, a mesma importância e relevância social, intelectual, afectiva e simplesmente numérica. Não têm como todos bem sabemos.

(Continua)

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